10 de junho de 2026

Repetindo Bolsonaro e Trump, Milei desmantela a imprensa argentina

Ataques e ameaças do presidente da Argentina, Javier Milei, a jornalistas, buscam acabar com a credibilidade da imprensa.
Foto: Reprodução Twitter

Trecho da publicação “Além dos cães de Milei: liberdade de imprensa e saúde da mídia na Argentina”

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Da Red Ética

Traduzido por Jornal GGN

Milei contra a imprensa 

O papel do jornalismo numa democracia não se limita a reportar acontecimentos ou declarações oficiais. Estende-se a questionar, investigar e garantir que a verdade seja acessível ao público, mesmo que isso signifique inconveniente para encontrar as respostas sobre os mais poderosos. Portanto, a atitude do governo Milei com a imprensa, marcada pelo desdém e pela hostilidade, representa um desafio significativo e reafirma a necessidade de um jornalismo incisivo e persistente.

Esta tensão não começou com a chegada do nativo de Palermo à Presidência. A Repórteres Sem Fronteiras compilou em um relatório de 2023 diversas ocasiões em que, desde 2018, Javier Milei atacou a imprensa. As queixas vão desde insultos como “ignorante”, “estúpido” ou “burro”, e chegam até a ameaças e processos civis. Desde o início como cronista econômico até hoje, sendo Presidente da nação, Milei nunca baixou a guarda com o jornalismo. De fato, durante seus anos como deputado – entre 2021 e 2023 -,  teve mais de 20 incidentes com a imprensa, segundo os registros da Academia Nacional de Jornalismo (ADEPA) e do Fundo de Jornalistas Argentinos (FOPEA).

Durante sua campanha presidencial, o tratamento dispensado aos jornalistas não foi diferente. Até se amplificou, já que os ataques não partiram apenas do então candidato, mas também de sua equipe e de seus seguidores. É o que demonstram a Repórteres Sem Fronteiras, que relata, por exemplo, que durante um comício político, em Rosário, Milei empurrou um repórter, dizendo: “Aqui é aberto a qualquer um, não a vocês”. Na mesma linha de desprezo pelo trabalho jornalístico, chamou o Chequeado de “mentiroso”, depois que a agência realizou um processo de verificação em uma de suas entrevistas ao La Nación+.

Outro incidente ocorreu no dia das eleições presidenciais quando, enquanto Milei votava, a equipe da televisão pública do Canal 7 foi agredida por colaboradores do movimento político do então candidato, La Libertad Avanza, que ameaçaram e roubaram o microfone da jornalista Gabriela Radice.

Segundo este relatório, na maioria das vezes, os ataques de Milei surgem quando um jornalista faz perguntas que ele não gosta ou noticia sobre temas que o incomodam. Uma reação que se manteve em vigor durante a sua Presidência e que preocupa diversas organizações que defendem a liberdade de imprensa e promovem a democracia no país.

A esse respeito, Paula Moreno, presidente do FOPEA, afirma que Mieli “usa seu palco quase como um ringue e o jornalismo como o adversário que ele traz para esse ringue para questioná-lo o tempo todo, em tom extremamente grave”. É uma questão profundamente preocupante porque, diz Moreno, “gera uma relação assimétrica na qual é muito difícil responder, porque é um presidente falando, que se difere de que qualquer outro cidadão do país.”

Além dos ataques ao jornalismo em geral e a alguns jornalistas em particular, desde que foi eleito em 19 de novembro de 2023, Milei também declarou guerra aos meios de comunicação públicos e estatais, ameaçando privatizá-los ou fechá-los, porque, segundo ele, “são agências de propaganda kirchnerista”. Esta ameaça tornou-se realidade no dia 4 de março, quando a Télam, agência de notícias estatal argentina fundada em 1945, foi cercada pela Polícia e os seus mais de 700 funcionários receberam licença médica por e-mail.

Artur Romeu, diretor da Repórteres Sem Fronteiras, disse que o estilo de Milei é comparável ao de líderes como Donald Trump e Jair Bolsonaro, que usaram a antipatia pela mídia para fortalecer sua base política às custas da educação midiática de seus cidadãos. Esta abordagem não só mina a confiança nos meios de comunicação social, mas também põe em perigo a liberdade de imprensa, vital para o funcionamento de qualquer sociedade democrática.

Nesse sentido, Moreno destaca que embora não se possa dizer que esse tipo de atitude seja uma distração, é claro que muitas vezes é o presidente “quem escolhe quem vai ao ringue de boxe, e muitas vezes são os jornalistas” e assim consegue que, enquanto falamos de jornalistas, não falemos de outras coisas que também são importantes.

A relação tumultuada de Milei com a imprensa não reflete apenas uma estratégia política de antagonismo midiático, mas também levanta sérias preocupações sobre a saúde da democracia e da liberdade de imprensa na Argentina. Moreno também destaca a gravidade desta situação ao garantir que, de acordo com os dados coletados pelo monitoramento do FOPEA, entre 10 de dezembro de 2023 e 19 de março de 2024, foram registrados 37 casos de ataques à imprensa no país, dos quais 15 teve o Poder Executivo Nacional como agressor. Ou seja, 4 em cada 10 ataques à imprensa envolveram o presidente Javier Milei ou a sua equipe de trabalho.

Mas qual deveria ser o papel da imprensa argentina neste contexto? Diante desta questão, Moreno afirma que hoje, mais do que nunca, os jornalistas argentinos são obrigados a fazer mais e melhor jornalismo, porque é a única forma de neutralizar os ataques e garantir o direito dos cidadãos a serem informados.

No entanto, o presidente do FOPEA também é claro ao mencionar que isto significa que “nós, jornalistas, também devemos rever o nosso trabalho, ser capazes de olhar para dentro das nossas práticas, trabalhar com consciência e voltar à nossa essência para fazer jornalismo de qualidade, apesar dos atuais tempos, da indústria que nos pressiona, nos apressa, e que na Argentina, em particular, nos coloca em um contexto de sobrecarga que nos expõe ao erro a tempo todo. Apesar de tudo isso, nossa prática é sempre responder, com mais e melhor jornalismo, porque estamos convencidos de que esta é uma grande contribuição para a qualidade institucional argentina que temos que recuperar”.

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