15 de junho de 2026

Brasil não agiu apenas contra a Venezuela, mas contra todo o “Sul Global”, por Eduardo Vasco

O voto contra a Venezuela foi uma intromissão nos assuntos locais, como se Maduro tivesse alguma obrigação de prestar contas a qualquer país
Reprodução

Brasil não agiu apenas contra a Venezuela, mas contra todo o “Sul Global”

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por Eduardo Vasco

O governo brasileiro agiu contra o BRICS. Agiu contra os seus parceiros de maior confiança. 

Os jornais da direita (seus inimigos, mas em quem Lula e o governo confiam mais do que em seus aliados históricos) citam fontes anônimas no Itamaraty dizendo que o Brasil foi “essencial” para barrar a entrada da Venezuela como parceiro oficial do BRICS.

O Brasil não foi “essencial”, foi única e exclusivamente ele quem barrou a Venezuela. Há muito tempo havia um consenso sobre o convite à Venezuela e o único que se opôs, no frigir dos ovos, foi o governo brasileiro. Como as decisões fundamentais do bloco são sempre por consenso, se há um único divergente a proposta não é adotada.

Na verdade, o Brasil se isolou. Mas falo sobre isso daqui a pouco.

Foi um crime a postura brasileira. Um golpe nos princípios da esquerda, de Lula e do PT. Foi também contra os próprios princípios declarados da diplomacia brasileira, que supostamente prega a não intervenção na política interna de outros países. Mas o voto contra a Venezuela foi uma intromissão nos assuntos venezuelanos, como se Maduro tivesse alguma obrigação de prestar contas ao Brasil ou a qualquer outro país sobre as eleições venezuelanas – decididas, como ocorreu, pelo povo venezuelano.

Tanto o “veto” à Venezuela como a razão deste foram um golpe também nos princípios do BRICS. O bloco não integra países em virtude de sua política interna, mas sim de suas aspirações internacionais. E a Venezuela compartilha das aspirações fundamentais declaradas por todos os países do bloco – mais do que outros países a cuja entrada o Brasil não se opôs.

Lula já falou tanto em acabar com as sanções unilaterais dos Estados Unidos contra a Venezuela, porque elas são o principal motivo da devastação econômica do país, levando à escassez de produtos e serviços básicos e à emigração de tantos venezuelanos.

Pois bem, o BRICS poderia reduzir significativamente os efeitos nefastos dessa guerra econômica imposta pelos EUA à Venezuela há mais de dez anos. O acesso de Caracas ao BRICS como parceiro facilitaria a sua integração econômica com seus membros, possibilitaria elevar exponencialmente o volume de investimentos e recuperar o país, econômica e mesmo politicamente. A estabilização da economia conduziria à pacificação política, ao menos relativa, pois diminuiriam as tensões políticas e sociais. Não é justamente nisso que o presidente Lula aposta internamente?

Se Lula e o governo se preocupam com a situação dos direitos humanos no país vizinho, seria uma obrigação integrar a Venezuela no BRICS. As causas principais da violação dos direitos humanos dos venezuelanos são a guerra econômica e as tentativas sucessivas de golpes de Estado, que empobrecem o povo e geram uma onda de violência.

O BRICS poderia concretizar aquilo que o presidente Lula limita apenas ao discurso. Fica muito feio para o Brasil, pois parece que tudo o que dizemos ao mundo não passa de demagogia barata.

E aqui chegamos à questão do isolamento do Brasil. Além de ser o único que se opôs à inclusão da Venezuela como país parceiro, também evidenciou que é contrário à rápida expansão do BRICS. Assim como no caso da Venezuela, isso denota uma subserviência do governo brasileiro aos interesses dos Estados Unidos, que não querem a expansão do bloco – muito pelo contrário, querem o seu enfraquecimento, enxugamento e destruição.

Muito bem. Ao tentar agradar os Estados Unidos, o governo brasileiro queima o próprio filme com todos os cerca de 40 países que estão ansiosos para entrar no BRICS – além das dezenas de outros que também querem se alistar. É uma ação contrária ao “Sul Global”, termo que o próprio presidente tem utilizado, buscando se apresentar como um líder dessa maioria mundial.

Todos esses países certamente começam agora a ver o Brasil como um parceiro não muito confiável, que diz uma coisa e faz outra.

Por último, uma aspiração histórica do Brasil é ser membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Típico de um setor mais avançado da burguesia nacional – o outro é abertamente capacho e não quer o Brasil no meio dos grandes. Aquele setor acha que é possível entrar no clube da elite, fazer parte dele de igual para igual, porque o mundo é justo. 

