10 de junho de 2026

A transparência de um país começa pela transparência do modelo econômico, por Luís Antônio Bambace

Muitos modelos econômicos linearizam a realidade, mas como ela não é linear, há erros crassos nas ações baseadas neles.

A transparência de um país começa pela transparência do modelo econômico

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Luís Antônio Waack Bambace

Países desenvolvidos tem modelos econômicos abertos, aí universidades e centros de pesquisa testam variações do modelo oficial, para ver o que se ajusta melhor à realidade, ajudando a melhorá-lo e garantindo melhores decisões da autoridade econômica. Em repúblicas de bananas, que não cobram atitudes do governo e tomam partido de pessoas, o modelo é mocado. Aí a experiência dos desenvolvedores da autoridade econômica não se soma à acadêmica, que saindo do zero, ou de algo que alguém leve a universidade, terá muito mais trabalho para desenvolver um bom modelo. Modelos de países desenvolvidos usam por exemplo Fuzzy Logic, e tem várias dezenas de milhares de graus de liberdade. Em alguns lugares há até a suspeita de que gente ligada à autoridade econômica, ao sair leve cópias do modelo oficial para vender consultorias. Afinal o mundo está cheio de lugares atrasados, na África, na América Latina da garantía soy jo.

Muitos modelos econômicos linearizam a realidade, mas como ela não é linear, há erros crassos nas ações baseadas neles. Na crise asiática de 1999, com previsões de modelos lineares de que juros altos melhorariam a situação cambial do país, subiu-se os juros para 40% ao ano, aí teve gente que comprou arroz velho do estoque regulador da Tailândia, a juros de 3% ao ano em dólar, 2 anos de carência e mais 3 anos para pagar. Vendia arroz a vista e punha na ciranda financeira e fazia contrato futuro de ouro, para se proteger do aumento do dólar. Resultado, a importação subiu no setor, o modelo não previu a fuga de dólares, pois este não foi um caso isolado, e produtores de arroz do Brasil quebraram. Caso todos conhecessem o modelo público, talvez alguém visse a fragilidade do uso de modelo linear, ou tivesse um modelo que previsse a situação. Aí se saberia se estes juros impediram uma inflação maior que os quase 20% registrados, ou causaram um aumento de preços ainda maior, face ao aumento de exportações e a decorrente escassez de muita coisa no mercado interno.

Lobista pressionando governos é que não falta. Transparência é defesa de governos às pressões deles. Se todos veem que algo é errado, o lobista sabe que não pode forçar o governo a fazê-lo, eles sabem que podem peitar um político isolado manipulando uma opinião pública mal-informada, mas não toda uma nação esclarecida. Será que juros altos quando a inflação se deve quase que só aos preços administrados não é fruto do lobby de concessionárias de serviços públicos que visam preços relativos cada vez maiores em relação a todos os outros e maior lucro? Sem demanda e sem poder repassar o aumento de custos, muitos vão ter que entregar sua margem de lucro a estas concessionárias, e pior, muitos vão quebrar. Juros altos com demanda fraca baixam a arrecadação de impostos. Quanto maior o juros, mais caro o serviço da dívida. Então porque justificar juros mais altos face à incerteza fiscal? Não há juros que façam alguém comprar títulos de país com alto risco de calote. Modelos lineares não olham a inflexão da opinião do investidor. Será que no caso de um monopólio reduzir a produção e aumentar preços visando maiores lucros, a elevação de juros tem qualquer efeito no preço do que este monopólio produz? Quem será que controla a difusão das ideias econômicas, quem trabalha e não tem tempo para ganhar dinheiro, ou os espertos que especulam?

Spreads altos desestimulam tanto a poupança, quanto os investimentos produtivos. Mas pode ser pior. Os spreads bancários do Brasil são escandalosos, geram lucros imorais do setor financeiro. As empresas nacionais de fato vão fechando, sem poder competir com as de fora que obtém capital de giro muito mais barato junto a bancos estrangeiros parceiros de suas matrizes, e sempre podem garantir o câmbio no mercado futuro de algo. Aí fica tal e qual a piada do pardal que não quis ir para os trópicos no inverno, fez a festa até o frio apertar, e quando tentou voar para os trópicos já era tarde, quase escapou com o calor do estrume de uma vaca, mas ao não ficar de boca fechada foi comido por um predador. Os próprios bancos nacionais não públicos vão fechar o dia que não tiver nenhuma empresa nacional importante. Aliás o Itaú é parte do Citibank. Se não houverem bancos públicos então… Porque não há leis que garantam bancos públicos regulando o spread e sem favorecer indevidamente ninguém em seus empréstimos? Uma coisa é independência do Banco Central com transparência total do modelo usado, outra é com o uso de um modelo em segredo. Escapa de pressão política do governo, e vem a pressão política de lobistas.

Os USA emitem moeda e exportam inflação para o mundo todo, face a termos de aceitar o dólar como moeda de troca internacional. Se o preço do macarrão sobe muito lá, eles compram aqui, e como eles tem muito dinheiro, façam as autoridades o que for com o juros, o preço sobe aqui. Um confisco cambial como o do café no passado garante um diferencial de preços entre o preço interno e o de compra por eles. Controla a inflação melhor que o juros. O confisco cambial é combatido a ferro e fogo pela turma que diz que o Brasil não tem jeito por ter sido colonizado por portugueses, ideia falsa usada para tirar nossa esperança de melhores dias e facilitar as maracutaias de quem ganha muita grana com essa desesperança. Como têm um lobby poderoso, descarta-se o que não é bom para eles. O Banco Central pode pôr o juros a 100% ao ano, que não vai resolver a questão do preço do milho e da soja, que sofre pressão da escassez gerada pela guerra da Ucrânia. Fora a questão do uso exagerado de fertilizantes que também está com problemas de escassez. Aplicado como sólido granulado no solo, nosso fertilizante é lavado pela chuva e vai para os rios. Se fosse aplicado em dosagem diminuta, o tempo todo na água de irrigação, só se usaria o que as plantas absorvem, e as quantidades empregadas cairiam de 3 a 6 vezes. Mas mais uma vez, a falta de informação pega. Afinal grandes cartéis do setor querem seus lucros. E saibam que a EMBRAPA faz uma força danada para difundir a fertirrigação. Sem tanto fertilizante carregado pela chuva, não teríamos algas e plantas em excesso, nos rios e lagos, tirando seu oxigênio, e estragando nossas fontes de água limpa. Seria bom o André Trigueiro fazer um  “Cidades e Soluções” sobre fertirrigação. Houvesse de fato transparência na questão de modelos econômicos, de práticas agrícolas, de uso de verbas públicas e tantas outras coisas e tudo seria melhor. Afinal na questão do gasto público, o que importa é a qualidade do gasto. Na área ambiental, a qualidade das ações também importa muito.

Luís Antônio Waack Bambace – Eng. Mecânico. PhD em Aerodinâmica, Propulsão Energia.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados