Ecosofia
A geopolítica por trás da dolarização da Argentina II
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
Antes de entrarmos no tema, seria interessante relembrar o que se entende por arbitragem. Isso não tem nada a ver com a arbitragem internacional que vem tomando o lugar da adoção de tribunais privados no comércio internacional, quando as leis dos países envolvidos podem ser conflitantes, impedindo que eventuais querelas possam ser dirimidas. Aqui, a arbitragem tem a ver com a disparidade com que bens ou serviços podem ser avaliado entre países. Digamos que o país X use internamente a moeda A e que o país Y conte com a moeda B para suas transações locais. Quando esses dois países negociam entre si, usam o dólar como meio de troca. Haverá sempre uma taxa de câmbio entre as moedas A e B, enquanto cada uma delas tem sua taxa exclusiva perante o dólar. Ponhamos números nisso. Suponhamos que uma unidade da moeda A valha dez unidades da B e que a taxa de conversão de A para dólar seja de cinco unidades de A por USD. Finalmente, imaginemos que um dólar valha quatro unidades da moeda B. Se um morador do país X trocar A$100,00 por B$1000,00 e seu agente comprar US$250,00 no país Y e remetê-los para o país X, o morador poderá vendê-los por A$1.250,00, lucrando A$250,00. Há pessoas que vivem disso e fica mais fácil e mais vantajoso quando há câmbio paralelo em um ou nos dois países. Ocorre que isso se pode fazer com qualquer produto comerciável, como já estudado em outra matéria. O que nos remete à ideia da paridade do poder de compra, visto que é exatamente essa diferença que permite a arbitragem, seja em moeda, seja em produto.
Ao contrário do que se pensa, a arbitragem não é sempre um mal, ou fruto de especulação predatória. Há casos em que ela se confunde com as vantagens comparativas, ou mesmo com as vantagens competitivas. As sandálias Havaianas e as Melissa são um excelente exemplo disso. Ambas são produtos destinados ao público de baixa renda, até que, graças a um trabalho de reposicionamento de marca, elas se tornaram produtos altamente comerciáveis e alguns modelos chegam a ser ofertados por US$100,00 ou mais, quando se pensa na Europa, onde esses produtos tornaram-se altamente desejados. Por mais que os marketeiros arroguem esse sucesso para si, se não fosse o fato de haver duas moedas envolvidas, o resultado financeiro não seria tão bom. Resumindo, se o Brasil fosse dolarizado, a transformação desse bem de não comerciável em comerciável não seria tão rentável e, quem sabe, não valesse a pena o investimento em reposicionamento de marca e as tais sandálias, possivelmente, não fariam parte de nosso portfólio de exportações. Ainda no campo das suposições, posto que há raros estudos de caso sobre o assunto, a Crocs talvez fosse vista com olhos menos elitistas se o brasileiro recebesse em dólares e na mesma proporção que os americanos. Em suma, a arbitragem faz parte do comércio internacional e fica bem difícil imaginar as vantagens comparativas como apresentava David Ricardo no início do século XIX.
O fato é que apenas economias muito pequenas e nada complexas conseguiram dolarizar-se e, como mostra a tabela a seguir, menos ainda mantiveram-se como “sócias” dos Estados Unidos no que tange ao meio circulante. Aqui, procurou-se apresentar que a dolarização não resolveu os problemas de renda desses países, muito menos a disparidade entre o PIB nominal e o em paridade do poder de compra. Isso significa que , apesar do curso legal, um dólar continua valendo muito mais no Panamá do que no país de origem, mesmo que ele seja um dos países em que, por acordo bilateral, possam-se emitir dólares com curso legal nos Estados Unidos.

O país de economia mais complexa entre os dolarizados é o Equador, mal ultrapassando os US$201 bilhões em PPC, mesmo assim, não compartilha o direito de emissão com o Panamá e o Timor-Leste, sendo que este último, com restrições seriíssimas à prática. Nos dois casos, o PIB é tão pequeno que a emissão precisaria ser realmente desenfreada para atingir o poderio do dólar. A Argentina, ao contrário, possui uma economia bastante complexa, cuja industrialização se mantém graças ao Mercosul em geral e ao Brasil em particular. Ela possui um PIB, segundo o World Bank para 2022, de US$1.274 bilhões, o que afasta qualquer possibilidade de algum acordo de emissão com os estados Unidos. Ademais, a dolarização incorreria num recálculo do PIB nominal, mesmo que não o iguale ao auferido em PPC. A possibilidade de isso trazer uma perda significativa de competitividade de sua indústria é muito grande, além de reposicionar os preços relativos das commodities de forma imprevisível. Resta saber a quem de fato interessa um movimento nessa direção, o que se verá no próximo capítulo.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
Deixe um comentário