O jornal americano Financial Times expôs o fracasso dos Estados Unidos e União Europeia ao tentar, durante meses de trabalho, vender a imagem da Rússia como uma pária global, por conta da Guerra na Ucrânia, ao mesmo tempo em que apoiou as mesmas atrocidades cometidas por Israel contra os palestinos em Gaza.
Na pressa em condenar o ataque do Hamas a Israel, as autoridades ocidentais foram acusadas de não terem defendido os interesses dos 2,3 milhões de palestinos ao concederem aos israelenses carta branca para atacar Gaza com força total.
Este apoio deve prejudicar os esforços com os principais países em desenvolvimento do Sul, entre eles Índia, Brasil e África do Sul, na construção de uma ordem global pautada por regras, além de inviabilizar futuros esforços diplomáticos para a resolução do conflito na Ucrânia.
“Perdemos definitivamente a batalha no Sul Global”, disse um diplomata sênior do G7. “Todo o trabalho que fizemos com o Sul Global [sobre a Ucrânia] foi perdido. . . Esqueça as regras, esqueça a ordem mundial. Eles nunca mais nos ouvirão.”
Dois pesos e duas medidas
Enquanto muitos países em desenvolvimento apoiam os palestinos, a posição dos Estados Unidos, maior patrocinadora do Estado israelense alienou as nações do Sul na construção de uma solução para apaziguar o conflito.
Já no Oriente Médio, a percepção dos árabes é de que os EUA e outras potências nunca responsabilizaram Israel pelo tratamento – que muitos especialistas chamam de limpeza étnica – com os palestinos, além de não se envolverem na resolução de conflitos na Síria, Iêmen e Líbia.
“O que dissemos sobre a Ucrânia tem de se aplicar a Gaza. Caso contrário, perderemos toda a nossa credibilidade”, acrescentou o diplomata sênior do G7. “Os brasileiros, os sul-africanos, os indonésios: por que deveriam acreditar no que dizemos sobre direitos humanos?”
Há um mês, líderes ocidentais defenderam no G20 a condenação dos ataques da Rússia a civis ucranianos, sob a justificativa da necessidade de “respeitar a Carta da ONU e o direito internacional”.
“Se você descreve o corte de água, alimentos e eletricidade na Ucrânia como um crime de guerra, então deveria dizer o mesmo sobre Gaza”, disse uma autoridade árabe.
Presente de americano
Os entrevistados pelo Financial Times afirmaram que a guerra entre Israel e Hamas é um grande presente para a Rússia, pois além de servir como distração e expor a hipocrisia das potências ocidentais, ainda abre um precedente para que a Rússia possa explorar a crise entre os países árabes, abordando-os para convencê-los de que a ordem global construída depois da Segunda Guerra Mundial não funciona para o mundo árabe.
Tanto é que, nos últimos dias, a UE anunciou o aumento de envios de ajuda humanitária para Gaza.
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