21 de junho de 2026

Xadrez da estratégia de Lula para 2026, por Luís Nassif

E há melhora nos fundamentos da economia. Com um pouco mais de gás na gestão, Lula poderá chegar em 2026 com boas possibilidades de reeleição

O panorama visto do Planalto é o seguinte.

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Peça 1 – Campos Neto e o neobolsonarismo

De um lado, há o enorme poder da Faria Lima de influenciar as projeções de inflação e PIB, visando manter a Selic em níveis elevados e, por consequência, impedindo a recuperação da economia. No comando desse boicote, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, agora em franca campanha política.

Pessoa intelectualmente limitada, Campos Neto foi mordido pela mosca azul. Há suspeitas de que almeja não apenas ser um futuro Ministro da Fazenda de um governo bolsonarista, como ele próprio ser o candidato.

Para reduzir a resistência dos filhos de Bolsonaro – que não admitem outro candidato que não o pai – há alguns ensaios de pacto político. Para parte dos liberais-bolsonaristas, a candidatura de Bolsonaro facilitaria a vida de Lula, devido à rejeição ao ex-presidente. O melhor seria outro candidato – um Tarcisio de Freitas, por exemplo. A maneira de demover os filhos seria uma negociação com o Supremo Tribunal Federal que livrasse definitivamente Bolsonaro da cadeia, mas mantendo-o inelegível e abrindo espaço para algum alter ego. É o que explica a tentativa de aproximação de Tarcísio com o Ministro Alexandre de Moraes.

Mas há outros personagens no jogo. Vamos entender por partes.

Peça 2 – os defensores dos cortes

A explosão de Lula, dias atrás, deveu-se a dois personagens específicos, os que mais vêm pressionando pelo corte de gastos.

O primeiro, o das distribuidoras de combustíveis, cuja liderança maior é Rubens Silveira Ometto, do grupo Raizen. A isenção de IPI nos combustíveis, no período Paulo Guedes, custou algo entre R$ 30 e R$ 40 bilhões apenas em 2022. No IPI, o vendedor final pode se creditar do IPI embutido na compra do produto. Ou seja, a Petrobras vende o combustível, a Receita cobra o IPI. A distribuidora compra e, na hora da venda, compensa com o IPI pago antecipadamente.

Ocorre que elas continuaram se creditando desse IPI mesmo no período de isenção. Apenas a Raizen se apropriou indevidamente de crédito da IPI da ordem de R$ 8 bilhões. Em maio de 2023, a Receita estimava uma dívida total de R$ 38,7 bilhões.

O segundo grupo é o da mídia, que pressiona por todos os poros para estender a isenção da contribuição para a Previdência Social. Há fundadas suspeitas no governo de que a razão para a Globo ter recuado no caso Marielle – depois de ter noticiado o depoimento do porteiro do Vivendas da Barra – foi a ameaça do governo Bolsonaro de retirar a isenção.

O porteiro afirmou que o motorista do automóvel que foi pegar Ronnie Lessa pediu para falar, primeiro, na casa de Bolsonaro. Internamente, a alegação de Ali Kamel, para interromper as investigações, foi a desculpa de Bolsonaro, de que estava em Brasilia e, portanto não poderia ter recebido o chamado.

Uma bela reportagem da revista Piauí escancarou parcialmente esse jogo. Menciona a reportagem do Jornal Nacional e o recuo, comandado por Ali Kamel, diretor de jornalismo, alegando que haviam sido enganados, já que Bolsonaro estava em Brasilia no dia mencionado.

Como mostramos na época, o sistema do condomínio permitia a transferência de ligações para celulares dos condôminos – informação que derrubava o álibi de Bolsonaro. Surpreendentemente, a Globo ignorou essa informação, assim como outra, que mostrava que Carlos Bolsonaro se encontrava no condomínio no momento em que os assassinos se reuniam para planejar o crime.

Por trás de tudo, a ameaça de Bolsonaro de interromper a isenção de pagamento à Previdência pelas empresas de mídia.

Peça 3 – as armadilhas do mercado

Aqui, entra-se em um jogo mais complexo.

Esta semana, o dólar se acalmou. Fechou em R$ 5,413, depois de ter batido em R$ 5,70 no dia 2 de julho.

Dois fatores contribuíram para essa normalização. O menos relevante foi a mudança do discurso de Lula. O mais relevante foram as férias de Campos Neto, que deixou de insuflar o mercado.

Lula foi convencido depois de alertado que a alta do dólar, agora, impactaria diretamente os preços de alimentos no segundo semestre, movimento que poderia ser fatal para as próximas eleições municipais.

Mas o jogo com o mercado é bem mais complexo.

Há duas taxas básicas no país, a Selic – que é a taxa básica de juros de curto prazo – e as taxas pagas pelo Tesouro, para títulos de prazo mais longo. e que influenciam diretamente os financiamentos de longo prazo.

