19 de junho de 2026

Cenas urbanas e os segredos de uma vida, por Maíra Vasconcelos

Como em contos e novelas, quando o autor sugere várias hipóteses para o desvendar de uma cena e o leitor busca as várias respostas possíveis.
Anita Malfatti

Cenas urbanas e os segredos de uma vida

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Maíra Vasconcelos

Há cenas que vivemos, e que, provavelmente, jamais saberemos desvendar as razões que determinaram que tal situação sucedesse. Outro dia, em visita rápida a São Paulo, em um café na rua Peixoto Gomide, quase esquina com a Alameda Jaú, uma zona tão bonita como também privilegiada da capital, um senhor gentilmente pagou meu café. Não vi quando o fez, nem como, apenas senti alguém tocar-me leve os ombros, o seu café está pago. Dada a impossibilidade de recontar fielmente o sucedido, e ao poder apenas escrevê-lo, acho que aquele senhor chegou a dizer algo como, era só um café, está pago. 

A sua fala durou alguns segundos, esses instantes irreproduzíveis de uma vida. E quando olhei para trás, ele já estava longe. Tive a impressão de que acelerou o passo de propósito, ou apenas estava atrasado para algum compromisso. Mas era por volta das 11 horas, então pode ser que aquele senhor parou no café “Pérola do Jardins” apenas para um intervalo e logo voltou ao trabalho. Ou voltou para casa. Pode ser também que aquela é a velocidade com a qual caminha sempre pela cidade. Além do mais, o que o levou a querer pagar o meu café. Pode ser porque me viu merecedora de uma gentileza. Pode ser porque simplesmente acordou feliz naquele dia, ou apenas queria ser prestativo com alguém.

Todas essas variáveis para aquela breve cena são possíveis. Mas todas são apenas conjecturas. E isso é o que me autoriza a escrever este texto. Não sei, sequer, como ele se referiu a mim, quando disse àquele atendente mal humorado que pagaria o café. E assim atuou como quem decide guardar para sempre um segredo. Pode ser muito clichê, mas, enfim, a vida imita a arte. Como em contos e novelas, quando o autor sugere várias hipóteses para o desvendar de uma cena e o leitor busca as várias respostas possíveis. Mas mantém-se o segredo até o final, porque o autor assim bem o quis. Então a cena do café com aquele gentil senhor é algo da ordem do indecifrável.

Os instantes de uma vida são apenas passíveis de narração e interpretação. Quer dizer, estamos sempre tão próximos da invenção em relação a própria vida. Sendo essa a matéria-prima da literatura e sua ligação direta com a vida. Talvez, tudo o que já disse até aqui, seja apenas o mistério do café “Pérola do Jardins”. Pois o segredo foi-se embora com aquele senhor negro e de estatura mediana, que vestia bermuda, tênis e blusa comum de algodão. 

Sei dos detalhes de sua roupa, porque a partir do momento que ele virou as costas e decidiu ir embora deixando apenas algumas rápidas palavras, ele não mais olhou para trás. Nem uma só vez. Minhas palavras de agradecimento ficaram soltas, mas tão soltas no ar como se ditas para ninguém. Aliás, ele sabia que eu agradeceria, muito satisfeita com sua gentileza. Por isso, talvez, nem sequer se ateve em esperar de mim uma resposta. Ele não precisava dessa confirmação. De alguma forma, aquele senhor me conhecia ou reconhecia. Enquanto estive, ali, absolutamente entregue ao acaso de uma situação feliz e tão vulnerável aos segredos de um homem.

Maíra Vasconcelos – jornalista e poeta, mora em Buenos Aires, publica artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Publica crônicas no GGN, desde 2014. Seu último livro de poesia, “Algumas ideias para filmes de terror”, (editora 7Letras, 2022).

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados