Crônica publicada em 1 de janeiro de 2020
Quero a minha pátria de volta, por Luís Nassif
Terminou o que poderia ter sido o pior ano da vida do país. Provavelmente outros piores virão.
Meses atrás me convidaram para entrar em um grupo de Amigos de Poços de Caldas, quase 7 mil pessoas e, surpreendentemente, muitos do meu tempo e da minha geração. Um grupo agradabilíssimo, porque se proibiu qualquer referência à política.
Alguns deles fizeram parte do êxodo mineiro dos anos 70, radicando-se nos Estados Unidos. São os mais apegados à terra brasilis. Colecionam fotos antigas da cidade, fotos de amigos, bebem cada informação sobre a terra com a sofreguidão dos náufragos de país.
E aí me pergunto: um país que provoca tanta saudade assim nos seus, mesmo nos que foram buscar fora daqui as oportunidades negadas, vai regredir, se tornar refém de fundamentalistas pirados, ser dominado por milícias e integralistas da era da pedra lascada?
Jamais. Este país tem história, tem valores que foram transmitidos a uma elite familiar, e não se confunda com elite sócio-econômica, mas os brancos, os portugueses, os negros, índios, quilombolas, os turquinhos, italianinhos, judeus, polacos, alemães, franceses, japoneses de todas as extrações sociais, cada qual em seu círculo consolidando a ideia de brasilidade, impondo suavemente as regras sociais sobre a malta que, durante algum tempo, submergiu, dando a impressão de ter se tornado fantasmas do passado.
O país civilizado não morreu. E deixa saudades. Não a saudade dos que não esperam o retorno, mas a saudade dos que o têm vivo na memória e na esperança de um retorno.
Os violentos de nascença não tem remédio. Mas há uma legião de desinformados que resolveu tomar o porre da violência, como viciados em drogas ou pornografia. Enquanto a liberação das drogas reduz a violência, essa liberação dos limites sociais trouxe o ódio.
Antes, os avanços da civilização tornaram proibitivos acessos de violência em ambientes públicos, ofensas gratuitas, a solução de conflitos pessoas ou políticos a bala. Foram tempos em que a educação, o conhecimento, o respeito a terceiros eram atributos que conferiam status aos seus praticantes. E criavam complexos de inferioridade nos brutos, nos que só dispunham da grosseria como forma de comunicação e da violência como forma de participação.
Hoje em dia, o país é comandado por milicianos. Mas a pátria vive, acorrentada, humilhada, mas viva.
E, de repente, me dá vontade de beijar os olhos de minha pátria, de mimá-la, como disse Vinicius de Moraes no imortal “Pátria Minha”, a pátria que floresceu longe dos palácios do Rio e de Brasília, que se fez pátria em tantos cantos do país, que germinou na mais bela música do planeta, que se fez democrática nos botecos da vida, a música que permitiu, ainda nos anos 20, os filhos da elite rural, na Semana de 22, entenderem que havia um país vivo, por baixo do mofo dos salões.
Minha pátria imortal apenas dorme, entorpecida pelos brutos que escaparam da jaula quando uma elite corrupta desmoralizou a política, e outra elite corrupta montou operações supostamente moralistas, oportunistas, malandras, para destruir qualquer sentimento de brasilidade, qualquer sinal da solidariedade que é o cimento que une pessoas na construção de um país. Minha pátria vive em cima dos escombros das instituições falidas, de todas elas, da política, da jurídica, da midiática, da empresarial, da militar.
Minha pátria resiste na lembrança da mão quente de minha mãe me acariciando o rosto, nos cuidados dela e de meu pai com os filhos. Nas músicas que ela cantava para os filhos, e que passamos a cantar para nossos filhos, que as cantarão para nossos netos. São as lembranças da amabilidade dos nossos pais, das conversas com vizinhos, das reuniões em torno de pais e avós nas datas comemorativas. E a lembrança da emoção que sentiram quando o Brasil rompeu as amarras da inferioridade e se tornou campeão no futebol. Era a construção do orgulho nacional, de um país que mal saia da infância, e se fortalecia com a beleza de Marta Rocha, os feitos de Pelé, Eder Jofre, Mequinho, Maria Esther Bueno. Era o país que se orgulhava do internacionalismo do Rio de Janeiro e suas bossas novas, e das canções que brotavam do fundo da terra.
