4 de junho de 2026

Seca na Amazônia deve ser frequente com o aquecimento dos oceanos, explica climatologista

Ao GGN, Carlos Nobre afirma que La Niña, fenômeno que resfria as águas oceânicas, é esperança incerta de gerar grande volume de chuvas na região
Trecho do rio Tefé (AM) teve seca, deixando os moradores quase isolados em 2023 - Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace.

O Brasil enfrenta, neste momento, uma situação de emergência causada por ondas de calor, em que apenas seis estados não estão em alerta por conta da baixa umidade (Acre, Alagoas, Espírito Santo, Roraima, Sergipe e Amapá) e a cidade de São Paulo apresentou, nesta segunda-feira (9), a pior qualidade do mundo. 

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Para explicar os efeitos das mudanças climáticas, o programa TVGGN 20 contou com a participação do professor e climatologista Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Climáticos da USP e co-presidente do Painel Científico para a Amazônia. 

Uma das hipóteses pouco prováveis é que a região metropolitana de São Paulo enfrente o mesmo caos enfrentado pelos gaúchos em maio, devido ao excesso de chuvas, uma vez que é comum que o sistema de alta pressão se mantenha nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Assim, em vez de chuvas, tais regiões tendem a encarar ondas de calor, que apesar de serem um fenômeno natural, com as mudanças climáticas e o aquecimento dos oceanos, tendem a se repetir em hiatos cada vez mais curtos.

Outra questão que tende a se repetir com mais frequência: a seca na Amazônia, que este ano bateu recorde. Nobre explica que o El Niño, que atingiu o país entre 2022 e maio, causa o aquecimento dos oceanos e, consequentemente, secas. “Só que agora, além do El Niño ter sido o terceiro mais forte, o Oceano Atlântico ao norte do Equador bateu todos os recordes de temperatura. Nunca ele foi tão quente quanto está agora. Então, o resultado é a maior seca da história da Amazônia. Aí o El Niño desapareceu em maio e a seca continuou porque porque o Oceano Atlântico está muito quente.”

Mais uma preocupação com a Amazônia: o impacto da La Niña, em que as águas do oceano ficam mais frias, induzindo chuvas na região. “Tivemos a maior inundação da história da Amazônia em 2021, que foi o La Niña mais forte do regime da história. Só que esse La Niña não está sendo prevista como forte. É muito provável que possa, a partir de novembro, começar a voltar a ter mais chuva na Amazônia e diminuir a severidade da seca. Mas o oceano Atlântico norte continua quente, então existe uma incerteza se a seca é ou a chuva vai continuar abaixo da média”, observa.

Elevação do nível do mar

No fim de agosto, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um relatório com um alerta mundial sobre a elevação do nível do mar, que pode atingir até 20 metros ao longo do milênio e por fim à diversas ilhas, capitais e cidades litorâneas. 

Sobre esta questão, Carlos Nobre afirmou que o nível do mar já avançou 25 centímetros nos últimos anos, tendo em vista a elevação da temperatura de todos os oceanos em patamares sem precedentes. 

Entre os efeitos, está o derretimento dos mantos de gelo, em especial na Groenlândia e na Antártica. “Tem um risco que a ciência está mostrando sobre um gigantesco bloco de gelo na Antártica. Ele começou a descer e, aparentemente, as águas mais quentes ali no fundo do oceano estão fazendo com que esse bloco de gelo possa se deslocar. Se esse bloco de gelo escorregar, nós vamos ter talvez uns 40 centímetros de aumento do nível do mar, pois esse bloco de gelo vai derreter muito rapidamente em poucos anos.” 

O professor explicou ainda que os oceanos eram capazes de absorver 60% da radiação solar. Atualmente, apenas 6% da radiação solar é refletida, devido ao aquecimento das águas, que se aumentarem 2°, devem derreter o gelo na Groenlândia e aumentar em sete metros o nível do mar. 

Sistemas

Diretor do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em 2015, Carlos Nobre conta que o país investiu em quatro mil pluviômetros instalados em 800 municípios, além de radares meteorológicos e sensores de níveis do rio, a fim de monitorar fenômenos climáticos. Mas na gestão de Jair Bolsonaro (PL), a verba foi reduzida e “a ciência foi jogada no lixo”, fazendo com que o centro ficasse atrasado em relação ao monitoramento climático. 

A atual gestão federal se comprometeu a ampliar o monitoramento em dois mil municípios, a fim de proteger as populações mais vulneráveis, especialmente crianças e idosos, das ondas de calor – que matam mais de um milhão de pessoas por ano em todo o mundo. 

Confira a entrevista completa na TVGGN:

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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