5 de junho de 2026

Mestiçagem tornou o combate ao racismo ainda mais complexo, diz pesquisadora

No Brasil, existe a possibilidade de uma pessoa "embranquecer" ao prosperar financeiramente, ideal bastante disseminado no País
Rio de Janeiro - Mulheres marcham em Copacabana para celebrar dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha durante a 3ª Marcha das Mulheres Negras no Centro do Mundo Crédito: Tânia Rêgo/ Agência Brasil

O Brasil celebrou nesta segunda-feira (20) o  Dia Nacional da Consciência Negra, data que homenageia Zumbi dos Palmares e que propõe a reflexão sobre a contribuição da comunidade negra para o Brasil, além de evidenciar os desafios que ainda temos de superar para pôr fim à desigualdade racial na sociedade brasileira. 

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

O programa TVGGN 20H desta noite recebeu dois especialistas para comentar a temática e falar sobre o mito da democracia racial. Para Janaína Bastos, autora do livro “Cinquenta Tons de Racismo: mestiçagem e polarização racial no Brasil”, temos políticas recentes para acabar com o racismo, mas ainda assim a discriminação contra pessoas de pele escura permanece no nosso dia a dia devido à complexidade e à subjetividade da temática. 

De acordo com Janaína, o racismo surge de uma concepção imaginária de que haveria diferentes raças de seres humanos e que estas seriam hierarquizadas. “Existe o mito de que viveríamos uma democracia racial. Tínhamos um imaginário de que o racismo, por conta da mestiçagem da população brasileiro, não existiria e que nós estaríamos no paraíso racial, na qual todas as pessoas teriam as mesmas oportunidades, independente da raça”, comenta a convidada, que ressalta que raça não passa de uma construção social. 

Percepções

Mas a miscigenação, no entanto, provocou um efeito contrário ao da democracia racial, pois “a produção de uma intensa mestiçagem na pop faz com que as pessoas sejam percebidas de diferentes formas, nas diferentes regiões do Brasil”, alerta a pesquisadora. 

Assim, o enfrentamento do racismo é dificultado, porque uma pessoa considerada branca na Bahia é vista como negra na Região Sul. Uma mesma pessoa pode ser percebida de diferentes formas por outras pessoas e ela pode sofrer preconceito racial e não ser validada nesta experiência, porque se para a pessoa para quem ela vai se queixar não percebê-la como negra, ela sofrerá invalidação e não haverá como enfrentar a situação.

A percepção sobre o fenótipo de um indivíduo pode ser influenciado ainda pela forma como ele se veste. Se estiver mais bem vestido, tende a ser percebido como mais branco.  

“Também tem a questão subjetiva. Temos pesquisas que evidenciam que quanto menos favorecida socialmente a pessoa é, mais próxima ao negro ela tende a se sentir. O inverso também é verdadeiro. Quanto mais favorecida economicamente ela é, mais branca ela tende a se sentir”, continua a entrevistada.

Janaína chama atenção ainda para a possibilidade de uma pessoa “embranquecer” ao prosperar financeiramente, ideal bastante disseminado no Brasil, além de ressaltar a falta de critérios para aferir se, de fato, os postulantes a vagas com políticas de cotas raciais realmente são negros ou não, tendo em vista que não há critérios objetivos para definir tal verificação.

Abolição

O programa contou ainda com a participação de Petrônio José Domingues, professor e historiador brasileiro, especializado no estudo da história do negro no Brasil no período pós-abolição, que evidenciou as características modernas e avançadas do movimento abolicionista no País para a época. 

“Recentemente pesquisadores vêm apontando que o movimento abolicionista foi um movimento de massa, tratando-se de um Brasil no final do século XIX, que mobilizou diversas classes e setores da sociedade brasileira e foi um movimento extremamente organizado, que tinha uma articulação não só nacional, mas transnacional, além de diversos interesses em jogo”, afirmou Domingues. 

Um dos fatores que impulsionou o movimento abolicionista foi o fato de a escravidão ser um entrave econômico para a então colônia, por ser visto no exterior como um sinônimo de atraso, uma prática obsoleta do ponto de vista das grandes civilizações. “Entendia-se que a abolição era um problema do ponto de vista de um projeto de nação mais próspera e desenvolvida.”

O historiador lembra ainda que o movimento, além de moderno e representar uma ameaça à ordem vigente, foi um divisor de águas na história brasileira, pois a partir da ruptura, as pessoas passaram a ter plena igualdade formal. 

Assista as entrevistas na íntegra:

ASSISTA TAMBÉM:

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. João

    22 de novembro de 2023 8:41 am

    Exatamente, a maioria da população não tem consciência étnica e social.
    Um exemplo do embranquecimento social é o jogador negro que ganha dinheiro e casa com uma loira, regra máxima da classe futebolística.

  2. George

    22 de novembro de 2023 8:44 am

    Exatamente, a maioria da população não tem consciência étnica e social.
    Um exemplo do embranquecimento social é o jogador negro que ganha dinheiro e casa com uma loira, regra máxima da classe futebolística.

  3. Frederico

    22 de novembro de 2023 8:46 am

    Exatamente, a maioria da população não tem consciência étnica e social.
    Um exemplo do embranquecimento social é o jogador negro que ganha dinheiro e casa com uma loira, regra máxima da classe futebolística.

Recomendados para você

Recomendados