Trecho das minhas memórias (*)
por Izaías Almada
Nervoso, sem saber o que pensar ou fazer, tive a impressão de ter ouvido vozes à distância, gritos, balas que repicavam nas paredes e pelo asfalto já manchado de sangue.
Penso até que tinha a arma colada à mão direita, um revólver 38, mas já não sentia o seu contorno, nem se tinha o dedo no gatilho… Olhei para minha mão direita e não vi arma nenhuma.
Em verdade, em verdade vos digo que, antes de ser imobilizado pelas algemas, consegui jogá-la pelo barranco abaixo de uma rua em construção, perpendicular à Avenida Sena Madureira.
Ah! Esqueci-me dizer que nessa altura da minha existência eu já morava há cinco anos na cidade de São Paulo, desde janeiro de 1963, quando deixei Belo Horizonte, minha cidade natal.
Eu já ouvira falar de coisas horríveis: recém-nascidos abandonados pelas mães em latas de lixo, um gay com a metade de uma garrafa de Liebfraumilch enfiada no rabo, um mendigo devorado por ratazanas, os membros esquartejados de uma prostituta guardados num freezer, um estuprador com o penis cortado e enfiado na própria boca, um marginal preso e que teve um lápis enterrado num dos ouvidos.
Ouvi também sobre crimes elegantes e não menos horríveis, cometidos por gente endinheirada e sempre impune, sobretudo em nosso paisinho tropical.
Não estarei dizendo nenhuma novidade ao enfatizar que nesse paisinho tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, os ricos, os milionários e todos aqueles que os protegem, nunca são punidos como manda a lei pelos crimes e arbitrariedades que cometem… E olha que não são poucos!
Fazendeiros notáveis do agronegócio se tornam “legítimos” proprietários de terras que foram griladas. Banqueiros e agiotas a contarem os lucros adquiridos na lavagem de bilhões de dólares do narcotráfico, na sonegação de impostos, na aquisição de empresas telefônicas ou do simples roubo de centavos nas contas de empregadas domésticas e trabalhadores da construção civil, sempre e quando o nosso merdoso dinheiro mudou de nome (réis, cruzeiro, cruzeiro novo, real)… Toda essa mistura de poder, ganância, taras, perversidades e misérias já não me emocionam. Quando muito me revoltam…
Alguns anos de jornalismo e outros tantos a trabalhar também no mercado publicitário, muitos deles em contato com o lado mais sórdido e repugnante do ser humano, deixaram-me, por assim dizer, insensível, calculista e desconfiado, exageradamente desconfiado e profissional.
Eu cheguei aos oitenta e dois anos de idade ainda há pouco e, mesmo contrariado por muitas leituras e reflexões, me convenci em definitivo sobre as regras do jogo: numa sociedade sustentada pelo cinismo, pela hipocrisia, pelo sucesso pessoal a qualquer preço e, sobretudo pelo dinheiro, o crime compensa!
Que o digam os grandes empresários, os do agro negócio em particular, os banqueiros, a classe média aloprada e inculta, os políticos de meia tigela, a massa ignara, os legisladores e os juízes de direito, dos mais variados tribunais espalhados pelo país e também pelo mundo.
Contudo, o jornalismo e a publicidade, embora tenham consumido uns bons vinte anos da minha existência, não deixaram de ser periféricos, por assim dizer, pois meus grandes amores desde a adolescência e primeira juventude foram e ainda são o teatro, o cinema e a literatura. E não necessariamente nessa ordem.
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(*) – Trecho da minha autobiografia “Travessia” a ser editada.
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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