10 de junho de 2026

Herbert Marcuse e o conflito Israel-Palestina, por Bruno Alcebino da Silva

Embora sua visão seja de 5 décadas atrás, suas contribuições são essenciais para entendermos o que vem acontecendo em Gaza e na Cisjordânia
Banksy

Herbert Marcuse e o conflito Israel-Palestina

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por Bruno Fabricio Alcebino da Silva[1]

Marcuse enfatizava a importância de entender a fundação de Israel como um ato político, moldado pelas potências globais e acompanhado pela expulsão e marginalização dos palestinos.

A abordagem de Herbert Marcuse (1898-1979), um mais famosos teóricos da Escola de Frankfurt, ao conflito Israel-Palestina, embora brevemente documentada em algumas de suas declarações dispersas, revela uma perspectiva complexa e profundamente enraizada nas tensões políticas e ideológicas do século XX. Em um período marcado pela intensificação do conflito no Oriente Médio, especialmente após a Guerra dos Seis Dias em 1967, Marcuse emergiu como uma voz singular, oferecendoreflexões que transcendem as narrativas convencionais.

Ao analisar os registros do Congresso do Vietnã[2], onde Marcuse abordou as implicações do conflito Israel-Palestina em meio à crescente polarização da New Left (Nova Esquerda)[3], fica evidente sua preocupação com a solidariedade acrítica e as divisões ideológicas emergentes. O evento ocorreu durante o painel final do Congresso, realizado de 10 a 13 de julho de 1967, na Universidade Livre de Berlim. A Guerra dos Seis Dias, ocorrida em junho de 1967[4], marcou o ápice do conflito no Oriente Médio até aquela data (ver mapa 1).

Mapa 1 – Territórios ocupados por Israel em 1967

Fonte: Elaboração própria por meio do United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs.

De acordo com Marcuse, essa guerra não apenas intensificou o conflito na região, mas também causou uma profunda divisão dentro da New Left. Surgiram duas facções distintas: uma pró-Israel e outra anti-imperialista, que, fundamentada em uma postura reflexivamente antiamericana, demonstrou solidariedade irrestrita com a luta palestina. Essa reação instintiva rapidamente levou a uma solidariedade quase cega com a causa de libertação palestina, à qual a União Estudantil Socialista Alemã (SDS), em grande parte, se associou.

Em julho de 1969, membros importantes da SDS visitaram a Jordânia para explorar possíveis formas de cooperação entre a New Left anti-sionista e os grupos irregulares palestinos, como a Fatah. A SDS interpretou as declarações da Fatah, que glorificavam a “bem-sucedida” luta terrorista contra Israel, como heróicas. A “luta de libertação anti-imperialista” passou a ser vista como uma justificativa para o movimento contra Israel, legitimando-o aos olhos da New Left.

À vista disso, Marcuse reconheceu a necessidade histórica da criação do Estado de Israel como um refúgio para os judeus perseguidos. Por outro lado, criticou a política concreta de Israel em relação aos palestinos: “O tratamento dispensado à população árabe em Israel é, no mínimo, repreensível. A política israelense tem demonstrado tendências racistas e nacionalistas que, como judeus, devemos categoricamente rejeitar. É imperativo que nos recusemos a aceitar a ideia de que os árabes devam ser tratados como cidadãos de segunda classe em Israel”.

Através de uma análise cuidadosa das declarações de Marcuse, especialmente aquelas retiradas de uma entrevista ao Street Journal em 1970[5], torna-se claro que ele não apenas defendia a autodeterminação do povo judeu, mas também advogava por uma abordagem mais humanitária e justa no tratamento dos árabes palestinos. Sua crítica à política israelense, especialmente em relação aos relatórios de violações dos direitos humanos, ressoa com uma chamada à reflexão e à ação para evitar a repetição de injustiças passadas.

Marcuse no Street Jornal

Em entrevista publicada na edição especial do Street Journal em abril de 1970, Marcuse aborda diversos temas, incluindo as guerras árabe-israelenses e suas preocupações com a política israelense. O filósofo, historicamente defensor de Israel devido ao Holocausto, expressa sua decepção com a atual política do país, destacando dois incidentes recentes que o perturbaram profundamente.

O primeiro incidente mencionado por Marcuse foi o bombardeio de uma escola perto do Cairo, no qual 32 crianças foram mortas. Enquanto o governo israelense negou o evento, Marcuse enfatiza relatos de jornalistas internacionais que testemunharam o cenário. O segundo incidente diz respeito aos relatos de tortura de prisioneiros árabes, divulgados pelo grupo de Anistia Internacional.

Marcuse também critica a recusa do governo israelense em permitir que Nachum Goldman[6] visitasse o Cairo, apesar do consentimento de Gamal Abdul Nasser, presidente do Egito na época. Ele expressa incredulidade diante dessa decisão, considerando-a como uma oportunidade perdida para o diálogo e a reconciliação entre Israel e o mundo árabe.

