10 de junho de 2026

Sobre o Bolsonarismo e a Consciência Coletiva, por Sálvio Kotter

A prisão de Bolsonaro não erradicaria essa ideologia; poderia até fortalecer a vitimização e perseguição que sustenta movimentos populistas.
Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Além da Punição: Sobre o Bolsonarismo e a Consciência Coletiva

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por Sálvio Kotter

Em meio aos tempestuosos mares da política brasileira da última década, ondas de controvérsias e fervor ideológico tem batido com força nas desgastadas rochas da sociedade. Deste turbilhão surge um debate que transcende a mera questão de legalidade e justiça: o fenômeno do bolsonarismo em si e as implicações de uma eventual prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Muitos de nós clamamos por justiça, vendo na reclusão uma justa forma de retribuição ou vingança pelos atos e políticas praticados durante seu mandato. No entanto, é preciso ponderar: será que a solução para os dilemas que enfrentamos reside mesmo na punição desta única figura?

Vingança Não é Solução

A ideia de punir, de buscar vingança, é uma resposta natural do ser humano frente a injustiças e agravos. No entanto, esta abordagem, embora compreensível, é fruto de simplismo, porque não aborda a raiz do problema. A prisão de Bolsonaro, embora possa trazer uma satisfação imediata a quem teve olhos de ver para o que ele fez, não altera o cenário político e social de forma significativa. O risco é que ela acabe se tornando um espetáculo, uma distração que não contribui para o avanço da sociedade, mas, ao contrário, inflame ainda mais as paixões de seus partidários.

A Aberração do Bolsonarismo

É preciso que entendamos que o bolsonarismo, como fenômeno, é uma manifestação de descontentamento, medo e desejo de segurança. Mas isso ao mesmo tempo que aberra, que distorce a realidade, promovendo divisões pela produção e distribuição reiterada de desinformação. Trata-se de uma ideologia, não se limita a uma pessoa; e uma ideologia que permeia um segmento expressivo da sociedade, alimentada por mentiras convenientes e repetidas até se tornarem uma espécie de verdade para seus seguidores. A prisão de Bolsonaro não erradicaria essa mentalidade; ao contrário, poderia até fortalecer a narrativa de vitimização e perseguição que tantas vezes tem sustentado movimentos populistas.

A Solução Pela Iluminação Coletiva

A verdadeira solução, a que traria uma alegria verdadeira, profunda e duradoura, não é ver uma figura controversa atrás das grades, mas sim testemunhar um despertar coletivo para a realidade. Um cenário onde as pessoas reconheçam as imperfeições inerentes a todos nós, mas também percebam a toxicidade e os perigos do bolsonarismo. A transformação que precisamos envolve educação, diálogo e, acima de tudo, empatia. É um caminho mais árduo, sem dúvida, mas é o único que pode levar a uma mudança real e sustentável.

A justiça deve seguir seu curso, respeitando os princípios legais e as evidências disponíveis. No entanto, fixar nossa esperança e nossa energia na punição de um indivíduo, como temos visto reiteradamente nas redes e na mídia, é perder de vista o desafio maior que temos pela frente: curar as divisões em nossa sociedade e promover um entendimento mais profundo e compassivo entre seus membros. O bolsonarismo, como fenômeno, é um sintoma de problemas mais profundos que não serão resolvidos pela reclusão de seu principal ícone. A verdadeira vitória será alcançada quando conseguirmos transcender a polarização e construir pontes de diálogo e compreensão mútua.

Sálvio Kotter é escritor com vários títulos publicados e editor da Kotter Editorial.

Salvio Kotter

Salvio Kotter passou por formações bem variadas, como Administração de Empresas, Música Erudita, Grego Antigo e Latim. Publicou vários livros, de ficção e não-ficção e é editor da Kotter Editorial, especializada em literatura, filosofia e política.

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4 Comentários
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  1. Fernando Romano Menezes

    12 de fevereiro de 2024 8:11 pm

    “Transcender a polarização”… tenta construir “pontes de diálogo” e “compreensão mútua” com o equivalente burro e verdamarelo do fascismo. Sério, até quando conciliação de classes? Quantos golpes serão suficentes?.. Vamos errar até o fim pra aprender quem somos.

    1. salvio

      15 de fevereiro de 2024 7:37 pm

      Não discordo das suas colocações, e acho mesmo que o único caminho é a Revolução. Meu ponto é: como as coisas estão hoje, aumentar a pressão, parece, só interessa a eles, afinal é disso que se alimentam, é em nome disso que enganam tantos. Penso que se não fomos capazes de organizar uma Revolução, não devemos expurgar nossos males no punitivismo, queimando bruxas (o Bozo, a quem os pires adjetivos falham, foi engrenagem numa máquina que está a pleno vapor, louca pra se livrar dele). E, ao votar no Lula, optamos pela conciliação, e em termos muito piores que as anteriores. Mas, sou parceiro, vamos organizar, enquanto fazemos contas pro dia que há de chegar. Abraço!

  2. Cristiane

    15 de fevereiro de 2024 5:20 pm

    Excelente!

  3. Débora

    15 de fevereiro de 2024 6:30 pm

    Sem dúvidas nenhum tipo de “vingança” seria capaz de reparar os danos sociais causados pelo bolsonarismo, bem como pontuado no excelente artigo!!!

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