Escorregão nacional, por Eduardo Costa
Na semana que se encerrou no domingo eleitoral municipal de 27 de outubro do ano em curso, escrevemos um dos piores capítulos da história da diplomacia brasileira.
O legado varguista de uma carreira diplomática voltada para os interesses nacionais sempre teve um caráter inclusivo e até simpático no universo das nações. E isto começou cedo, quando a Liga das Nações deu lugar à Organização das Nações Unidas.
A habilidade de um revolucionário de 30 conquistou que o Brasil sempre abriria as Assembleias permanentes da ONU, ele, afinal, uma ex-colônia europeia, que agora se envolvia com a descolonização europeia do mundo todo.
Quando da constituição das mais importantes organizações internacionais voltadas aos objetivos do desenvolvimento e solidariedade internacional, lá estaria um brasileiro a, de maneira influente, ajudar a construi-la. Assim aconteceu na FAO, UNESCO, UNICEF e OMS.
Essa última, que me é familiar, forneceu uma lição que merece ser lembrada. Em crise com o macarthismo americano que queria nominar todos os seus quadros funcionais, seu primeiro presidente canadense se retira das eleições e um brasileiro é seu candidato. Marcolino Candau é aprovado na Assembleia Geral por pouco mais de 40 países, já que a União Soviética e outros países socialistas tinham se retirado da OMS. Mas, com ele, vinha a garantia que a guerra-fria não podia contaminar a saúde. E logo mais 30 países voltaram a ser membros, número que se ampliou até que, quando deixou a OMS, 20 anos depois, mais de 140 membros estavam afiliados.
Essa história pouco conhecida dos brasileiros, aqui serve para atestar o papel e o caráter do Brasil no panorama internacional.
De fato, nunca fomos boicoteiros, nem mesmo no campo esportivo. Vimos com tristeza extremismos deslocados do espaço da confraternização internacional dos povos sem a eles nos associar.
Mas, apesar de ter sido um dos membros fundadores dos BRICS, que afinal se uniram para socorrer os boicotados economicamente pela ordem norte-americana e europeia-ocidental, o Brasil promove o fiasco do veto à entrada da Venezuela.
Fica maior e mais sensível o desatino se o principal instrumento dos BRICS é seu banco e, exatamente uma brasileira, Dilma Rousseff, é sua presidente. Quer dizer, queremos enfraquecer o Brasil ou fazer pensar que viramos quintas-colunas?
Não há em qualquer perspectiva qualquer sentido nesta decisão. Nos constrange e nos força a contestá-la.
Nunca um argumento foi tão ridiculamente utilizado como “por que Lula teria ficado descontente com comportamento de Maduro sobre a divulgação eleitoral venezuelana”!
Primeiro, a Venezuela é um país soberano que faz sua revolução antiimperialista, sendo explorado e boicotado pelos Estados Unidos de maneira vergonhosa. Segundo, porque o Brasil, e, particularmente Lula, não têm que ser fiador de nada do que lá se passa. Precisa, isso sim, considerar um assunto interno da Venezuela e por isso defendêla da ingerência externa americana e dos novos fascistas do mundo.
Sinceramente, creio que a Venezuela não está certa ao desconfiar que Lula se acidentou, mas, até como profissional da área médica, posso achar que teve um grau de apagão em seu costumeiro discernimento político cognitivo.
Aí, o que surpreende são seus ministros do Itamaraty não terem, ao menos, pedido um tempo para o pronunciamento brasileiro sobre a entrada dos novos membros.
E quanto mais cedo nos desculparmos melhor. Como nós todos devemos fazer quando nos dermos conta de nossos erros.
Eduardo Costa – Médico sanitarista. Brasileiro sênior.
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WRamos
30 de outubro de 2024 11:00 amO autor está errado. O Brasil é sim fiador do governo da Venezeuela, juntamente com outros países amigos. Como forma de encerrar os embargos, em parte já retirados, e validar o processo eleitoral, o grupo de Barbados negociou ações aceitas pelo governo Maduro. O governo venezuelano não cumpriu integralmente sua parte e passou a fazer acusações aos vizinhos e a agir exatamente como fazem governos autoritários. Claramente disse não estar nem aí para seus compromissos diplomáticos. Os BRICs funcionam à base de consenso na aprovação de suas decisões pelos membros, afastando ações provocativas para uso político exclusivo. Exatamente o que busca o governo venezuelano ao pleitear a participação no grupo. Rússia e outros talvez possam aceitar um BRICs confrontador, mas a função do Brasil é garantir que ele se atenha aos seus limites de atuação para ter eficácia algum dia.
Moacir Rodrigues de Pontesss
30 de outubro de 2024 7:26 pmO Brasil e outros países podem ser mesmo fiadores da Venezuela, desde que o governo Maduro reconheça que aceitou ações negociadas pelo grupo. Diplomacia é negociação e negociação verdadeira implica que ambas as partes cedem alguma coisa. Infelizmente a Venezuela depende de vender seu petróleo para continuar sobrevivendo. Mas também precisa se desenvolver, o que não vai conseguir só vendendo petróleo para os países ocidentais mais ricos. Precisa fazer parte dos BRICS. Acho que Maduro sabe disso e Lula também. Já é meio caminho andado.
Cida Ventura
30 de outubro de 2024 7:30 pmPerfeito.
O autor do texto está equivocado como bem acima demonstrado.
Douglas da Mata
30 de outubro de 2024 10:34 pmSei, então de eleições no modelo dos EUA são o critério, o que fazem China e Rússia no bloco?
Se desrespeito a direitos humanos também é referência, aí então não sobra ninguém ali no bloco.
Então impedir o uso político pela Venezuela?
Sei, mas o gesto brasileiro não foi “político” e alinhado aos donos do mundo, EUA, que nem fazem parte do bloco?
Santo Zeus, de onde vem essa gente?