5 de junho de 2026

A lucrativa desertificação do real, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O inferno é a ilusão, mas nós paradoxalmente rejeitamos a realidade e queremos ser iludidos pela esperança e pelo desespero.

A lucrativa desertificação do real

por Fábio de Oliveira Ribeiro

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O homem só pode realmente viver depois que caminhar despreocupado pela floresta das esperanças e em algum momento ser obrigado a atravessar o pântano do desespero até finalmente perceber as verdades essenciais: a vida é um fenômeno biológico transitório, a morte é um privilégio do qual ninguém pode privar o ser vivo, a esperança e o desespero são apenas ilusões que nós mesmos criamos porque somos culturalmente levados a fazer isso. O inferno é a ilusão, mas nós paradoxalmente rejeitamos a realidade e queremos ser iludidos pela esperança e pelo desespero.

O que os algoritmos das plataformas de internet fazem com muita eficiência é sincronizar as esperanças e as ilusões até transformar a experiência pessoal do inferno (um aspecto importante da evolução de cada ser humano) num inferno real socialmente compartilhado (algo extremamente perigoso). Não gosto muito de ser pessimista, mas suponho que isso vai piorar bastante nos próximos anos. Não é possível interromper um fenômeno histórico que já está se consolidando como uma força econômica hegemônica e que se tornou capaz de deformar o campo político de maneira tão rápida e avassaladora.

Alguns anos atrás, o filósofo Slavoj Žižek fez reflexões importantes sobre o mundo em que vivemos. Disse ele:

“O resultado último da subjetivação global não é o desaparecimento da realidade objetiva, mas o desaparecimento de nossa própria subjetividade, que se transforma num capricho fútil, enquanto a realidade social continua seu curso.” (Bem Vindo ao Deserto do Real! Slavoj Žižek,Boitempo Editorial, São Paulo, 2003, p. 105)

Num deserto real, as tempestades de areia são aleatórias e incontroláveis. Ninguém é capaz de direcioná-las ou mesmo de prever quando e onde elas irão surgir e cessar. Os algoritmos das plataformas de internet alimentam e sincronizam as emoções tóxicas das pessoas transformando-as em grãos de areia até produzirem imensas tempestades que podem ser controladas e direcionadas com grande precisão até alterar o curso da realidade (algo que Slavoj Žižek não percebeu).

Usar a teoria de Freud para refletir sobre o que está ocorrendo como fez o jornalista Luis Nassif pode ser interessante. Mas nós precisamos ir muito além dela.

Nós já atravessamos outro Rubicão. Na atualidade, a desertificação algorítmica lucrativa do real é a único fenômeno histórico importante e permanente. Quanto maior o dano causado à realidade social pelas redes sociais, maior o lucro e o poder que os donos das plataformas de internet conquistam. Tanto que até hoje ninguém sequer cogitou responsabilizar os donos do Facebook e do Twitter pelos estragos que aconteceram durante a invasão do Capitólio nos EUA em 06 de janeiro de 2021 ou pelo terrorismo militar-evangélico que explodiu em 08 de janeiro de 2023 no Brasil.

O deus a que se refere o brasileiro em inglês não é o norte-americano que ele evidentemente imitou e sim o algoritmo do Facebook que radicalizou aquele cidadão dos EUA até ele fazer algo que normalmente não teria feito se expondo às consequências jurídicas desagradáveis que sofreu. Mas quem deveria ser realmente punido é o dono da plataforma de internet, pois enquanto as tempestades desertificavam o real nos EUA e no Brasil os lucros do Facebook aumentaram ao invés de declinar. 

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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