Este país não morreu. Apenas aguarda o momento em que sairá da longa hibernação.
Quando renascer, terá de mãos dadas os empreendedores de startups e os empreendedores sociais do MST e do MTST, a modernidade sadia dos mercados, não esta que suga os recursos do país, e a pujança dos pequenos negócios, o agronegócio e a agricultura familiar.
Levarei meus últimos anos sonhando com este país, lutando pela busca da utopia que nunca se realizou, da primeira nação democrática e igualitária dos trópicos.
Douglas da Mata
19 de novembro de 2024 6:13 pmAhhh, a classe média romantizando suas memórias de um “país civilizado”, moldado a golpes desde 1889, que sempre tratou (e trata) pobres como cães, e negros como cães leprosos.
Que na mais tenra ameaça de um governo pró pobres, respondeu com a histeria coletiva dos mais afortunados.
Que torturou, matou, estuprou em nome de deus, família e propriedade, e na hora de acertar as contas, anistia neles.
Esse país que mata 40 mil por ano por arma de fogo, maioria negra, que se não vai para o IML, vai para cadeia.
É a carne mais barata do mercado, no país nossa nova.
JK? Sim, de acordo com sua filha, apoiou 64, na série exibida no Canal Brasil (os herdeiros de Vargas).
Sim senhor. O exemplo mineiro de modernidade centrista, um golpista!!!!
Imaginava JK que seria ele o fiador da reconstrução da democracia sem povo.
Lacerda também.
Todos no lixo da história.
Que país civilizado é esse que Nassif e seus amigos mineiros sentem falta?
Sinceramente, não sei.
Eu não vivi, e não vivo nesse país.
MARCOS GERHEIM VILLELA VIEIRA
19 de novembro de 2024 7:51 pmClap, clap, clap
Francisco Santos
19 de novembro de 2024 8:54 pmComo diria Humberto Gessinger “somos quem podemos ser”
A barbárie perpetrada no país pela extrema direita só sobrevive hoje com o apoio da imprensa familiar aristocrática, que foi quem começou tudo isso ao colocar Olavo de Carvalho como o novo guru da politica brasileira, porque era o único pseudointelectual a apoiar o golpe contra Dilma
Mas, enfim, se formos dar nomes aos bois aqui será um texto sem fim
Felicito aqueles que tiveram a oportunidade de viver os sonhos dos governos de esquerda e seus avanços, eu vivi, vi um país de gente comendo e vivendo nas ruas, sem casa, a um país com toda a pompa e que prometia tudo (2012)
Mas o ovo da serpente sempre eclode
Cidadão sem cidadania
24 de novembro de 2024 1:00 amTa certo, filma quê mudou e fez lei especiais para lava jato funcionar, Dilma quê deixou todas as empresas de engenharia serem destruídas, Dilma quê começou a vender o pré sal ( no caso foi doar), e depois de tudo ser destruído, mectron estaleiros projeto submarino nuclear nuclear, e etc, hoje ela ta no quentinho, e com um salário lindo no banco chinês, quê guerreira ( FUI SARCÁSTICO)
Fernando Jorge Correia de Freitas
19 de novembro de 2024 9:29 pmQue belo texto!!!
Da decepção à utopia em laivos de esperançar e não de esperança.
Saudações, Nassif
Fernando
Anônimo
20 de novembro de 2024 12:44 amAh! Nassif! Chorei.
José de Almeida Bispo
20 de novembro de 2024 7:05 am“Aqui é o meu país!” (Ivan Lins)
Clap! Clap! Clap!
Antonio Uchoa Neto
20 de novembro de 2024 1:34 pmQue ne perdoe o Nassif, mas esse país cujo retorno ele espera, é uma espécie de viúva Porcina, a que foi sem nunca ter sido.
Para os egressos da classe média, e para aqueles que, não sendo exatamente proletários, desfrutaram do convívio – social e em relações de trabalho – dessa gente descrita nesse post, as coisas talvez sejam assim, mesmo.
Eu mesmo fiz parte desse mundo, até os dezesseis anos; desgraçadamente, cedo demais para ter alguma consciência crítica, e saber do que se tratava, e do que era o mundo além dessa fronteira de conformismo e adequação.
Hoje, sei que peguei carona nos últimos anos do período de ouro do Capitalismo Industrial – de 1946 até o primeiro choque do petróleo.