Hoje em dia, 90% da dívida pública brasileira estão em mãos da Faria Lima. Mais que isso. Existe o mercado à vista e o de derivativos – as apostas que se fazem em torno das cotações futuras dos títulos públicos. Os títulos de longo prazo são adquiridos para alimentar o jogo da especulação. 

Por sobre tudo isso, paira a fatídica planilha do Banco Central – um modelo matemático de projeção que nunca acerta, mas que serve para orquestrar o jogo especulativo. A metodologia é denominada de “modelo dinâmico estocástico de equilíbrio geral” (DSGE). Teoricamente, ele permitiria uma visão holística da economia, considerando as interações entre os diversos setores e pretendendo levar em conta fatores aleatórios e incertezas que podem afetar a economia – como choques externos e, principalmente, as expectativas dos agentes.

Mas todas as projeções – de demanda, de oferta, de câmbio e de inflação – dependem das expectativas dos agentes. E todos os agentes são influenciados pelas expectativas do mercado, único com espaço na mídia corporativa.

Vem daí a nova ordem unida do governo, com os principais integrantes  – de Lula a Haddad – repetindo o mantra do corte genérico de gastos, exclusivamente para anular as frases terroristas de Campos Neto e os editoriais dos jornais.

O jogo de expectativas permite grandes negócios. E o mercado atua como ratinhos de Pavlov ou bonecos de ventríloquo – mas com os fios sendo manobrados por raposas felpudas. 

  1. Se o dólar aumenta, o modelito diz que a inflação futura também irá aumentar. E isso puxa para cima as taxas longas de juros.
  2. Se a Selic cai, o modelito diz que a inflação futura aumenta. E puxa para cima as taxas longas de juros.
  3. Se a Selic sobe, o modelito diz que a inflação futura será menor. E puxa para baixo as taxas futuras.

É essa loucura, de atrelar todas as expectativas a um modelo matemático único, que permite o jogo de manipulações do mercado. Os grandes players atuam como o flautista de Hamlin, levando os ratinhos para onde quiserem.

Peça 4 – como desarmar as bombas

Há três estratégias para desarmar o alçapão do mercado, que estão sendo elaboradas para a era pós-Campos Neto.

A primeira é a diversificação dos tomadores de dívida pública.

Lula poderia se valer da disputa geopolítica mundial e convencer os chineses a aportar recursos para a compra de títulos da dívida pública brasileira. Os fundos soberanos de países da OPEP e os próprios fundos chineses enfrentam taxas negativas de juros.

Emitindo títulos em real, os investidores terão que internalizar recursos, provocando uma apreciação no câmbio – essencial, neste momento, para baratear as importações de maquinário pela indústria. E – importante – levarão esses títulos até o vencimento, em vez de utilizar para especulação, como ocorre hoje em dia com a Faria Lima.

A segunda é ampliar o escopo de análises de cenários, trazendo outras metodologias e reduzindo o poder de influência da Pesquisa Focus.

A terceira é avançar na ideia de uma moeda latino-americano. O caminho seria estender o pagamento por Pix para todos os países do continente. Para operar com Pix, no entanto, teriam que abrir contas em bancos brasileiros. Esse movimento ajudaria a conferir ao Brasil o mesmo papel da Alemanha na União Europeia, e seria um incremento ao comércio – especialmente com a Argentina – cujo maios empecilho é a falta de dólares.

Peça 5 – o projeto de país

Mas nada disso terá resultados duradouros se não se avançar em um projeto de país. O programa da Neoindustrialização não avança. A falta de uma estrutura de gestão faz com que os problemas sejam resolvidos no varejo. As taxas de juros elevadas emperram o mercado de ações e a capitalização de empresas.

O caminho seria a constituição de um Grupo Executivo – conforme indicado várias vezes aqui -, que definisse setores prioritários, medidas de estímulo, regras para entrada de capitais externos. Em outras circunstâncias, o ideal seria a coordenação pelo Ministro Fernando Haddad que, além das qualidades de gestor, tem controle sobre as políticas fiscais e monetárias. Mas, para tanto, Lula teria que arbitrar o conflito entre Haddad e o Ministro-Chefe da Casa Civil, Rui Costa. E Lula não parece disposto a tanto.

Outro caminho seria se valer do Conselhão para a contratação de uma consultoria de peso, que ajudasse na identificação dos setores estratégicos e das principais medidas de estímulo. Depois, o plano seria discutido com associações empresariais, sindicatos, economistas, definindo prioridades, cronogramas e decisões.

Mas essa possibilidade ainda está longe. Lula ainda não se deu conta da relevância de grupos executivos, não apenas para a neoindustrialização, mas para outras políticas públicas. Por enquanto, tem-se um governo com baixo nível de gestão.

