O arquiteto, designer e desenvolvedor de negócios Ibrahim Muhtadi publicou um artigo no jornal The Guardian nesta terça-feira (14), em que garante que a pausa humanitária em Gaza só vai prolongar o sofrimento da população, tendo em vista que os palestinos vivem em meio à morte e à devastação e que não adianta receber ajuda se a matança recomeça logo em seguida.
“Vivendo em Gaza, acordamos todas as manhãs gratos por ter sobrevivido mais um dia. Há mais de 30 dias que vivemos rodeados de morte, devastação e desespero. Dizer que a situação é excepcional não começa a descrever a realidade dos bombardeamentos incessantes de Israel, dos enormes ataques de mísseis aéreos, terrestres e marítimos, e da luta colectiva para permanecer vivo. Nenhum lugar na Faixa de Gaza é seguro. Mais de 11 mil pessoas foram mortas – mais de 4.500 delas crianças”, afirma o arquiteto.
Segundo Muhtadi, a frase “pausa humanitária” parece uma farsa, pois não é possível que os líderes globais apelem para uma pausa e não um cessar-fogo diante da crise, já descrita por muitos especialistas como genocídio.
“A maioria dos recursos e infra-estruturas vitais em toda a Faixa de Gaza foram alvo de bombardeamentos israelitas e foram destruídos sem possibilidade de reparação. Não há água, nem comida, nem medicamentos, nem conectividade e nem combustível. As pessoas sobrevivem com restos que se esgotam rapidamente e as lojas ficam vazias. O dinheiro não tem sentido quando não há mais nada para comprar. Dezenas de milhares de pessoas abrigam-se onde podem porque 1,5 milhões de pessoas foram deslocadas à força, incluindo a minha própria família, e tiveram de abandonar as suas casas. A lista do que não temos continua. Isto não é vida.”
Para os atingidos por bombas, existem duas mortes: as rápidas e as lentas, esta última que atinge os sobreviventes, devido à escassez de recursos. A água, fornecida pelo Egito pela passagem de Rafah, não chega a ser suficiente para sustentar 5% da população.
“Uma pausa humanitária nada mais é do que um pequeno curativo numa ferida aberta e uma forma de prolongar este horror por mais tempo. Não há nada de humanitário em passar fome, ficar sem abrigo, viver nos escombros. Quando os combates recomeçam, somos forçados a nos perguntar: de que adianta uma pausa humanitária para a ajuda se a matança não parar? Se quisermos prestar ajuda e sermos humanitários, então a matança deve parar, através de um cessar-fogo imediato.”
Muhtadi ressalta ainda que a pacificação não vai ajudar os mais de 11 mil civis mortos, mas vai evitar mais mortes. “Uma vez cessados os ataques, poderemos começar a vasculhar os escombros das nossas casas, tratar os nossos feridos, enterrar os nossos mortos e começar a reconstruir as nossas vidas.”
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