4 de junho de 2026

Ainda as minhas memórias, por Izaías Almada

Quantas vezes já tentara buscar outra que pudesse se sobrepor na memória a lembrança que lhe parecia a mais remota e triste da infância.
Candido Portinari

Ainda as minhas memórias

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por Izaías Almada

Ano de 1944

O enterro do irmãozinho era, sem dúvida, a sua recordação mais antiga. Quantas vezes já tentara buscar outra que pudesse se sobrepor na memória a lembrança que lhe parecia a mais remota e triste da infância. Esbarrava sempre na mesma: o enterro do seu único irmão, natimorto.

O pequeno filme dessa memória – quase uma fotografia – fixara em Pedro um momento forte e naturalmente inesquecível. O rebento não vingou, como se costumava dizer. Embora os pais não falassem sobre isso nos anos que se seguiram, Pedro amou o irmão que não teve para o resto da sua vida.

O registro em cartório, nascimento seguido de óbito, apontava o segundo semestre do ano de 1944.  Conseguia, pois, lembrar-se de um fato em que tinha pouco mais de dois anos de idade. Já ouvira falar sobre regressão, volta ao útero materno, experiências com LSD, sessões de análise, nada que o fizesse interessar-se para além daquilo que a própria memória o capacitava. Uma memória ainda frágil, em preto e branco, como nos melhores filmes expressionistas.

A mãe, ausente dessa primeira lembrança, se resguardava no hospital onde Pedro, por ser criança ainda, não pudera entrar. O pai, nervoso, com um caixãozinho nas mãos que lembrava mais uma caixa de sapatos, caminhava aflito pelo corredor do hospital São Lucas.

Um ou dois parentes com certeza andaram por lá, como a tia Marieta. Mais ninguém. Não se lembrava de choros e nem do ranger de dentes, percebendo com o correr dos anos que os pobres acabam sempre por conseguir uma defesa contra as dores e os sofrimentos.

Anos mais tarde o pai confirmou-lhe a imagem do infortúnio: o irmão nascera com os pulmões colados e não houve recursos médicos que pudessem salvá-lo. Era a vontade de Deus, segundo a crença paterna.

Miúdo, seu único irmão foi colocado numa caixa de papelão que lhe serviu de caixão antes de ser enterrado. Teria se chamado Paulo Lucas…

Sonhou, parte da sua infância, em ter um irmão com quem pudesse brincar e dividir segredos que não se contam a mais ninguém, nem a amigos e nem aos pais. Paulo Lucas, pelo visto, não quis saber dessas coisas. E de outras bem piores…

A pobreza era uma das marcas vincadas na personalidade de Pedro. Ou melhor, sua infância pobre e vivida em bairros da periferia de Belo Horizonte acabaria por marcá-lo para o resto de sua vida. Não que a pobreza tivesse maculado o seu caráter, tornando-o invejoso ou irado, como o Valentim, por exemplo, ou um borra-botas, um puxa-saco qualquer, como alguns dos seus amigos de infância.

Descobriu cedo ainda, nas escolas que pôde frequentar, nos livros que foi lendo aqui e ali, que a pobreza não era inerente à condição humana, como tentaram lhe fazer acreditar os sermões ouvidos nos bancos da igreja metodista, sempre a humilhar o homem diante da grandeza do Criador… Ao contrário: inerente à natureza humana estava a vontade de lutar contra a pobreza e a miséria.

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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