Uma medida crucial – diria, até, histórica – foi tomada ontem com baixíssima repercussão na imprensa. Hoje é capaz que os diários acordem e saiam batendo. Trata-se da decisão do governo de definir cotas para a importação de aço e imposto de importação.
Depois de décadas, é a primeira medida efetiva de proteção à produção nacional, além do imposto de importação para carros elétricos.
Foi pouco, abrangeu poucos produtos, mas quebrou-se o tabu. A produção nacional tem que voltar ao centro das políticas públicas.
Mesmo assim, não resolve o grande dilema da nova fase da industrialização: a geração de empregos. O alerta vem de Daniel Rodrik, um dos grandes economistas contemporâneos.
Ele analisa a atual onda de fabricação de semicondutores nos Estados Unidos. No início da abril, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company anunciou a instalação de uma fábrica no Arizona para fabricar os chips mais avançados do mundo. É investimento de US$ 65 bilhões, fortemente subsidiado pelo governo americano. Receberá US$ 6,6 bilhões em doações, é elegível para US$ 5 bilhões em empréstimos e ainda poderá reivindicar um crédito fiscal de até 25% do seu investimento.
Já a Intel receberá uma doação de US$ 8,5 bilhões e US$ 11 bilhões de empréstimos em condições generosas.
Os investimentos serão relevantes para aumentar a competitividade da indústria americana. E a redução de bons empregos foi um dos fatores que estimulou o populismo autoritário.
Ocorre que, por trás de bordões como “aumento de produtividade”, esconde-se a eliminação de empregos. O que são os indicadores de produtividade? É o valor da produção dividido pelo número de trabalhadores envolvidos.
Segundo Rodrik, a produtividade do trabalho na indústria de transformação dos EUA cresceu quase 6 vezes desde 1950. Mas apenas de 1990 para cá a indústria perdeu 6 milhões de empregos, enquanto 73 milhões de empregos não-agrícolas foram criados, especialmente no setor de serviços.
Quando Trump assumiu, a indústria de transformação respondia por 8,6% dos empregos não-agrícolas. Quando terminou o governo, a participação tinha caído para 8,4%. Biden implementou um programa ambicioso de industrialização. Mas o emprego na indústria caiu para 8,2% dos empregos não-agrícolas.
Volte-se aos investimentos da TSMC no Arizona. Eles gerarão apenas 6 mil empregos, ou mais de US$ 10 milhões por posto de trabalho criado.
Esse fenômeno ocorre em todo mundo. A indústria alemã tem uma participação maior no PIB do que a americana. Mesmo assim, diz Rodrik, a porcentagem de empregados na indústria “caiu como uma rocha”. Mesmo na China, o emprego industrial está em queda há mais de uma década.
Constata Rodrik:
“Quer queiramos quer não, serviços como o retalho, o trabalho de cuidados e outros serviços pessoais continuarão a ser o principal motor da criação de emprego. Isso significa que precisamos de diferentes tipos de políticas de bons empregos, com maior enfoque na promoção da produtividade e na inovação favorável ao trabalho nos serviços”.
Esse quadro obrigará a se repensar a Previdência Social. Não se trata mais de tirar benefícios dos aposentados. Mas a base de contribuição precisa urgentemente evoluir para o faturamento, e não para a folha de salários.
Como o Brasil é um país que não consegue diagnosticar nem problemas do passado, dificilmente começará a discutir os problemas do futuro. Mas não custa alertar.
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Fábio de Oliveira Ribeiro
24 de abril de 2024 7:08 amNão é só o emprego que está sendo exterminado, Nassif. Todos aqueles que prestam serviços (advogados, dentistas, engenheiros, mecânicos, etc) estão sendo jogados na lata do lixo. Em 2023 ganhei 10% do que ganhava em 2015 (um rendimento menor que o que tinha quando era estagiário). Quando acabar o que tenho guardado o que eu vou comer: propaganda do governo Lula? Não foi para isso que eu votei nele.
ronald
24 de abril de 2024 7:25 amnão é só problema da previdencia.
sem emprego não tem consumo. se não tem consumo as industrias fecham. se as industrias fecham os capitalistas não ganham. esse é o dilema.
é ruim em.
DOUGLAS BARRETO DA MATA
24 de abril de 2024 7:41 amUau, um dos melhores economistas atuais?
