Crônica de um Brasil Anarriê Alavantú
por Rui Daher
Vivo fosse, no dia 26 de agosto de 2023, meu pai, Fritz, teria completado 102 anos. O “turco” de nome alemão e traços fisionômicos árabes, nascido em São José do Rio Preto (SP), estaria sentado no sofá da sala, pernas cruzadas, terno, gravata, simples colete de lã fina, sapatos clássicos de amarrar, a perguntar se me pesavam os 78 anos, completados treze dias atrás.
Provável que eu não respondesse, pois ultimamente pouco sei de mim. Mas pensando melhor e em respeito ao avô de meus três filhos, que ele não conheceu, pois morreu quando eu tinha 19 anos, fiz um ensaio.
No mau humor diria, “você deveria saber mais, pois passou por isso antes do que eu”; no bom humor, Anarriê, Alavantú, como se comanda as festas juninas, às vezes julianas, do Nordeste. Fileiras de casais tabaréus dançam ora para trás, ora para a frente, de forma a ocupar um mesmo espaço, não sair do lugar.
Origens francesas que aqui chegaram no período Colonial, séculos 16 a 18. Tropas do Asterix quiseram tomar territórios manuelinos. Assim, Anarriê vem de “en arrière”, que significa de volta. Alavantú, “en avant tout”, e aí todos vão para a frente.
Abrasileiramentos que se assemelham à nossa própria história, traduzida em ditos populares: “não transam nem saem de cima”.
Assim também tem sido e parece continuará a ser a minha vida até um fim inexato, pois não consigo decidir se recomendo enterro ou cremação. Não que eu acredite que, na morte, se possa ir para frente e nem para trás, como sugerem as festivas ordens de origem francesa.
É o ca(n)gaço que dá pensar nisso. Inté! Fiquem com Lucy Alves e Elba.
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
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