Uma chuva de sementes nativas em meio às tempestades dos venenos das empresas transnacionais
por Susana Prizendt
Estamos encerrando junho, mês marcado pelo Dia Mundial do Meio Ambiente. Desde que foi instituída, há 50 anos atrás, a data representa uma oportunidade para avaliar o modo como a sociedade humana, que se vê como algo separado da natureza, tem se relacionado com as demais espécies e com a paisagem planetária. A própria palavra “meio”, inserida antes da palavra “ambiente”, já revela muito dessa relação, explicitando que ele é entendido como o local (e o conjunto de recursos materiais) em que a humanidade, literalmente, se des-envolve – no sentido de impor uma distância entre ela e o que considera selvagem, estabelecendo para si o que passa a ser considerado o domínio do civilizado.
É por isso que nós, movimentos agroecológicos, costumamos falar que o dia 5 de junho é o Dia Mundial do Ambiente, dando um pontapé na palavra “meio”, para deixar nítido que não estamos na natureza: somos natureza. Toda a nossa atuação é para que tenhamos este ambiente – entendido como a teia de vida que entrelaça animais, vegetais, minerais e tudo o que compõe nossa Gaia – inteiro, e não pela metade, que é um outro significado que podemos atribuir à palavra “meio”.
A ocasião, sobretudo nos últimos anos, vem sendo sempre um misto de celebração e lamento. É que temos consciência de duas coisas: da maravilha que é o organismo vivo chamado por nós de Planeta Terra, que deve ser reverenciado como uma dádiva, e do estrago imenso que as atividades humanas vêm causando nesse organismo, motivo para muita lamentação. Nessa mistura de sentimentos, sabemos que temos que encontrar um terceiro, que é o já tão citado esperançar, verbo criado pelo saudoso educador Paulo Freire – não à toa tão odiado por quem lucra com a destruição ambiental.
É um verbo poético que une a fé e a ação, como ocorre no próprio ato de cultivar, já que este envolve tanto o ato de plantar sementes quanto uma demonstração de confiança na força da vida para que elas germinem, cresçam e dêem frutos, sempre cuidando do que elas necessitam para que isso realmente ocorra. De fato, semear nunca foi tão necessário, já que chegamos a um ponto tão crítico que “preservar a natureza” não é mais suficiente, é necessário regenerar seus ecossistemas.
Seguir semeando ou esperançando, mesmo quando, a cada novo Dia Mundial do Ambiente, constatamos que a destruição avançou, requer muita resiliência, algo que nos últimos anos os movimentos sociais demonstraram ter, ao se manterem vivos e ativos em plena conjugação de crises sanitária, política e econômica. Mesmo duramente atacados e boicotados, eles (nós) mantiveram um vigor imenso ao lutar contra a retirada de direitos e o aumento da devastação ambiental promovidos pelo governo agrofascista da gestão passada.
Tempestades de veneno
E é aqui que a palavra “veneno” marca forte presença: em suas diversas formas, ele foi destilado mais do que nunca nos últimos tempos no Brasil. Uma delas se deu através da demonização dos setores mais progressistas da sociedade, por parte da elite reacionária, que não se conformou com a conquista de melhores condições de vida que o povão obteve nos anos Lula e Dilma. O discurso diário de ódio conseguiu cindir o país, resultando em uma brutal explosão de violências contra determinados setores e em uma séria ameaça à nossa frágil democracia.
Mas o envenenamento moral também foi acompanhado de um envenenamento físico, já que, em seus quatro anos de mandato, o desgoverno anterior soltou seus tratores e aviões – carregados de conteúdos tóxicos – sobre os povos das cidades, dos campos, das águas e das florestas. A investida agrofascista incluiu o desmonte de políticas públicas de apoio à Agricultura Familiar, nos deixando reféns da ação do Agronegócio mais retrógrado, aquele que desmata nossos biomas, mata ativistas ambientais, invade os territórios dos povos tradicionais e, literalmente, derrama chuvas de veneno sobre nossas terras, contaminando o ar, o solo, a água e os seres vivos.
Se estamos vivendo os efeitos da emergência climática planetária – com eventos extremos, como secas e inundações, se tornando mais agudos -, podemos dizer que o Agro que é tóxico soube entrar com tudo nesse “clima” de fim do mundo. No governo Bolsonaro, foram liberados cerca de dois mil novos agrotóxicos, uma média de 1,3 ao dia. Se já sofríamos com as chuvas de veneno até então, passamos a sentir na pele (e bem dentro dela) o que são verdadeiras tempestades dessa carga tóxica.
Entre as substâncias liberadas, em torno de 30% delas não são permitidas nos países de suas matrizes, como os países da União Europeia; muitas delas com alto nível de toxidade para os seres humanos e grande poder destrutivo em relação aos ecossistemas. E se os danos sociais e ambientais foram “despejados” sobre nós, os ganhos econômicos ficaram mais e mais concentrados pela elite agrária e pelas empresas do setor agroalimentar, grande parte delas de atuação transnacional.
Recordes de exportação de commodities, como a soja, associados ao apoio incondicional do governo às ações expansionistas do Agronegócio, permitiram altíssimos rendimentos para seus representantes e legaram o empobrecimento e o aumento da fome à população, inclusive do campo. Voltamos aos índices de pessoas famintas de mais de três décadas atrás e o tamanho da crise pode ser medido pela imensa demanda que as organizações sociais de auxílio a quem não tem o que comer passaram a receber.
