É curioso o atual momento do país. O que garante a nacionalidade é a base, a cultura popular, a música, os movimentos sociais e os sindicatos. Depois, a academia, o sistema educacional.
No alto da pirâmide, vive-se um momento similar ao da República Velha, a república dos coronéis. Altos funcionários públicos, mídia, Judiciário assumem a linha de frente dos interesses imediatos dos coronéis de mercado – o mais ostensivo dos quais é André Esteves, do BTG. Elimina-se o conceito de bem público. Assaltam empresas públicas, com processos de privatização mal-cheirosos, sob complacência geral das estruturas de poder e em ações claramente nocivas ao bem comum.
Nada funciona para deter essa sanha destruidora.
Tome-se o caso da Eletrobras, da Sabesp, das refinarias da Petrobras, todas vendidas sob argumentos nitidamente falsos, e aceitos como verdadeiros por uma hipocrisia sem fim.
Some-se o enorme grau de ignorância em relação ao interesse nacional, e uma falta de bandeiras que impede qualquer ação coletiva.
Um empresário sempre será a favor da precarização do emprego, porque reduzirá seus custos trabalhistas. A soma dos empregos precarizados, no entanto, afeta diretamente o mercado de consumo interno, impedindo o deslanche da economia. O correto seria um grupo de comando na elite – como os chamados fundadores dos Estados Unidos – pensando em conjunto, sobrepondo os interesses gerais sobre os particulares. Mas toda essa selvageria foi sancionada pelo Supremo Tribunal Federal, o que se pensava ser o último reduto da responsabilidade federativa,
E é um processo histórico. No início do século 20, Manoel Bomfim destrinchou esse paradoxo brasileiro. Liberal, admirador do modelo norte-americano, na época com o Estado indutor do desenvolvimento privado, escandalizava-se com a sanha financeira nacional, de criar crises terríveis, que depois se estendiam por toda a Nação e, em seguida, recorriam aos “financistas” (como eram chamados os economistas da época), que se diziam portadores das últimas descobertas da ciência econômica e, com isso, desviavam a atenção da opinião pública dos verdadeiros motivos das crises e da estagnação da economia.
E fazem tudo isso em nome do liberalismo. Sufocam a atividade produtiva com níveis absurdos de juros, financeirizam tudo, impõem um enorme custo ao país, abarrotando-se com os juros da dívida pública, ou com os altos salários da elite do funcionalismo, desviando recursos dos verdadeiros fundamentos do desenvolvimento: educação, saúde, infraestrutura.
Depois, como esse inacreditável Luis Stuhlberger, um dos gurus do mercado, garantindo que nenhum país prosperará com a “gastança”. E gastança são gastos com saúde, educação e infraestrutura.
Criou-se uma nação de chupins, cujo comportamento chegou à classe média, que todo dia vai conferir o valor das cotas de seu fundo de investimento, reclamando quando a remuneração diminui.
Em um ambiente saudável, haveria juros baixos, a atividade produtiva se apresentaria como alternativa e a massa de recursos financeiros seria canalizada para empurrar o crescimento do setor produtivo.
Mas de onde virá essa força motriz, capaz de eliminar décadas de pensamento viciado? Tão viciado que, mesmo vítimas desse processo – como a indústria – através de suas lideranças, deblateram contra o juro alto, mas atribuindo a um déficit público praticamente inexistente.
Esse é o desafio brasileiro. E uma geração não parece ser tempo suficiente para acordar o gigante que, em um dia qualquer do início dos anos 90, parecia fadado a ser um dos líderes mundiais.
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Antonio Uchoa Neto
25 de julho de 2024 10:48 am“O correto seria um grupo de comando na elite – como os chamados fundadores dos Estados Unidos – pensando em conjunto, sobrepondo os interesses gerais sobre os particulares”.
Bom, os Pais Fundadores dos Estados Unidos são aqueles vetustos senhores, latifundiários e escravocratas, e alguns intelectuais burgueses. Os verdadeiros, na minha opinião, são os robber barons do século XIX em diante. Mas essa é outra história.
