Quis Custodiet?
por Felipe Bueno
Às pessoas civilizadas que estudam o tema ou têm ao menos um certo conhecimento não cabe dúvida sobre a distinção entre crimes cometidos por indivíduos ou grupos contra o Estado e seus representantes – independentemente da ideologia de cada lado – e aqueles cometidos pelo próprio Estado.
E a diferença central entre uns e outros pode ser extraída da pergunta retórica atribuída ao poeta romano Décimo Júnio Juvenal: “quis custodiet ipsos custodes?” (quem vigia o vigilante?).
Quando do encerramento dos trabalhos da Comissão da Verdade aqui no Brasil, dez anos atrás, a discussão subiu dos subterrâneos motivada pelo simplismo mal intencionado de quem achava que as mortes e os “desaparecimentos” produzidos pela ditadura militar eram nada mais do que uma justificável ação do Estado contra criminosos.
O dia primeiro de abril está chegando, e mais uma vez, paira a pergunta: “quis custodiet ipsos custodes?”.
Há mais de quatrocentos anos, Thomas Hobbes, homem de pouco otimismo, nos ensinava que o Estado, imperativo para a convivência política, tinha potencial para se transformar em uma máquina poderosa e opressora, ainda que inevitável para a vida em sociedade.
O mesmo Hobbes, no entanto, advertia que o príncipe à frente do Estado perderia a legitimidade caso não garantisse a proteção de cada um dos seus súditos.
Nos anos de chumbo da segunda metade do século XX, príncipes fardados, histriônicos e caricatos, usaram o Leviatã para silenciar, excluir e matar quem não falasse o mesmo idioma ideológico.
Condenar anos depois tais facínoras ainda é um desafio para Estados democráticos, tendo cada qual suas próprias vicissitudes. Aqui no Brasil, por exemplo, a busca pela justiça já teve dias melhores, e a esperança de 2022 tende a se transformar novamente em frustração por razões de suposta conveniência política.
Entre as consequências do silêncio está a oportunidade concedida aos assassinos e seus descendentes e herdeiros de tentar recontar a História, usando a profundidade de uma colher para fundamentar sua visão de que as ditaduras foram um mal necessário, salvando o país A ou B de um destino pior.
Tais portas do obscurantismo foram abertas recentemente na Argentina – logo um dos países que mais avançaram no tema, pelo menos no início. E nesse 24 de março, “Dia da Memória pela Verdade e Justiça”, o governo vigente resolveu lançar uma campanha pelo revisionismo, num vídeo em que um verniz de ponderação, equilíbrio e serenidade disfarça a intenção de silenciar quem ainda não teve suas perguntas respondidas.
Talvez você ache tudo isso muito pesado, denso e distante. Deixe este texto para lá. Pegue um saco de pipocas, sente-se no sofá e veja um filme de ficção. A História Oficial ou Argentina, 1985, por exemplo. Conte-me depois se você dormiu bem.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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