O aumento dos desequilíbrios comerciais globais, impulsionado pelo crescente superávit externo da China, reflete menos falhas de coordenação macroeconômica e mais uma estratégia deliberada de política industrial voltada à liderança tecnológica, segundo os economistas Jean-Pierre Landau e Sébastien Jean.
Em artigo publicado pela Project Syndicate, os autores afirmam que o sucesso chinês em setores como veículos elétricos, baterias e painéis solares não decorre de vantagens naturais, mas de uma combinação de políticas industriais, controle cambial, elevada taxa de poupança, restrições aos fluxos de capitais e forte orientação às exportações – um modelo que permite ampliar escala produtiva, reduzir custos e consolidar vantagens tecnológicas ao longo do tempo.
Na avaliação dos economistas, essa estratégia gera superávits comerciais persistentes, ao mesmo tempo em que transfere parte do custo do desenvolvimento para o consumo doméstico chinês. Embora consumidores de outros países se beneficiem de produtos mais baratos, a concorrência pode enfraquecer suas próprias bases industriais e reduzir a capacidade de competir em setores estratégicos no futuro.
Os autores argumentam que as atuais regras do comércio internacional foram concebidas sob a premissa de que todos os países buscariam maximizar o bem-estar dos consumidores dentro de um sistema aberto, hipótese que consideram cada vez mais distante da realidade.
Para Landau e Jean, a competição econômica passou a ser orientada por objetivos de longo prazo, nos quais a conquista de escala produtiva, capacidade tecnológica e participação nos mercados internacionais tornou-se um instrumento de poder econômico.
Nesse contexto, superávits comerciais persistentes deixam de ser apenas um indicador macroeconômico e passam a integrar uma estratégia voltada à consolidação da liderança industrial em setores considerados estratégicos.
Os economistas também afirmam que medidas isoladas, como a imposição de tarifas de importação, dificilmente serão suficientes para enfrentar esse cenário. Em sua avaliação, a governança do comércio internacional precisará incorporar mecanismos capazes de monitorar políticas cambiais, subsídios estatais e controles sobre fluxos de capitais, de forma a evitar que assimetrias estruturais ampliem ainda mais a concentração da produção industrial e da inovação tecnológica em um número reduzido de países.
Como resposta, defendem a atualização da governança comercial internacional, com maior integração entre regras de comércio, políticas cambiais e controles de capitais. Ao invés de ampliar tarifas de importação, os economistas sustentam que o foco deveria estar na fiscalização de subsídios domésticos, da gestão das taxas de câmbio e de mecanismos que ampliem artificialmente a competitividade internacional.
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