Quando questionado sobre se Israel se tornou um instrumento dos interesses dos EUA e do petróleo regional, Marcuse rejeita essa análise, destacando a ausência de petróleo em Israel e sugerindo uma mudança na política dos EUA a favor dos árabes no governo Nixon.

No entanto, Marcuse adverte sobre os perigos de uma postura inflexível por parte de Israel, temendo que a falta de esforços para estabelecer relações humanitarias com os árabes possa levar a conflitos futuros e até mesmo a uma repetição do Holocausto. Essa preocupação reflete uma mudança significativa na perspectiva de Marcuse em relação a Israel, mostrando sua crescente crítica à política do país e sua defesa pela necessidade de uma abordagem mais humanitária e inclusiva.

Assim, a perspectiva de Marcuse sobre o conflito Israel-Palestina transcende as dicotomias simplistas de pró ou contra. Em vez disso, ele aponta para a necessidade de uma abordagem mais ampla e inclusiva, onde o reconhecimento mútuo, a coexistência pacífica e a garantia de direitos e liberdades iguais sejam prioridades fundamentais.

A violência de Israel

O período que se segue à primeira visita de Herbert Marcuse a Israel em dezembro de 1971, é marcado por uma série de encontros significativos com intelectuais e políticos tanto israelenses quanto árabes, que forneceram um contexto rico para suas reflexões sobre o conflito Israel-Palestina. Em suas palestras e discussões, Marcuse abordou questões fundamentais relacionadas à fundação de Israel, à situação dos palestinos e às perspectivas de paz na região.

Uma das principais preocupações de Marcuse era a necessidade de reconhecer tanto o objetivo histórico da criação do Estado de Israel quanto as injustiças sofridas pela população árabe durante esse processo. Ele enfatizou a importância de entender a fundação de Israel como um ato político, moldado pelas potências globais e acompanhado pela expulsão e marginalização dos palestinos. Marcuse reconheceu que, embora a criação de Israel tenha sido motivada pela aspiração legítima de fornecer um refúgio seguro para os judeus perseguidos, também resultou em injustiças significativas para a população árabe local.

Além disso, Marcuse expressou preocupação com a capacidade de Israel de alcançar seus objetivos autoimpostos e viver pacificamente com seus vizinhos. Ele argumentou que qualquer anexação de territórios, especialmente após as fronteiras de 1948, seria contraproducente e levaria a Israel a se tornar uma fortaleza militar em um ambiente hostil. Em vez disso, ele defendeu a busca de um tratado de paz com o Egito, que incluísse a retirada das tropas israelenses da Península do Sinai e da Faixa de Gaza, bem como uma solução satisfatória para o problema dos refugiados palestinos.

Marcuse também explorou possíveis soluções para o conflito, incluindo o reassentamento dos palestinos deslocados que desejavam retornar a Israel e o estabelecimento de um Estado palestino ao lado de Israel. Ele reconheceu os desafios e as complexidades envolvidas nessas soluções, mas argumentou que a busca de uma coexistência pacífica e igualitária entre judeus e árabes era essencial para a segurança e a estabilidade a longo prazo na região.

Em suma, as reflexões de Marcuse destacam a necessidade de um compromisso genuíno com a justiça, a igualdade e a coexistência pacífica como base para qualquer solução duradoura para o conflito Israel-Palestina. Suas análises complexas e abordagens multifacetadas continuam a oferecer insights valiosos para os esforços de resolução de conflitos na região, mesmo décadas após suas palestras e discussões em Israel.

Reflexões sobre o judaísmo e Israel

Em entrevista à revista L’Chayim[7], concedida em 1977, Marcuse oferece uma visão penetrante e multifacetada sobre questões fundamentais que envolvem a identidade judaica, o sionismo, o conflito árabe-israelense e o antissemitismo. O filósofo aborda esses temas com uma mistura de reflexão pessoal, análise política e visão histórica, proporcionando uma contribuição notável para o entendimento dessas questões complexas. 

Marcuse descreve sua família como parte da próspera comunidade judaica assimilada em Berlim, onde os rituais religiosos eram observados, mas sem um compromisso estrito com a prática da religião judaica em sua casa. Essa realidade era comum entre muitos judeus europeus do século XX, que mantinham uma conexão cultural com sua herança judaica, enquanto se integravam à sociedade não judia predominante.

Sua identidade judaica e suas convicções políticas são intrincadas. Reconhecendo a ligação entre sua identidade judaica e suas crenças de esquerda, Marcuse fundamenta suas convicções na sensibilidade à opressão e no compromisso com a justiça social. No entanto, ele rejeita o sionismo religioso, preferindo uma abordagem ética e humanitária para evitar a repetição dos horrores do Holocausto. Sua recusa em se definir rigidamente como judeu destaca a fluidez e a diversidade das identidades judaicas contemporâneas.         