E?
O que isso quer dizer?
Nada, absolutamente nada.
O único acerto dele foi sobre a natureza dos empregos, serviços e outros de caráter não produtivo ou derivado de setores principais.
A questão, senhores, eu vou desenhar:
Não há como girar a roda da história aí contrário.
O capitalismo está no fim.
O meio virou fim em si, quer dizer, meios.
Mercado virou moeda(padrão de troca).
E o valor virou anti valor(juros).
Não há mais produção que extraia uma mais valia (mais valor) voltada a realimentar a produção de bens de consumo por quem produz (trabalho).
O juro se reproduz pela alavancagem e não como remuneração amortizada do capital.
O produto não é mais o bem, mas o dado e o serviço.
Já era.
Tal processo acelera ainda mais a condição descartável das periferias (nós).
Se não tributar e emitir moeda, já era.
Quer dizer, já era de qualquer jeito, mas pelo menos, seria um atraso para que respiremos.
evandro condé
24 de abril de 2024 1:03 pmGostei do vaticínio “o capitalismo está no fim”. Só gostaria de saber o que vem em seguida, não os sonhos, mas o que a realidade projeta.
E quanto ao atraso para que respiremos, e nossos filhos e netos?
DOUGLAS BARRETO DA MATA
24 de abril de 2024 7:16 pmTá no texto, Evandro.
Anarco(sem estado) narco (óbvio) rentismo digital extrativista (mineração de dados).
Uma espécie de feudalismo digital ultra violento e ultra individualista.
Sem capitalismo, o estado perde sus razão de ser, assim como suas formas externas (superestrutura) de controle das suss sócio reproduções.
Isso poderia ter acontecido via luta de classes, com a superação dialética e dominação pela classe produtora dos meios de produção.
Não deu.
Eles entenderam Marx melhor que a esquerda.
Agora já era…
É torcer para um fim rápido e indolor, que não teremos.
Anônimo
24 de abril de 2024 6:49 pmNassif, convide o professor Nildo Ouriques, pois, ao que parece, ele tem um diagnóstico muito bem definido dos problemas passados que nos levou a esse brutal subdesenvolvimento e dependência.
DOUGLAS BARRETO DA MATA
24 de abril de 2024 7:18 pmTá no texto, Evandro.
Anarco(sem estado) narco (óbvio) rentismo digital extrativista (mineração de dados).
Uma espécie de feudalismo digital ultra violento e ultra individualista.
Sem capitalismo, o estado perde sus razão de ser, assim como suas formas externas (superestrutura) de controle das suss sócio reproduções.
Isso poderia ter acontecido via luta de classes, com a superação dialética e dominação pela classe produtora dos meios de produção.
Não deu.
Eles entenderam Marx melhor que a esquerda.
Agora já era…
É torcer para um fim rápido e indolor, que não teremos.
Carlos Lima
25 de abril de 2024 11:17 pmNassif, essa transferência de governança, para o mercado, é uma situação preocupante e será a nova escravização, não pode meia dúzia de bilionários, usando a tecnologia, e defenestrando a razão humana e seus empregos, vivencia cultural e política. Já se fala nesse meio controlador e de donos de inteligência artificial e redes sociais, que o problema agora é remunerar minimamente os seres humanos, porém há outro problema quem vai comprar a produção 100% automatizada, me fez lembra um filme antigo com o Woody Allen chamado Sleeper, o mais curioso disso é que as soberanias dos estados, estão sendo transferidas para esse malucos, e não há uma reação dos seres humanos e nem dos seus representantes.
Jicxjo
26 de abril de 2024 2:37 pm“Esse quadro obrigará a se repensar a Previdência Social. Não se trata mais de tirar benefícios dos aposentados. Mas a base de contribuição precisa urgentemente evoluir para o faturamento, e não para a folha de salários.”
Excelente ponto. Acrescento outro: a tributação sobre grandes fortunas poderia ser alcançada como critério para progressividade no imposto de renda; isto é, a definição da alíquota de IR não deveria ser exclusivamente com base na própria renda, mas também no montante de bens e direitos. Muito patrimônio, menos necessidade de renda extra a engordá-lo… Distribua a riqueza, se quiser alíquotas menores!