Bom, mas isso de grupo de comando. Os americanos tiveram seu grupo de comando: James Madison. Só que ele, ao contrário do que sugere o Nassif, sobrepôs os interesses particulares (dos latifundiários escravocratas e da burguesia nascente do Norte, principalmente) sobre os gerais – a população em geral, aí incluídos alguns milhões de escravos. É tolice imaginar que os vencedores da História – sejam os de uma revolução, ou de uma guerra externa – vão colocar à frente de sua ação e vitória, os interesses gerais. A burguesia que tomou o poder na França, 13 anos após a deflagração da guerra de independência americana, não queria impor o interesse geral do país, sob as insígnias iluministas e mentirosas de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, nem muito menos elevar a qualidade de vida do povo (eterna bucha de canhão dessas “revoluções”), mas sim tomar a si o comando do Estado, em lugar da Coroa, da nobreza, e do clero. James Madison disse aos seus iguais: ‘Olha, na sua propriedade vocês tem 1% de proprietários, ou seja, você e sua família e agregados, e 99% de estorvos necessários, entre empregados e escravos. É para isso que vocês querem democracia? Em quem vocês pensam que essa gente vai votar?’ Em outras palavras, democracia, só censitária, que é o que eles são, até hoje, com o nome de colégio eleitoral.
Bem público, na minha visão, é só a rua, que existe para que possamos nos dirigir, de ônibus, ao trabalho, apertados como sardinhas na lata, e o banheiro nas praças e logradouros públicos, quando existem, e estejam em condições de uso, o que, na minha experiência, quase nunca se dá. E Elite com espírito público…bem, se eu já não acredito em coisa pública, imagine em espírito.
Antes, era necessário explorar a força de trabalho, a fim de gerar mais-valor e acumular. Hoje, basta aplicar em papéis. Isso só pode ser o paraíso. Há alguns anos, um colega de trabalho meu tirava o extrato bancário cinco ou seis vezes ao dia, sem mentira nenhuma. Parecia ter medo de que tivesse sido roubado, de alguma forma, por alguma mão invisível. Sem ironias. Hoje, deve estar fazendo o que o Nassif diz, conferindo diariamente o valor das cotas de seu fundo de investimento, e reclamando quando a remuneração diminui.
E no rol das coisas com as quais sonhamos, mas sabemos não existir, inclua-se o ambiente saudável, onde há juros baixos, a atividade produtiva se apresenta como alternativa e a massa de recursos financeiros é canalizada para empurrar o crescimento do setor produtivo. Ou mude-se para o hemisfério norte, onde essas coisas, aparentemente, ainda existem, e graças a nós aqui, no mundo pobre, que oferecemos a eles os juros altos, a remuneração sob as benesses do câmbio, mão-de-obra barata, etc.,etc.,etc.
Tadeu Silva
25 de julho de 2024 12:14 pmRock, rock, rock, rock, rock, é o rato e a ratinha namorando /Rock, rock, rock, rock, rock, é o rato e a ratinha se beijando. (Rock do ratinho / Carequinha)
Robson Santos Dias
25 de julho de 2024 12:56 pmA república velha entrou em crise terminal pela conjunção de várias contradições internas, mas empurrada pelo colapso externo. Internamente, a república das oligarquias ruralistas fazia remendos a um sistema político e econômico que não suportava as mudanças sociais que viam de baixo: a formação de uma classe média urbana nascente; novos movimentos sociais (operário) estimulado pela cultura política de parte dos imigrantes europeus; um nacionalismo nascente em alguns setores da diminuta classe escolarizada brasileira. Externamente, a economia primário-exportadora funcionava aos solavancos, vulnerável às flutuações do mercado externo, que nos períodos de crise gerava restrições à capacidade de importar mercadorias essenciais para as demandas econômicas e sociais. A Grande Depressão foi o empurrão para o fim da República Velha e o início da saga da industrialização brasileira, que teve seus próprios dilemas (a inércia da questão social que aterroriza qualquer fração da classe dominante no Brasil). Tínhamos um debate intelectual de alto nível, mesmo no âmbito do liberalismo e certamente entre os desenvolvimentistas.
