21 de maio de 2026

O desafio de um modelo exterminador do emprego, por Luís Nassif

Como o Brasil é um país que não consegue diagnosticar nem problemas do passado, dificilmente começará a discutir os problemas do futuro.

Uma medida crucial – diria, até, histórica – foi tomada ontem com baixíssima repercussão na imprensa. Hoje é capaz que os diários acordem e saiam batendo. Trata-se da decisão do governo de definir cotas para a importação de aço e imposto de importação.

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Depois de décadas, é a primeira medida efetiva de proteção à produção nacional, além do imposto de importação para carros elétricos.

Foi pouco, abrangeu poucos produtos, mas quebrou-se o tabu. A produção nacional tem que voltar ao centro das políticas públicas.

Mesmo assim, não resolve o grande dilema da nova fase da industrialização: a geração de empregos. O alerta vem de Daniel Rodrik, um dos grandes economistas contemporâneos.

Ele analisa a atual onda de fabricação de semicondutores nos Estados Unidos. No início da abril, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company anunciou a instalação de uma fábrica no Arizona para fabricar os chips mais avançados do mundo. É investimento de US$ 65 bilhões, fortemente subsidiado pelo governo americano. Receberá US$ 6,6 bilhões em doações, é elegível para US$ 5 bilhões em empréstimos e ainda poderá reivindicar um crédito fiscal de até 25% do seu investimento.

Já a Intel receberá uma doação de US$ 8,5 bilhões e US$ 11 bilhões de empréstimos em condições generosas.

Os investimentos serão relevantes para aumentar a competitividade da indústria americana. E a redução de bons empregos foi um dos fatores que estimulou o populismo autoritário. 

Ocorre que, por trás de bordões como “aumento de produtividade”, esconde-se a eliminação de empregos. O que são os indicadores de produtividade? É o valor da produção dividido pelo número de trabalhadores envolvidos.

Segundo Rodrik, a produtividade do trabalho na indústria de transformação dos EUA cresceu quase 6 vezes desde 1950. Mas apenas de 1990 para cá a indústria perdeu 6 milhões de empregos, enquanto 73 milhões de empregos não-agrícolas foram criados, especialmente no setor de serviços.

Quando Trump assumiu, a indústria de transformação respondia por 8,6% dos empregos não-agrícolas. Quando terminou o governo, a participação tinha caído para 8,4%. Biden implementou um programa ambicioso de industrialização. Mas o emprego na indústria caiu para 8,2% dos empregos não-agrícolas.

Volte-se aos investimentos da TSMC no Arizona. Eles gerarão apenas 6 mil empregos, ou mais de US$ 10 milhões por posto de trabalho criado.

Esse fenômeno ocorre em todo mundo. A indústria alemã tem uma participação maior no PIB do que a americana. Mesmo assim, diz Rodrik, a porcentagem de empregados na indústria “caiu como uma rocha”. Mesmo na China, o emprego industrial está em queda há mais de uma década.

Constata Rodrik:

“Quer queiramos quer não, serviços como o retalho, o trabalho de cuidados e outros serviços pessoais continuarão a ser o principal motor da criação de emprego. Isso significa que precisamos de diferentes tipos de políticas de bons empregos, com maior enfoque na promoção da produtividade e na inovação favorável ao trabalho nos serviços”.

Esse quadro obrigará a se repensar a Previdência Social. Não se trata mais de tirar benefícios dos aposentados. Mas a base de contribuição precisa urgentemente evoluir para o faturamento, e não para a folha de salários.

Como o Brasil é um país que não consegue diagnosticar nem problemas do passado, dificilmente começará a discutir os problemas do futuro. Mas não custa alertar.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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9 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    24 de abril de 2024 7:08 am

    Não é só o emprego que está sendo exterminado, Nassif. Todos aqueles que prestam serviços (advogados, dentistas, engenheiros, mecânicos, etc) estão sendo jogados na lata do lixo. Em 2023 ganhei 10% do que ganhava em 2015 (um rendimento menor que o que tinha quando era estagiário). Quando acabar o que tenho guardado o que eu vou comer: propaganda do governo Lula? Não foi para isso que eu votei nele.

  2. ronald

    24 de abril de 2024 7:25 am

    não é só problema da previdencia.
    sem emprego não tem consumo. se não tem consumo as industrias fecham. se as industrias fecham os capitalistas não ganham. esse é o dilema.
    é ruim em.