Quando aborda o sionismo, Marcuse enfatiza a importância de um Estado judeu como medida de segurança para o povo judeu, mas expressa preocupações sobre a situação política em Israel e a viabilidade de suas políticas diante do conflito árabe-israelense. Sua visão de um Israel socialista destaca sua crença em valores de igualdade e justiça, enquanto sua crítica ao sionismo religioso como racista revela sua análise afiada das complexidades ideológicas envolvidas.  

Ao propor soluções para o conflito árabe-israelense, Marcuse defende abordagens pragmáticas e inclusivas, enfatizando a necessidade de reconhecer Israel como um Estado soberano e buscar uma paz baseada na coexistência pacífica e na igualdade de direitos. Sua visão de uma confederação socialista de Estados do Oriente Médio reflete uma aspiração utópica, mas aponta para a possibilidade de uma paz duradoura fundamentada na cooperação e no respeito mútuo.

Um filósofo a frente de seu tempo

Marcuse faleceu em 1979 e não viveu para ver as atrocidades que se seguiram. O brilhante intelectual teve sua visão sobre o conflito moldada de forma prática, passando de defensor da criação do Estado de Israel como meio de defesa do povo judeu frente ao Holocausto, que ainda assombrava a todos, para crítico, ao ver com seus próprios olhos, durante sua visita a Israel e nas conversas com líderes políticos como o Ministro da Defesa Moshe Dayan, as injustiças praticadas contra o povo palestino desde a criação do Estado judeu em 1948.

Embora sua visão seja de cinco décadas atrás, suas contribuições são essenciais para entendermos, na atualidade, o que de fato vem acontecendo nos territórios ocupados na Faixa de Gaza e na Cisjordânia. O genocidio perpetrado por Israel é intencional e as tentativas de paz foram muitas, as cenas que vemos diante de nossos olhos hoje, de forma instantânea e real, são brutais e devastadoras.

Porém, o filósofo nos deixou esperança, devido a sua visão de mundo de uma coexistência pacífica no mesmo território, algo que desejamos ver um dia, diante do desastre e descaso que vemos hoje. A bonis bona disce, que a visão de Marcuse inspire a paz que todos desejamos.


[1] Bacharel em Ciências e Humanidades e graduando em Relações Internacionais e Ciências Econômicas pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Pesquisador do Observatório de Política Externa e Inserção Internacional do Brasil (OPEB).

[2] Saiba mais em: MARCUSE, Herbert. Das Ende der Utopie. Vorträge und Diskussionen in Berlin 1967, Frankfurt am Main 1980, S. 141/142 e páginas seguintes. Disponivel em: < https://www.marcuse.org/herbert/pubs/60spubs/67endutopia/67EndeUtopieProbGewalt.htm#:~:text=Herbert%20Marcuse%2C%20Das%20Ende%20der%20Utopie%20(1967)&text=Wenige%20Wochen%20nach%20dem%202,Sozialistischer%20Deutscher%20Studentenbund >

[3] A New Left, ou “Nova Esquerda”, refere-se a um movimento político e social que emergiu em grande parte no final dos anos 1950 e início dos anos 1960. Distinguiu-se da velha esquerda, representada principalmente pelos partidos comunistas e socialistas tradicionais, ao enfatizar questões como o anti-autoritarismo, o ativismo de base, o feminismo, o ambientalismo e os direitos civis. A New Left desempenhou um papel significativo na contestação dos valores e instituições da sociedade ocidental e na promoção de mudanças sociais radicais. Seus impactos foram observados em várias esferas, incluindo a política, a cultura e a academia.

[4] Contextualizando o período, é crucial recordar os eventos da Guerra dos Seis Dias ocorrida entre 5 e 10 junho de 1967, que resultaram em mudanças significativas no mapa geopolítico do Oriente Médio. Nesse conflito, Israel conquistou territórios árabes (do Egito, Jordânia e Síria), incluindo a Cisjordânia, Gaza, a Península do Sinai e as Colinas de Golã (ver mapa 1), alterando drasticamente as dinâmicas regionais .

[5] In: MARCUSE, Herbert. Die Studentenbewegung und Ihre Folgen. Edited by Peter-Erwin Jansen, introduction by Wolfgang Kraushaar (Lüneburg: zu Klampen, 2004).

[6] Nachum Goldmann, uma figura proeminente na comunidade judaica, foi um dos co-fundadores do Congresso Judaico Mundial na década de 1930 e serviu como seu primeiro presidente. Embora tenha se tornado cidadão israelense em 1962, Goldmann optou por continuar vivendo na Suíça. Após a Guerra dos Seis Dias, ele expressou críticas ao crescente militarismo de Israel e defendeu uma postura conciliatória em relação aos árabes. Suas visões contribuíram para o debate sobre as políticas de Israel e sua abordagem em relação aos vizinhos árabes.

[7] In: L’Chayim, Vol. IV, No 2, Inverno de 1977, págs. 1-12.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados