A nomeação de uma mulher branca ao cargo de secretária de Políticas Sociais e Igualdade Racial em Palmas, capital do Tocantins, está causando uma série de protestos na internet desde 22 de janeiro, quando a novidade foi divulgada no Diário Oficial do Município.
A prefeita Cinthia Ribeiro (PSDB) anunciou a ex-presidente da Fundação Cultural de Palmas, Cleizenir Divina dos Santos, na chefia da pasta como parte de uma reforma administrativa.
Desde então, a nomeação teve grande repercussão, causando repúdio e protesto de diversas entidades e movimentos sociais, uma vez que a nova secretária de igualdade racial é uma pessoa branca. “Acreditamos que a escolha de uma liderança para esta área requer proximidade e dedicação afinco com o debate racial”, afirma o movimento Enegrecer-TO, em nota de repúdio [confira na íntegra abaixo].
Luta Histórica
O Coletivo Feminista de Mulheres Negras do Tocantins (Ajunta Preta) também emitiu nota para manifestar preocupação e repúdio pela nomeação, uma vez que faz parte da missão de promover a igualdade racial a nomeação de pessoas pretas para tal função, pois são os negros que detém a vivência e são capazes de compreender as particularidades da população negra.
Por isso, o Ajunta Preta espera que a prefeita reconsidere a nomeação e está à disposição para indicar mulheres negras com trajetória política e competência para chefiar a pasta.
Para a Secretaria de Combate ao Racismo do PT-TO, a nomeação é motivo de revolta e indignação para o movimento negro, além de uma afronta à luta histórica por protagonismo negro nos espaços de poder.
Nomear uma pessoa não negra para tal cargo, mesmo quando há figuras com experiência no combate ao racismo, evidencia que o racismo estrutural prevalece.
Nova secretaria
Mesmo reconhecendo o currículo e as contribuições de Cleizenir Santos, que também foi secretária de Educação de Palmas, o Coletivo Somos ressalta a importância de, no momento em que a luta pela igualdade ganha relevância, que a prefeitura promova mais representatividade nas políticas públicas voltadas para a igualdade racial.
O coletivo sugere a desvinculação da pasta, a fim de que a secretaria possa se dedicar exclusivamente ao debate e desenvolvimento de políticas em prol da população negra.
Leia a nota de repúdio do movimento Enegrecer-TO:
A nomeação de uma pessoa branca para ocupar o cargo de secretária de desenvolvimento social e igualdade racial é um exemplo flagrante de racismo estrutural e desrespeito às lutas históricas do movimento negro.
Acreditamos que a escolha de uma liderança para esta área requer proximidade e dedicação afinco com o debate racial. É essencial destacar que a população negra considera crucial que as políticas voltadas para nós, povo negro, sejam conduzidas por aqueles que vivenciam diariamente a experiência do racismo. Somente através dessa vivência tão latente conseguiremos apontar com efetividade os meios para buscar a verdadeira igualdade racial.
Em um país marcado por séculos de discriminação e injustiça racial, é inadmissível que a liderança de uma instituição voltada para a promoção da igualdade seja entregue a alguém que não vivenciou as duras realidades enfrentadas pela população negra. Sabemos que uma das métricas do racismo estrutural é não garantir ao povo negro sequer o protagonismo na condução e na gestão de espaços que vão debater as nossas próprias vidas, como se não houvesse pessoa negra competente o suficiente para tal em Palmas.
O fato de incluir uma pessoa não negra à frente da secretaria de desenvolvimento social e igualdade racial gera incômodo. Com a informação da criação da secretaria voltada para a população negra, criou-se a expectativa de que ali teríamos uma pessoa do movimento negro palmense, que atua em prol dos direitos e das vidas negras.
Tal qual se espera que à frente de uma secretaria de mulheres, houvesse uma mulher na gestão. Perguntamos: seria razoável nomear um homem para chefiar uma Secretaria de Mulheres do município? Não, pois só quem vive o marasmo de uma opressão consegue compreender a injustiça social sob esse determinado grupo de pessoas e conseguirá ser mais sensível e realista com as propostas de programas da respectiva pasta.
A luta por igualdade racial não é uma questão de caridade, mas sim de justiça. Ao negligenciar a importância da representatividade, a administração não apenas falha em cumprir seu papel, mas também perpetua a desigualdade e mina os esforços de avanço social. Não conte com o nosso silêncio diante desta situação. Estaremos em luta pela nomeação de uma pessoa negra na condução da Secretaria de Desenvolvimento Social e Igualdade Racial.
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