13 de junho de 2026

Quantas vezes um pai precisa cair?, por Ana Laura Prates

"Anatomia de uma queda" também é um filme sobre velhas e novas (felizmente) formas de amar. E uma aposta no futuro!

Quantas vezes um pai precisa cair?

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por Ana Laura Prates

Quantas vezes um pai precisa cair para que se possa atravessar a fantasia d’O Pai que garanta que “A vida é bela”, tal como no filme de Roberto Benigni. O filme “Anatomia de uma queda” de Justine Triet não é definitivamente apenas sobre as peripécias do tribunal do júri (embora debata amplamente a relação com a Lei), tampouco somente um debate filosófico e desgastado (mas ainda pertinente e atual) sobre a realidade e a verdade. Aliás, em diversas passagens se escuta da boca do advogado Vincent (Swann Arlaud) que naquele julgamento “não se trata de realidade”. Nos termos da moda, poderíamos dizer que se trata de uma disputa de narrativas.

Mas o filme é muito mais radical, e disseca a anatomia da montagem da realidade que é, estruturalmente, sempre uma montagem discursiva. O recurso de criar as personagens de Sandra (Sandra Huller) e Samuel (Samuel Theis) como escritores de literatura de autoficção é mais um brilhante recurso irônico da diretora, aliás redobrado pelo espelhamento dos nomes dos atores nas personagens).

Ora, por mais que Sandra tenha um discurso libertário, aparentemente feminista e se declare bissexual, ela não está imune (que mulher está?) à alienação fundante do patriarcado: a sustentação a qualquer preço (e que preço!) da imagem do Pai ideal, potente e infalível, ainda que em versão soft e participativa das tarefas do lar e do cotidiano.

Mas a chave do filme está em Daniel (Milo Machado Graber), o filho. Aliás, mais um filme de uma bem vinda leva que resgata a dignidade da infância! Daniel é um antídoto da paixão da ignorância que Édipo encarna: ele, ao contrário de Édipo, quer saber, quer ouvir e quer ver (a cegueira aqui como metáfora da castração não é casual). Sua relação com a lei é paradigmática do que podemos esperar de um sujeito que atravessa uma análise e ele pode, finalmente, ver a queda do pai. Afinal, como argumenta com a juiza, ele já está magoado. E escolhe a via do desejo de saber como tratamento possível! Que a personagem da mediadora Marge (Jehnny Beth) encarne a dignidade da não resposta, compatível com a posição do discurso do analista, tampouco é casual e contrasta com o patético depoimento do psiquiatra de Samuel no tribunal (dissecando, também, por tabela, a encruzilhada da psiquiatria contemporânea ao descartar o sujeito do inconsciente). É de Marge, inclusive, a frase que melhor define a posição ética do filme: diante da dúvida, é precio tomar para si o ato da escolha. Daniel pergunta: mas então é preciso inventar uma certeza? E ela responde: não, é preciso decidir! É diferente!

E será, finalmente, o ato da criança que revelará a única verdade ofuscada pelo véu secular que nos transforma em édipos: a imagem do pai precisa cair! Mas o cadáver do patriarcado ainda está a ser dissecado! Haja anatomia pra tanta queda!

Após rever o filme, acrescento, em tempo: “Anatomia de uma queda” também é um filme sobre velhas e novas (felizmente) formas de amar. E uma aposta no futuro! Afinal, um pai às vezes é “apenas” um cão e um cão pode exercer a função paterna!

Ana Laura Prates é dona de casa e mãe, psicanalista, escritora e editora. É autora, dentre outros de “Feminilidade e experiência psicanalítica” e “Da fantasia de infância ao infantil na fantasia” (Larvatus Prodeo Editora). Doutora pela USP, Pós-Doutora pela UERJ e Pesquisadora da UNICAMP. É membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano e do coletivo Psicanalistas Unidos pela Democracia (PUD)

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Ana Laura Prates

Ana Laura Prates é graduada em Psicologia pela USP (1989), mestre em Psicologia Clínica pela USP (1996), doutora em Psicologia Clínica pela USP (2006) e possui pós-doutorado em Psicanálise pela UERJ (2012).

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1 Comentário
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  1. AMBAR

    25 de janeiro de 2025 1:44 pm

    O homem vai sempre querer julgar a mulher por sua queda porque em vez de colaborar com ela ele quer competir e ganhar dela. Mulher vencida, homem de pé.

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