4 de junho de 2026

A alegria de Mauricio Macri, por Maíra Vasconcelos

Macri, que contraiu a maior dívida da história com o FMI, disse que Juntos pela mudança e Javier Milei seriam os protagonistas das Paso
Milei e Macri: novo governo argentino deverá ter o histrionismo do eleito e a influência total do ex-presidente. Foto: montagem/fotos da campanha de Milei e Instagram de Macri

A alegria de Mauricio Macri

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por Maíra Vasconcelos

O ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019) mantém relações pessoais com o economista ultraliberal Javier Milei (A Liberdade Avança), candidato a presidente de extrema direita vencedor com 30,04% dos votos, nas eleições primárias na Argentina, as Paso (Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias), realizadas no último 13 de agosto. Comparado com uma versão nacional do ex-presidente Donald Trump, Milei, no entanto, não defende a indústria nacional. E, assim, Macri não tem escondido o seu duplo jogo eleitoral entre Milei e Patricia Bullrich, a candidata presidencial da ala linha dura da coalizão de direita Juntos pela Mudança, que obteve 16,98% dos votos e superou o atual prefeito da Cidade de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, que terminou com 11,3%. Macri, que em seu governo contraiu a maior dívida da história do país com o Fundo Monetário Internacional (FMI), $44 bilhões de dólares, disse que Juntos pela mudança e Javier Milei seriam os protagonistas das Paso. Ele acertou, mas certamente não contava que a primeira força seria o outsider da extrema direita, que recebeu uma ligação do ex-presidente para parabenizá-lo pelo resultado das eleições, “Macri me ligou para me felicitar e agradecer”, disse Milei. 

Logo após a realização das Primárias, Macri apresentou seu livro Para qué, em Montevideo (Uruguai), quando em entrevista analisou o resultado das Paso e afirmou estar feliz pela vitória conseguida não apenas pela coligação que representa, mas também pelo primeiro lugar de Milei. Segundo o ex-presidente, essa somatória de votos demonstra que o país está entrando em uma nova época, já que dois terços dos argentinos votaram em candidatos que pertencem a coligações de direita e extrema direita. “Estou muito feliz que a Argentina tenha finalmente entrado no que eu esperava e previa: uma mudança de era”. O antiperonismo tem sempre um resguardo nas palavras de Macri, seu legítimo representante. A partir da crise de 2001, com uma nova configuração política no cenário nacional, surgiu o kirchnerismo como um movimento dentro do peronismo, e o não peronismo representado pelo partido de Mauricio Macri. Alguns analistas acreditam até mesmo que, caso se repita o resultado das Paso nas eleições gerais de outubro deste ano, o país passará por um outro processo de reconfiguração das forças políticas, tal como aconteceu em 2001.

Assim, hoje, o ex-presidente Macri tem demonstrado seu apoio a Javier Milei, em favor de uma derrota histórica do peronismo, mesmo considerando suas diferenças com o candidato que defende o comércio de órgãos. Milei se define ideologicamente como anarcocapitalista, como dito em entrevista no início deste ano: “Anarcocapitalista, porque o Estado é o inimigo. Nesse contexto, sou um minarquista, ou seja, alguém que acredita que o Estado deve se encarregar apenas da segurança e da justiça. As pessoas percebem que estamos ficando cada vez mais pobres e que as únicas pessoas que estão progredindo são os políticos, os parasitas que formam a casta”.

Acorde a um discurso político também violento, ultraconservador e discriminatório, a depender do grupo social, a candidata presidencial Patricia Bullrich, ex-ministra de Segurança do governo do ex-presidente Fernando de La Rua (1999-2001) e também do governo Macri, chegou a afirmar que “as universidades argentinas estão vazias de estudantes argentinos porque quase metade das matrículas é ocupada por estrangeiros”, mas foi desmentida pelos números oficiais do Ministério da Educação e, mais tarde, atenuou suas declarações afirmando que as universidades deveriam melhorar em relação aos “graduados”. Bullrich por ter sido ministra de Segurança, como também ex-ministra do Trabalho no governo de De la Rua, assunto sobre o qual não costuma ser interrogada na imprensa local, mas que talvez tivesse algo a se explicar, ainda mais em época de campanha eleitoral. Durante os incidentes violentos de uma das maiores crises do país, a chamada “crise de 2001”, quando foram assassinadas 39 pessoas, por agentes da polícia estatal, em dezembro de 2001, Bullrich era então ministra de Segurança.

Projeções em busca de um futuro

A imprensa portenha tem feito projeções políticas de uma possível nova configuração do Congresso, de cara às eleições de outubro deste ano. Caso os resultados das Paso se repitam nas eleições gerais, a coligação de Javier Milei (A Liberdade Avança), vencedor com 30,04% dos votos, teria 41 deputados e oito senadores. Número de cadeiras insuficientes para impor leis, mas o necessário para que a coalizão peronista, União pela Pátria, e a clássica direita macrista, Juntos pela Mudança, não sejam mais maioria no Congresso.

Em segundo lugar em número de votos nas Paso, com 21,4%, o ministro da Economia Sergio Massa tem a difícil tarefa de repensar a campanha de agora até outubro, ao mesmo tempo em que não tem conseguido domar a inflação, de mais de 110% interanual. Enquanto isso, a derrota do peronismo é incansavelmente analisada por jornalistas locais – o perfil e a carreira política de Massa foram comentados em artigo aqui no GGN. “Não há nada mais típico do Cristinismo atual do que reivindicar 100% da vitória em 2019 e nada, nem um só dos votos perdidos em 2023”, afirmou o jornalista Sebastián Lacunza, em artigo no jornal “El DiarioAR”, de 20 de agosto. Os peronistas, em 2019, coalizão naquele então denominada Frente de Todos, teve 12 milhões de votos nas Paso, atualmente chamada União pela Pátria, os peronistas obtiveram 6,5 milhões de votos.

O jornalista e historiador Carlos Pagni, colunista do jornal La Nación, analisou o resultado das eleições Primárias, principalmente por causa da vitória do fenômeno Milei, fazendo um comparativo com a crise de 2001. Por isso, ele considera haver, hoje como naquele então, um colapso de representação entre a cidadania e a política, onde os representados não sentem que os políticos que atualmente representam a sociedade argentina, realmente os representam. Do mesmo modo que “a crise de 2001 foi um divisor de águas e obrigou a olhar o panorama político de modo diferente”, assim também é o que acontece agora, segundo Pagni.

Algumas das perguntas que Pagni disparou em sua análise “El desafío de volver a llenar el circo”, em seu podcast “Odisea Argentina”, foram, haverá um Massa de esquerda? Todos sabem o que Milei quer destruir, mas o que o candidato quer construir? É mais conveniente para Sergio Massa renunciar ou continuar como ministro da Economia?A Argentina abandona o populismo ou muda de populismo?

Maíra Vasconcelos – jornalista e escritora, mora em Buenos Aires, publica artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. 

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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