Resistência e solidariedade
Lidar com a fome exige dois movimentos simultâneos: dar de comer “hoje” a quem está com a barriga vazia, e agir para que as condições sociais que geraram a falta de comida no prato sejam transformadas, o que se dá ao longo do tempo. E as duas missões foram encaradas com seriedade pelos movimentos urbanos e campesinos.
A rede de socorro às pessoas em situação de vulnerabilidade alimentar se ampliou, tanto na quantidade de iniciativas espalhadas pelo país quanto na intensidade dos esforços realizados. Aqui temos que mencionar que os povos do campo assumiram grande protagonismo, doando um volume gigantesco de alimentos aos povos da cidade. A agricultura familiar e os assentamentos e acampamentos da reforma agrária, mesmo sofrendo com os ataques do governo federal, foram fundamentais para que milhões de pessoas não passassem o dia sem uma refeição que desse forças para seguir lutando pela sobrevivência.
O Movimento das Trabalhadoras e Trabalhadores Rurais Sem Terra, hoje alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional, assumiu grande parte da tarefa de garantir comida à população mais vulnerável, doando milhares de toneladas de alimentos saudáveis nos quatro cantos do Brasil. Sim, se o Agrofascismo que assolou nosso país nos últimos anos nos trouxe fome e veneno, os movimentos campesinos se organizaram para fazer o contraponto, levando uma boa parte de sua produção agroecológica às pessoas famintas.
Mas, às ações emergenciais, somaram-se ações de combate às raízes da fome. Uma dessas raízes é justamente a devastação ambiental que estamos sofrendo, com a bancada ruralista fazendo a festa dos detentores das motosserras, ao atender às suas pautas predadoras da natureza. É assim que o MST assumiu a missão de plantar cem milhões de árvores nativas em nosso território e vem fazendo isso em municípios de todas as regiões brasileiras. É o plano Plantar árvores, produzir alimentos saudáveis, que, por razões óbvias, não ganha os mesmos holofotes que recebem os ataques que o movimento sofre nas sessões da famigerada CPI.
Sementes brotando do céu
Enquanto lutamos contra as tempestades de veneno que adoecem nossa terra e nossa gente e contra as garras dos setores mais violentos do Agronegócio e da mineração – que, em 2022, foram responsáveis por exterminar mais de 1200 árvores por minuto na Amazônia e provocaram um verdadeiro genocídio entre os povos originários, como os Yanomami, tentando expulsar as nações indígenas de suas terras ancestrais em todo o país, através de ataques às leis da nossa constituição -, também seguimos semeando.
Nós, movimentos agroecológicos, semeamos quando denunciamos o modelo produtivo predador e excludente que nos retira até o que é mais fundamental para a vida, como o alimento e a água livre de contaminação. Semeamos quando ocupamos os espaços públicos com nossas roças urbanas, mostrando que até mesmo no meio do asfalto é possível plantar e colher comida. Semeamos quando entramos nas câmaras municipais e assembleias legislativas para tentar impedir a aprovação de projetos de lei destrutivos de nosso futuro e lutar pela aprovação de medidas que permitam recuperar o que já foi devastado. Semeamos quando escrevemos nossos artigos para tentar tocar o que há de mais sensível nas pessoas.
E é por manter nossas diversas formas de semeadura que podemos seguir esperançando, mesmo com as previsões cada vez mais catastróficas que os cientistas do mundo todo vêm fazendo sobre o destino da nossa Gaia. Sabemos que, se há àqueles que desencadeiam tempestades de veneno sobre nossas cabeças, também há quem faça chover sementes dos nossos céus, como fez o MST recentemente, ao libertar em pleno ar quatro toneladas de sementes nativas sobre um dos biomas mais devastados do país – justamente o primeiro a sofrer com a invasão dos europeus há quinhentos anos atrás: a mata atlântica.
Se há setores de nossa sociedade que querem seguir promovendo a exploração e a destruição ambiental de que, há cinco séculos, o território hoje chamado de Brasil é vítima, também há quem não se curve ao peso das correntes de arrastão que derrubam nossas árvores; também há quem insista em estender a mão para compartilhar o pão que nos dá forças; quem siga fazendo a vida brotar todos os dias nas nossas terras tão atacadas, mas ainda tão férteis.
Para quem quiser se aventurar nessa jornada, uma oportunidade é conhecer os assentamentos da reforma agrária – o MST está com as portas abertas para mostrar como, em seus quarenta anos de existência, se tornou referência mundial na produção agroecológica. E uma ação realmente importante para não deixar que esse trabalho essencial seja abalado é assinar a Carta sobre a CPI contra o MST e contra a Reforma Agrária, que já conta com dezenas de milhares de assinaturas e será encaminhada ao Presidente da Câmara e aos líderes de todos partidos.
Que nós, semeadoras e semeadores, possamos ser cada vez em maior número e cultivar cada vez mais a coragem – tão necessária para resistir na luta – e o amor à vida – fonte da motivação para gestos tão surpreendentes como o de fazer chover sementes sobre o nosso solo, e regar as esperanças que temos em relação à viabilidade de nosso futuro.
Susana Prizendt é arquiteta-urbanista, integrante da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida e do Movimento Urbano de Agroecologia – MUDA
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
Deixe um comentário