A república pós lava a jato caminha para um retorno à economia primário-exportadora, alinhada ao financismo e o atávico horror elitista à mestiçagem brasileira. Contradições estão se avolumando, conforme Nassif bem observou. Mas o preocupante é a degradação intelectual em amplo sentido dos setores escolarizados. Quem são nossos grandes intelectuais? Quantos são? O modelo de pós-graduação brasileiro, importador do quantitativismo mercadológico anglo-saxão, está matando a ciência brasileira. Os liberais se tornaram mero repetidores do que a Faria Lima e Wall Street emanam. A classe média é particularmente idiotizada. O que se tem de advogados, economistas, engenheiros burros, enche vários antigos Maracanãs. Nas cidades, a economia do crime (incluindo aí as igrejas evangélicas empresariadas por pastores corruptos), que sustenta muita gente na periferia, ocupa os espaços deixados pela destruição da capacidade produtiva nacional. Todo mundo quer ser empreendedor e o assalariado é visto como subhumano (vide uma ex-panicat desesperada pela degradação física da idade, bêbada, “insultou” uma comerciária de “CLT”). A degradação social é ampla e há poucos espaços de verdadeira existência. O que será da esquerda após esse suspiro derradeiro da geração que fundou o PT? Ficaremos focados nas identidades, enquanto o trabalhador é deixado ao deus dará?
Receio que ficaremos nos arrastando por anos a fio nessas contradições, à espera de algum choque externo que tenha força suficiente para reorientar o estado de coisas. Há uma mudança de hegemonia e o centro imperial que hipnotiza as classes dominantes e médias tupiniquins tem suas próprias e quase insolúveis contradições. Esse processo guarda seus próprios riscos, como uma escalada militar até o colapso nuclear (parece que entre supremacistas brancos e sionistas, a ideologia escatológica fundamentalista os diz que esse é o final desejável, ante sala para que o “messias” retorne e condene a todos que querem ver destruídos) ou uma reorientação do Império para seu quintal americano rico em recursos naturais.
Se uma coisa que a história ensina é que as novidades surgem nos momentos de colapso. Veremos…
Machado
26 de julho de 2024 9:46 amE o PT, hein, que não fortalece a mídia progressita. Fica esperando
o quê? Eles parecem ter medo que a mídia progressita se fortaleça,
está mesma que lhe deu de graça: apoio, colo, consolo e direção.
E manteve unido a esquerda para volta o poder. E agora?
Rodolfo Vasconcellos
26 de julho de 2024 10:45 amAs poucas lideranças ainda existentes, foram trazidas para a sala de jantar.
José Carvalho
26 de julho de 2024 2:45 pmO processo de desigualdade social no Brasil, causou uma separação profunda das várias parcelas da sociedade. Os de dentro e os de fora, que foi colocado o termo “BELÍNDIA” para mostrar essa condição. Quando o Mundo estava dividido pelos conjuntos de países do primeiro Mundo, segundo e terceiro Mundos, esse quadro não afetava de forma maior o País. As exigências em relação a todos os países não eram muitas. Com o passar do tempo tudo isso foi mudando, muitos lugares mudaram, o contexto do Mundo mudou. Quem não defender os seus interesses em fazer parte do progresso não ficará de fora, mas não estará incluído. O ambiente de negócios tem que ser propício. E nisso o Brasil fica devendo. Quem vai querer investir recursos no País, a não ser nessas privatizações questionáveis ou não, ante esse quadro dos ganhos financeiros. Quem tem cacife pra fazer investimentos, ou disputa as empresas privatizáveis ao preço que se lhes oferecem ou vão procurar tipos de renda financeira. E no contexto atual, cortar gastos com educação, saúde, previdência e qualquer outro tipo de gastos públicos e/ou sociais é o que resta. O grosso do público paga essa conta. O investimento produtivo que faz elevar as condições do País, se não puder aqui procura outro lugar.