4 de junho de 2026

A grande batalha contra a viralatice e pela produção, por Luís Nassif

Impressionante a cegueira das autoridades, do neoliberalismo desvairado do PSDB aos governos populares do PT, eunucos do desenvolvimento. 

É agora ou nunca mais. Ou o Brasil enfrenta definitivamente o complexo de vira-lata, ou perderá a última chance de se transformar em um país minimamente desenvolvido.

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O país entra no último ciclo da industrialização – o da transição energética -, e a nova etapa da geopolítica global – com a ascensão da China -, coberto de possibilidades, e vazio de estratégias. E, por falta de estratégias, amplamente vulnerável.

Este ano será conhecido futuramente como o do início da grande invasão chinesa. Estão ocupando todos os espaços do último setor da indústria – o de máquinas e equipamentos – com preços até 40% inferiores aos dos melhores produtos nacionais. As plataformas de vendas espremem o varejo brasileiro. Os produtos siderúrgicos esmagam as mais modernas siderúrgicas brasileiras.

E o complexo de vira-latas impede até decisões óbvias de políticas públicas:

1. Imposto de importação sobre produtos que ameacem produção e emprego internos.

2. Negociação em torno das vantagens brasileiras, mercado interno e vantagens energéticas. Não se negocia transferência de tecnologia, obrigatoriedade de fornecedores brasileiros, compromissos de exportação.

3. Acordos comerciais para se posicionar nas mudanças das redes globais de fornecedores.

Qualquer uma dessas medidas pode contrariar as normas de bom comportamento do mercado e do Fundo Monetário Internacional. Um país inteiro lutando por se reerguer, pequenos, médios e grandes empresários de norte a sul, cooperativas, movimentos de agricultores familiares, rede de associações comerciais, criando empregos, produção, pagando impostos. E todos submetidos à política econômica da Faria Lima.

É impressionante a cegueira que acomete sucessivas autoridades, do neoliberalismo desvairado do PSDB aos governos populares do PT, ambos eunucos do desenvolvimento. 

Nos anos 50, à esquerda e à direita, havia um projeto de país. Dia desses, conversando com Luiz Gonzaga Belluzzo, ele lembrava o sentido prático de Roberto Campos, quando Ministro, e com plena consciência dos instrumento de desenvolvimento, assim como Octávio Gouvea de Bulhões.

Do lado progressista, os ensinamentos de Celso Furtado e o conhecimento industrial de Rômulo de Almeida, Jesus Soares Pereira, Cleantho de Paiva Leite, Ignácio Rangel, de seus discípulos, Carlos Lessa, Antonio Barros de Castro, David Kupfer e da mestra maior Maria Conceição Tavares. Havia o grande Eliezer Baptista, e empresários com sentido de país, como Trajano de Azevedo Antunes, João Pedro Gouvea Vieira, Walther Moreira Salles, Jorge Gerdau, Cláudio Bardella.

E, agora? Muitas dessas referências geraram herdeiros sem nenhum senso de país nem de indústria.

O desafio ideológico

O grande desafio, o primeiro passo para a reconstrução do país, é de fundo ideológico: a luta pela defesa da produção nacional, como fator central da recuperação do país. O pequeno empresário, o MST, o dono de bar, a grande corporação, todos têm que entender que contribuem muito mais para o país do que o trader de mercado, o sujeito que sabe simplesmente comprar barato e vender caro.

Hoje em dia, a juventude sonha com o mercado financeiro, a música popular está dominada pela cultura rural, os vencedores são as empresas de agronegócio, que não pagam impostos, não geram empregos e fazem parte da frentes anti-Estado, apesar da Embrapa e de todo o esforço público que ajudou a transformar o país no celeiro do mundo.

O grande golpe da Lava Jato foi a destruição das empreiteiras. Matou não apenas a engenharia nacional, mas o único setor cujo lobby, no Congresso, podia se contrapor ao lobby do mercado e dos ruralistas.

A indústria tem setores influentes, as federações de indústria, comércio, agricultura, as associações comerciais, o sistema S, todas são organizações com abrangência nacional. Tem que haver uma liderança supra-setorial para desfraldar a bandeira da produção, juntar todos esses agentes e comandar a revolução cultural que reponha os valores do desenvolvimento social no país. E trata-se de tarefa indelegável do presidente da República.