De qualquer modo, a proatividade de Lula dos últimos dias já se refletiu nas pesquisas de opinião, com uma melhora sensível nas avaliações positivas sobre seu governo. E há melhora nos fundamentos da economia. Com um pouco mais de gás na gestão, Lula poderá chegar em 2026 com boas possibilidades de se reeleger.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    11 de julho de 2024 7:33 am

    O mercado se comporta como uma família mafiosa, Nassif. Nesse caso o melhor é “ir para os colchões” como diz Don Vito Corleone no fime de Francis Ford Coppola (The Godfather – 1972). Isso significa o seguinte. É uma estupidez tentar fazer a paz com o inimigo. O mercado e seus protagonistas devem ser atacados um a um até serem todos destruídos, mas isso deve ser feito com o devido cuidado. Só assim o Estado deixará de ser refém dos interesses mesquinhos de um bando de especuladores espertalhões que não querem correr riscos.

    1. George Santos

      14 de julho de 2024 10:56 am

      Não existe a menor chance de Lula se reeleger. TRUMP esta eleito nos eua e Tarcisio esta eleito aqui. A esquerda nunca mais voltará ao poder no Brasil após o Lula 3.

      1. Cidadão sem cidadania

        14 de julho de 2024 7:57 pm

        Infelizmente o senhor está certo, lula nao se reelege, o povo realizou o desejo de Lula ser presidente e nao construiu nada, o que fez, sumiu no 1 golpe , nao deixou legado, ou melhor o único legado será mais repressão com a transformação das guardas municipais em policia, será uma loucura total, a tão sonhada democracia nunca se concretizou, depois de quase 20 anos de PT aqui na periferia o que mais tem são ancaps uma ideologia que sem estado tudo resolve, pq isso? Simples o povo está vendo que falhou, o 1 que aparecer gritando vamos acabar com o estado vai ter uma facilidade enorme, foi por isso que ninguém foi rua defender Dilma e nem Lula.

        O PT é o Lula nao entenderam a mensagem do povo, o povo foi claro, Lula e PT queremos indústrias e nao mais policia.

        Ou nao entenderam ou entenderam é fingiram que nao eram com eles.

  2. Marcos Lima

    11 de julho de 2024 8:49 am

    Faltou mencionar quem falou que capitais do Oriente estariam interessados em aplicar em títulos brasileiros. Será que isso é real ou é só um desejo?

  3. evandro condé

    11 de julho de 2024 12:08 pm

    Reeleição?? PT ou esquerda sem outro candidato? Pra mim há algo errado.

  4. J.Marcelooo !!!

    11 de julho de 2024 12:33 pm

    Lula me lembra o Jakie Chan,tentam pegar ele(sabotar)a toda hora e ele fazendo malabarismo(como consegue com aquele bucho grande?)só tá faltando aprender a meter bala como o Putin e ter mais conhecimento tecnológico produtivo igual a Coréia do Sul,Lula precisa ser igual aos espadachim do Japão e cortar meio mundo(inclusive os juros)sem mais,thank you(e.u.aa seus trairas)

  5. Cidadão sem cidadania

    11 de julho de 2024 2:26 pm

    A reendustrializacao do Brasil nao acontecerá simples assim, Lula deve a oportunidade de fazer e nao fez pq nao teve e nao tem projeto de país, Lula teve 8 anos e uma Economia a favor, comodides altas e só fez um bolsa família, um país só é possível com indústria e Lula sabe disso a responsabilidade tem que ser devidamente creditada, o presidente é Lula.

    Sem indústria nao tem emprego nao tem renda a economia nao gira, somos ao que tudo indica paralisado sem nenhuma ambição.

    Fator repressão.

    O governo Lula está transformando as guardas municipais em mais uma polícia na calada da noites, a câmara vai aprovar o projeto, sem consultar a população pq Lula sabe que principalmente a periferia seria totalmente contra pq sabe que somente nós seremos afetados vide a PM agindo por aqui.

    Fator periferia.

    Se a eleição fosse hoje Lula perderia com tranquilidade, pq prometeu trabalho e está dando mais repressão.

    Fator sonhos..

    Uma país se faz com trabalho e renda e com sonhos de um país melhor para todos, nao é o que está acontecendo.

    Fator prefeituras.

    Lula poderia conversar com os prefeitos e autorizar a população vender cachorro quente, comidas em geral nas praças para população tem alguma renda e nao o que fazem hoje, se um pobre coitado coloca um carrinho de cachorro quente na rua vem os guardas e pega e levam pro pátio, se nao tem trabalho e nao tem indústria esse seria um caminho, a prefeitura deveria tem esse foco, é nao tem seus próprios polícias, esse caminho num país pobre será uma tragédia anunciada.

    Fator coragem..

    Esse sumiu faz tempo, o governo sumiu.

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