Por falar em Fernando Pessoa…
por Izaías Almada
Passando em revista os meus alfarrábios, deparei-me com um documento escrito há alguns anos para a apresentação a produtores de cinema no Brasil e em Portugal, bem como para editais da cultura. O projeto não conseguiu atingir os seus objetivos e o filme até hoje não se fez. Uma pena, para dizer o menos!
O MARINHEIRO DAS NUVENS
JUSTIFICATIVA DE DRAMATURGIA E REALIZAÇÃO
Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
(A Passagem das horas, Álvaro de Campos)
Um filme luso-brasileiro que, na sua dramaturgia, destaque aspectos da vida e da obra do poeta Fernando Pessoa pode partir de uma abordagem “brasileira” do tema. E por que não?
Portugal tem um grande zelo por aquele que entende ser um de seus maiores patrimônios artísticos e intelectuais. Como terá também por Camões, Gil Vicente, Eça de Queiroz, Castelo Branco e tantos outros. E é natural que assim seja… Mas esse orgulho se estende além-fronteiras, mesmo considerando o poeta de MENSAGEM um patrimônio cultural da língua portuguesa falada em Portugal. Prova-o, entre outras obras, o livro do francês Robert Bréchon “Estranho Estrangeiro” (Etrange Etranger, no original) editado em 1996 em Lisboa, um dos últimos e mais abrangentes trabalhos sobre o poeta.
Nossa sintaxe, gramática e dialeto é o brasileiro, mas isso não impede que uma abordagem cinematográfica a partir dessa sintaxe, dessa gramática e desse dialeto se torne aliciante e profícua, quando se sabe – entre outras coisas – que a época na qual Pessoa viveu, o Brasil passou por um de seus momentos culturais mais efervescentes e criativos, em particular nas artes plásticas, na literatura e na música erudita e popular.
Arriscamo-nos mesmo a dizer que, se em algum momento os brasileiros entenderam um pouquinho a alma do poeta português (e o poeta é um fingidor), que ele mesmo – heteronimicamente ou não – gostaria de ver sua vida e sua obra filtrada também pela criatividade e – porque não dizer – pela irreverência brasileira. Ele não enviou ele o seu Ricardo Reis para o Brasil?
Nesse fértil terreno, são muitas as idéias e vasto o caminho a percorrer, mas temos que escolher algumas e com elas iniciar o trabalho. Foi o que se fez. E assim criamos uma imaginária viagem de Fernando Pessoa ao Brasil, o que – em nossa perspectiva, insistimos – muito o teria agradado enquanto viveu.
Assim como Saramago criou a viagem de Ricardo Reis ao Brasil, temos a liberdade de trazer também o criador de Reis, Fernando Pessoa, ao Brasil.
Ao contrário do que se passa em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de Saramago, ele virá para visitar seu “amigo” e heterônimo, já que motivos para isso não lhe faltarão. Desde a possibilidade de uma discussão sobre determinado tema poético-filosófico, como uma viagem para esquecer a morte do amigo Sá Carneiro, ou mesmo para esquecer Ofélia, sua paixão mal resolvida. Ou ainda para falar com os modernistas de 1922… Pessoas entre as quais se sentiria à vontade. Para conhecer o candomblé da Bahia ou o samba de partido alto.
Enfim, a imaginação poderá dar vôos maravilhosos nessa digressão, que muito combina com a imaginação do próprio poeta. Apontar nessa direção é ir ao encontro de um grande público universitário e não só no Brasil, mas também dos amantes da boa poesia e literatura, da alma luso-brasileira.
Ficção e realidade, num apaixonante jogo de memória e imaginação, tão ao gosto de Pessoa e seus heterônimos. Uma das cenas iniciais, aliás, mostra os “heterônimos” que saem do Fernando Pessoa, ao caminhar o poeta por uma rua de Lisboa, efeitos visuais que os recursos da pos-produção moderna tão bem podem construir.
Ao lado da fantasia, as angústias e a realidade, o dia-a-dia junto aos amigos, angustiados construtores, como ele, de uma nova poesia em Portugal: Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros.
O encontro e os “promenades” de FP e RR no Brasil são aliciantes… Pode-se imaginar, por exemplo, que delícia não seria Ricardo Reis convidar Pessoa para ir a um bar noturno da Lapa e poder ouvir ali um samba de Noel Rosa ou Lamartine Babo, dois dos maiores compositores populares brasileiros dos anos 20 e 30?
Ou o encontro de Pessoa com a sua conterrânea Carmen Miranda, a “bomb shell” universalizada pelo cinema norte-americano?
Ou vir a conhecer o jovem jornalista Nelson Rodrigues a quem dá umas idéias para poemas dramáticos, o que nos remeteria a um não tão fantasioso paralelo entre as mulheres de “O Marinheiro” e algumas cenas rodrigueanas escritas alguns anos depois…
Ficção, realidade, misticismo… O lado místico do poeta, misterioso e cabalístico mesmo (seu relacionamento com o mago Aleister Crowley, entre outros, é prova disto) poderá se impressionar com algum ritual afro-brasileiro, dialogar com Mário de Andrade, o criador do famoso “Macunaíma”, um dos mais importantes romances da literatura brasileira, ou ainda com o grande compositor Heitor Villa-Lobos, autor de “As Bachianas”.
Vôos de imaginação é o que – com certeza – não faltarão a uma hipotética viagem de Fernando Pessoa ao Brasil, fato que traz também vantagens em termos de uma coprodução entre Brasil e Portugal, e porque não dizer até com os EUA, beneficiando-se com isso os decors (cenários), os figurinos, a escolha de elenco, a trilha musical, etc., etc…
O desafio é aliciante e a idéia tem lá um alto coeficiente de originalidade, podendo mesmo – com grande sinergia criativa – se transformar num filme de grande valor artístico e um significativo apelo comercial.
MARINHEIRO DAS NUVENS transforma em imagens uma parte do inesgotável e profundo mundo do imaginário de Fernando Pessoa, um imaginário solto, sensível, irreverente, iconoclasta, modernista e – acima de tudo – de um humanismo que nos comove até as lágrimas.
“Come chocolates, pequena! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.”
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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