Ultimamente, o governo Lula tem indicado que já não acha o mundo tão justo assim e exige uma reforma para que o Brasil possa entrar no clube. Entendendo que um exemplo dessa injustiça é o poder quase despótico do Conselho de Segurança da ONU, o presidente quer o fim do poder de veto nas decisões da cúpula. Já criticou os vetos exercidos por Rússia e Estados Unidos.

No entanto, acaba de vetar, sozinho, a parceria oficial da Venezuela com o BRICS. Fez o que tanto tem criticado os outros de fazer.

Essa não é uma política soberana, independente, não-alinhada. É um pseudonacionalismo barato que às vezes beira o chauvinismo. Como costuma ocorrer com os chauvinistas, esse jogo está a serviço de uma terceira força, um poder imperialista.

Durante a campanha, em 2022, Lula disse que a política externa brasileira “nunca permitiu que a gente falasse grosso com a Bolívia ou com o Uruguai, ou qualquer outro país pequeno; mas também nunca permitiu que falasse fino com os EUA”. Isso não é bem verdade, porque em governos lacaios dos EUA o Brasil até enviou tropas como bucha de canhão para a República Dominicana (1965), ou para o Haiti, em pleno Lula 1.

Mas ele quis dizer que a diplomacia “ativa e altiva” de seu governo não lhe permitiria adotar dois pesos e duas medidas a depender da envergadura do país em questão. Porém, está contradizendo essa norma ao tratar a Venezuela do jeito que está tratando. 

Isso pode até dar a impressão de que está impondo a sua vontade aos outros. Quando, na verdade, se está agindo como procurador de um outro país.

Eduardo Vasco – Jornalista especializado em política internacional, foi correspondente na guerra da Ucrânia e escreveu os livros-reportagem “O povo esquecido: uma história de genocídio e resistência no Donbass” e “Bloqueio: a guerra silenciosa contra Cuba”.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    29 de outubro de 2024 4:58 pm

    Discordo. Quem agiu contra os interesses da Venezuela foi o vagabundo Nicolas Maduro ao dizer publicamente que pretende invadir a Guiana utilizando o território brasileiro. Ele obrigou o Btasil a concentrar tropas e equipamento militar na fronteira, porque se permitisse aquele estúpido fazer o que ele pretende nossso país também seria responsável pela invasão da Guiana. Maduro azedou as relações bilateraisVenezuela/Brasil e merece colher o que plantou. Chega de aplaudir todas as bobagens que esse maníaco faz e diz que pretende fazer.

  2. AMBAR

    30 de outubro de 2024 2:09 pm

    Perfeito, mas considerado o momento político e a delicadeza de trato que tais relações exigem, quero crer que Lula está fazendo uma “fumaça” até que se decida o destino de Washington. Ademais, a nossa diplomacia está mais para Ernesto, o Idiota que para Celso, o morim alvejado (tecido de lençol). Quero crer que Lula não manterá essa posição indefinida ou definitivamente. Ele não costuma ser irracional assim.

    1. Moacir Rodrigues de Pontesss

      30 de outubro de 2024 7:49 pm

      Também acho que o Maduro não é assim tão irracional. Deve estar apenas se posicionando melhor para negociar mais adiante. E numa negociação verdadeira ambos os lados cede alguma coisa.

  3. JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO

    30 de outubro de 2024 2:26 pm

    Acredito que o Brasil não tenha pretensões em se tornar um país imperialista, mas tiver, podemos dizer que começou o ensaio pela intromissão nas eleições da Venezuela e por último, com o veto para a entrada da mesmma no BRICS. Não há um só argumento razoável, sob qualquer aspecto, para tal atitude, salvo a de atender uma exigência do império americano. Como diz o velho ditado. manda quem ´pode e obedece que tem juizo. Obs.: O desabafo acima é de um cidadão de 81 anos, que já votou no presidente Lula, nos seis pleitos que ele concorreu a presidência, além de votar nas duas eleições de Dilma e em Fernando Hadad. Apesar da pisada de bola, votarei novamente me Lula se ele se cadidatar nas próximas eleições presidenciais.

  4. Milton

    1 de novembro de 2024 9:16 am

    A insensatez é tamanha que só se mantém considerando ter havido uma troca.
    O país se rebaixou ao papel de “cão de guarda” respondendo ao apito.
    Bater na Venezuela e esquecer outros bem piores por aí é, no mínimo, estranho.
    Quem sabe para o futuro – imaginado risonho e franco – a verdade apareça.

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