Lula tem uma enorme folha de serviços prestados ao país, no papel de conciliador. Foi com esse papel que saiu das profundezas das prisões e da pior perseguição política da história, para salvar o país das mãos da milícia e de militares golpistas.

Mas se quiser deixar sua obra definitiva, precisa vestir, agora, o uniforme do desenvolvimento. E este passa pela capacidade de unir o país em torno de um discurso político tendo como centro um projeto de desenvolvimento, focado na produção. Tem que recuperar o orgulho de comprar o made in Brazil, de mostrar ao empreendedor e ao trabalhador que ambos são parceiros do grande trabalho de reconstrução nacional.

A direita conseguiu mobilizar parte relevante do país em cima da bandeira da salvação nacional, acenando com inimigos mitológicos e propondo desafios pequenos: rezar nas portas de quartéis ou para pneus e discos voadores.

Lula não seria capaz de mobilizar os brasileiros explicando que o seu dia a dia – do dono e empregado de bar ao dono e trabalhador da grande siderúrgica – é a grande contribuição à salvação nacional, contra a maior das ameaças: a transformação em um reduto de milícias dominando o país em parceria com o mercado?

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. Edivaldo Dias de Oliveira

    14 de fevereiro de 2024 10:23 am

    Compartilhei este libelo com grupos de zap de sindicalistas e ex. Todas as centrais sindicais e seus sindicatos filiados deveriam receber uma cópia e pautar uma discussão em torno do assunto.

    Estou fazendo a minha parte, como ex sindicalista, militantes de esquerda e anistiado poliico. político

  2. Luiz Cezar fernandes

    14 de fevereiro de 2024 7:07 pm

    Não concordo em proteger a indústria nacional, pois ela está obsoleta ou suas máquinas canibaluzadas
    Devemos abrir para importação de máquinas e equipamentos , após esta no 5.0 aí poderíamos pensar em proteger a indústria nacional
    Temos que ter produtos competitivos globalmente se não continuaremos na mesma toada 1.0

  3. Rodolfo m rosa

    15 de fevereiro de 2024 7:47 am

    Lula é o maior desmobilizardor das massas, não passa de uma eficiente máquina eleitoral. Atualmente vive viajando, não traz nada de bom e deixa o país nas mãos do picolé de chuchu que, governa silenciosamente por meio de sus PPPs. Esquece o Lula, Nassif.

    1. Moacir Rodrigues de Pontes

      15 de fevereiro de 2024 6:23 pm

      Quem não tem cão caça com Lula! (Melhor que ficar num mato sem cachorro!)

  4. José Carvalho

    16 de fevereiro de 2024 2:07 pm

    Um dos grandes problemas do País é a falta de engajamento das elites brasileiras para o desenvolvimento do Brasil. Pouco se envolvem nas discussões, em sua maioria preferem olhar de longe. Talvez por essas questões ligadas a uma visão ideológica da política, levam preconceitos de natureza ideológica para o campo econômico. Existe clara diferença existencial entre ser e não ser desenvolvido entre os vários países. Desde seu primeiro governo, LULA tem adotado posicionamento conciliador abrindo-se ao diálogo. O conselho de desenvolvimento social e econômico é exemplo. Sem um envolvimento de quem deseja de fato resolver as coisas, não adianta. Vai ficar pregando no deserto. O País se acostumou receber alguns privilégios beneficiando uns poucos, enquanto o restante do País arcava com o preço. Mudar essa mentalidade em prol de construir algo que traga maior importância ao Brasil passa por essa compreensão. Jamais valorizou-se o fato de o País possuir três Franças dentro de suas fronteiras. A aceitação à ideia de que não tinha lugar pra indústria no País mostra essa distância das elites em defesa de um desenvolvimento e progresso econômico e social em que será sempre um grande beneficiado, sem precisar privilégios. Sempre haverá os contras, o que tem de ser considerado é o que conquistará o Brasil enfrentando o que tiver que enfrentar.

  5. Atlas Thiago

    17 de fevereiro de 2024 10:49 am

    Se a China produz mais barato, que se compre da China. A oportunidade está nos custos de distribuição. Se o produto é pesado, é caro de transportar, melhor produzir localmente.
    É burrice produzir objetos de plástico e exportar minério de ferro.

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