Creio que são desses anos essas recordações emotivas e nostálgicas de que fala o Nassif. São cerca de15 anos entre o nascimento dele, e o meu – e isso é auto-explicativo.
O fim da guerra, e seus horrores, possivelmente terá criado, no inconsciente coletivo da humanidade, uma noção de bem-estar coletivo, de generosidade, de solidariedade – mas o valor de mercado dessas coisas se provou, rapidamente, inviável e desaconselhável, como investimento.
Como diria Primo Levi, mesmo aqueles que viveram na pele os horrores de que é capaz o ser humano, um dia esquecerão disso.
Passado o sonho do pós-guerra, coletivo, generoso, e solidário, o individualismo natural (eu diria, inato) do ser humano retomou o proscênio.
O homem, ou antropóide, que inventou a roda, inventou-a para si, e para dela se beneficiar individualmente.
Como os outros começaram a invejá-lo, ele fabricou outras e as vendeu aos invejosos.
Essa é a história do mundo, segundo a Sra. Margaret Thatcher, profeta do neoliberalismo.
Fosse o mundo o que o admirável jornalista Nassif julga que é, e ele teria ensinado os outros a fazer suas próprias rodas.
E, desgraçadamente, a Sra. Thatcher esteva certa.
Estou aberto a refutações.
Cidadão sem cidadania
20 de novembro de 2024 7:22 pmO tal país civilizado, só existe em Alphaville, jardins, leblon, higianopolis, e mais meia dúzia no Brasil, ja a periferia quê eu moro e milhões, percebe quê nao falo da favela, porque nasci numa e lá è o inferno, lá sé você falar que são tratado com civilidade até hoje, vão ter certeza que você è louco, más vamos falar da periferia quê hoje moro, aqui è o purgatório, aqui nao temos hospital, o que temos è predios è olha quê nem falo de um sírio libanês, uma beneficência ja ta ótimo, nao têm educacao,o pior antes tínhamos e temos uma PM brutal, e hoje temos uma guarda municipal brutal quê foi armada nos governos Lula è Dilma, hoje temos mais repressão do que nunca, guarda só pra cuidar de prédios, hoje temos a loucura de uma rota, e ja tava ruim, hoje temos uma rotam, uma rota imitação da rota estadual, rota municipal,
Quando ouço, leio, em civilidade, fico me perguntando onde ela está, daí volto ao 1 parágrafo do meu testo.
Agora imagina quando o dinheiro for digital?
A tal civilidade jamais vai acontecer, será um sonho, quê sonhamos, más acordamos e choramos, em nunca sentir, ao mesmos sentir o gostinho da tal civilidade.
+almeida
20 de novembro de 2024 8:39 pmNassif, eu considero seu texto muito providencial e necessário. Também te parabenizo por reavivar em nós a lembrança do país e também de todas as qualidades coletivas que experimentamos em tempo áureos, de um passado ainda recente. Tempos em que a população orgulhosamente provocava e promovia a união com o bem estar, com a felicidade, com a fraternidade, com o respeito, com a dedicação, com a qualidade da vida e com um honroso relacionamento com o próximo. Acredito que o texto faz despertar em nós o país de valores históricos e de uma história valorosa, que muito nos orgulha. Acerta completamente, quando ecoa que: “a solidariedade é o cimento que une irmãos e irmãs na construção de um país”.
Então, em pleno resgate de um tempo memoroso, eu reconheço como muito providencial a sua (e nossa) reivindicação para nos unirmos na força da paz e trazer de volta a nossa verdadeira pátria Brasil. Para isso, nós precisamos reconhecer e confessar a nossa participação acomodada, omissa e submissa à toda essa horda destrutiva, indigna e hedionda. Uma organização criminosa, golpista e terrorista, que planeja, constrói e executa a maldade e manipula sua odiosa força subversiva e terrorista, para atacar e aniquilar o estado de direito, a democracia e a nação brasileira.
Valeu muito!
NELSON MANCINI NICOLAU
22 de novembro de 2024 5:43 pmQUE TEXTO LINDO !
ARREPIO DE EMOÇÃO E DE LEMBRANÇAS.
LEVANTEI-ME DO TÉDIO E DA DESESPERANÇA E RESOLVI, CONTEMPLANDO A MANTIQUEIRA,
VOLTAR PRA LUTA …