  3. DOUGLAS BARRETO DA MATA

    24 de abril de 2024 7:41 am

    Uau, um dos melhores economistas atuais?

    E?

    O que isso quer dizer?

    Nada, absolutamente nada.

    O único acerto dele foi sobre a natureza dos empregos, serviços e outros de caráter não produtivo ou derivado de setores principais.

    A questão, senhores, eu vou desenhar:

    Não há como girar a roda da história aí contrário.

    O capitalismo está no fim.

    O meio virou fim em si, quer dizer, meios.

    Mercado virou moeda(padrão de troca).

    E o valor virou anti valor(juros).

    Não há mais produção que extraia uma mais valia (mais valor) voltada a realimentar a produção de bens de consumo por quem produz (trabalho).

    O juro se reproduz pela alavancagem e não como remuneração amortizada do capital.

    O produto não é mais o bem, mas o dado e o serviço.

    Já era.

    Tal processo acelera ainda mais a condição descartável das periferias (nós).

    Se não tributar e emitir moeda, já era.

    Quer dizer, já era de qualquer jeito, mas pelo menos, seria um atraso para que respiremos.

    1. evandro condé

      24 de abril de 2024 1:03 pm

      Gostei do vaticínio “o capitalismo está no fim”. Só gostaria de saber o que vem em seguida, não os sonhos, mas o que a realidade projeta.
      E quanto ao atraso para que respiremos, e nossos filhos e netos?

      1. DOUGLAS BARRETO DA MATA

        24 de abril de 2024 7:16 pm

        Tá no texto, Evandro.

        Anarco(sem estado) narco (óbvio) rentismo digital extrativista (mineração de dados).

        Uma espécie de feudalismo digital ultra violento e ultra individualista.

        Sem capitalismo, o estado perde sus razão de ser, assim como suas formas externas (superestrutura) de controle das suss sócio reproduções.

        Isso poderia ter acontecido via luta de classes, com a superação dialética e dominação pela classe produtora dos meios de produção.

        Não deu.

        Eles entenderam Marx melhor que a esquerda.

        Agora já era…
        É torcer para um fim rápido e indolor, que não teremos.

  4. Anônimo

    24 de abril de 2024 6:49 pm

    Nassif, convide o professor Nildo Ouriques, pois, ao que parece, ele tem um diagnóstico muito bem definido dos problemas passados que nos levou a esse brutal subdesenvolvimento e dependência.

  5. DOUGLAS BARRETO DA MATA

    24 de abril de 2024 7:18 pm

    Tá no texto, Evandro.

    Anarco(sem estado) narco (óbvio) rentismo digital extrativista (mineração de dados).

    Uma espécie de feudalismo digital ultra violento e ultra individualista.

    Sem capitalismo, o estado perde sus razão de ser, assim como suas formas externas (superestrutura) de controle das suss sócio reproduções.

    Isso poderia ter acontecido via luta de classes, com a superação dialética e dominação pela classe produtora dos meios de produção.

    Não deu.

    Eles entenderam Marx melhor que a esquerda.

    Agora já era…
    É torcer para um fim rápido e indolor, que não teremos.

  6. Carlos Lima

    25 de abril de 2024 11:17 pm

    Nassif, essa transferência de governança, para o mercado, é uma situação preocupante e será a nova escravização, não pode meia dúzia de bilionários, usando a tecnologia, e defenestrando a razão humana e seus empregos, vivencia cultural e política. Já se fala nesse meio controlador e de donos de inteligência artificial e redes sociais, que o problema agora é remunerar minimamente os seres humanos, porém há outro problema quem vai comprar a produção 100% automatizada, me fez lembra um filme antigo com o Woody Allen chamado Sleeper, o mais curioso disso é que as soberanias dos estados, estão sendo transferidas para esse malucos, e não há uma reação dos seres humanos e nem dos seus representantes.

  7. Jicxjo

    26 de abril de 2024 2:37 pm

    “Esse quadro obrigará a se repensar a Previdência Social. Não se trata mais de tirar benefícios dos aposentados. Mas a base de contribuição precisa urgentemente evoluir para o faturamento, e não para a folha de salários.”

    Excelente ponto. Acrescento outro: a tributação sobre grandes fortunas poderia ser alcançada como critério para progressividade no imposto de renda; isto é, a definição da alíquota de IR não deveria ser exclusivamente com base na própria renda, mas também no montante de bens e direitos. Muito patrimônio, menos necessidade de renda extra a engordá-lo… Distribua a riqueza, se quiser alíquotas menores!

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