4 de junho de 2026

Fascista fuzila a paz, por Homero Fonseca

Essa manchete, ao melhor estilo do jornalista Ronildo Maia Leite, brota do filme “O último dia de Yitzhak Rabin”.

Fascista fuzila a paz

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por Homero Fonseca

4 de novembro de 1995. Milhares de pessoas se aglomeram na Praça dos Reis, em Tel Aviv, num comício em apoio às negociações costuradas pelo 1º ministro Yitzhak Rabin e pelo chanceler Shimon Peres, de Israel, com o líder palestino Yasser Arafat. O trio havia ganho o Prêmio Nobel da Paz, um ano antes. Nunca a paz naquela região esteve tão perto. À saída do comício, Yitzhak Rabin foi alvejado e morto pelo jovem radical de direita Amir Yigal, insuflado por rabinos fundamentalistas.Três tiros esfumaçaram a esperança. 

A História deu um gigantesco passo para trás. E desembocou no hoje. Um diálogo sintetiza as mentalidades: questionado à época por um extremista  “por fazer a paz com nossos inimigos”  , Rabin deu uma resposta antológica: “O que podemos fazer? A paz não se faz com amigos, mas com inimigos”.

Trago o assunto à baila porque assisti ontem ao filmaço O último dia de Yitzhak Rabin. Ainda impactado pela narrativa — uma mistura de documentário e ficção –, recomendo fortemente aos homens e mulheres de boa vontade. 

O filme é uma radiografia de Israel, mostrando a polarização que cinde o país desde então. As cenas mostram os radicais judeus chamarem Rabin (antes de ingressar na política, um herói de guerra) de “nazista” e “Hitler”. Portanto, comparações com o Holocausto não são tabu por lá. A mídia tupiniquim é que fica histérica.

A obra leva-nos a compreender melhor o genocídio em Gaza, hoje. E também permite fazer uma ponte com a realidade brasileira atual: Netanyahu = Bolsonaro, rabinos radicais = pastores fundamentalistas. Daí a fascinação confusa da extrema direita brasileira pelo Estado de Israel. Eles querem imitar os de lá e constituem um perigo que não pode ser subestimado. O neofascismo brasuca está vivo.

Aos desavisados: o filme é de Amos Gitaï, consagrado cineasta israelense. Vi no Prime. Mas tem em outras plataformas.

Homero Fonseca é pernambucano, escritor e jornalista, formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Foi editor da revista Continente Multicultural, diretor de redação da Folha de Pernambuco, editor chefe do Diario de Pernambuco e repórter do Jornal do Commercio. Foi também professor de Teoria da Comunicação e recebeu menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Atualmente, dedica-se à literatura e mantém um blog em que aborda assuntos culturais.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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