24 de junho de 2026

O Teto, por Felipe Bueno

Sujeita ao FMI, buscando capital estrangeiro na China ou no Brasil, a Argentina vai chegando ao limite de uma crise

do Observatório de Geopolítica

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O Teto

por Felipe Bueno

BUENOS AIRES – Durante a última hora e meia passada em Buenos Aires tive a visão mais desoladora e que me inspirou mais reflexões, especialmente porque tal cena se pode projetar em muitas cidades do mundo.

Aeroporto Jorge Newbery, manhã de domingo, por volta das 5h30: você chega, obrigatoriamente ainda com sono e automaticamente melancólico por deixar um lugar no qual passou ótimos momentos.

É fim de abril, outono, a temperatura está em torno de 14 graus.

O Jorge Newbery é um aeroporto relativamente pequeno para uma capital, assim como Congonhas ou Santos-Dumont. Fica à margem do Rio da Prata e são comuns os ventos fortes e frios. Está ladeado por avenidas largas e vizinho de uma zona portuária, perto de bairros como Palermo, Nuñez e Belgrano e a poucos quilômetros do Centro.

Foi nessa área da cidade que, naquela manhã de domingo, vi, pelos corredores do aeroporto, mais de cem moradores de rua. Homens e mulheres, adultos e crianças, muitos sozinhos, alguns casais, poucos em família, todos com seus pertences. Fugindo do frio e das demais adversidades das ruas, compondo um cenário surrealista que une pobres sem-teto, posters de paisagens magníficas, restaurantes caros e viajantes carregando suas malas e sacolas de compras.

Um mural que poderia ter sido pintado por Rivera, Orozco ou Siqueros, artistas que tomo emprestados do México, país com tantas semelhanças nessa nossa pobre América Latina.

América Latina assustadoramente contraditória, rica e carente, tão bem descrita nas páginas do colombiano Gabriel García Márquez, do argentino Rodolfo Walsh, do uruguaio Eduardo Galeano e do brasileiro Graciliano Ramos, para ficar com apenas alguns exemplos. Mesmo quem aparentemente não tem nada a ver traz em si alguns cromossomos de realismo mágico, essa impressionante e única (con)fusão entre verdade e ficção tão natural em nossas terras.

Voltando ao Jorge Newbery, fui atrás da ilusão de que aquilo era apenas um momento, mas no fundo sabia, o que confirmei consultando vários veículos de imprensa locais, que trata-se de uma rotina.

A Argentina fechou o ano de 2022 com uma inflação de 94,8%. A realidade atual indica que o processo será mantido. Euros, dólares e reais compram mais pesos de uma semana para outra. E o país, de economia historicamente dependente do dólar, se prepara para mais um tenso processo eleitoral em 2023.

Sujeita ao FMI, buscando capital estrangeiro na China ou no Brasil, a Argentina vai chegando ao limite de uma crise da qual só sairá com um grande projeto de união social, para evitar que tragédias se repitam.

Quem não se lembra dos cinco presidentes em doze dias na virada de 2001 para 2002?

Muito pior que isso, um país que demanda um novo Alfonsín não pode ter um simulacro de Videla, com ou sem farda.

Talvez essa consciência de que todos correm o risco de perder faça com que esses desamparados sejam acolhidos em vez de expulsos do Jorge Newbery – administrado, aliás, por uma empresa privada – enquanto não conseguem um teto digno.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. A publicação do artigo dependerá de aprovação da redação GGN.

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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