4 de junho de 2026

As inverdades sobre Walter Salles para desacreditar o “Ainda estou aqui”, por Luís Nassif

Mesmo no ambiente opressivo da ditadura, Moreira Salles ajudou JK e o próprio Jango, em seu exílio no Uruguai.

A meia verdade é a pior forma de mentira. É por aí que caminha um texto, que viralizou, apresentando o cineasta Walter Salles – do filme “Ainda estamos aqui” – como um beneficiário da ditadura que matou o deputado Rubens Paiva.

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Walter Salles é herdeiro do banqueiro Walther Moreira Salles. No texto, o pai é apresentado como financiador do IPES, o Instituto de Pesquisas Econômico Sociais que teve papel fundamental no financiamento midiático em favor do golpe de 1964. Falso!

Eu escrevi a biografia de Moreira Salles. Não foi uma biografia autorizada, apesar do acesso que tive ao próprio embaixador, em dezenas de entrevistas, à parte do seu acervo e aos seus primeiros sócios. O livro descontentou os filhos por mencionar episódios delicados, como seus embates com Roberto Marinho, de quem foi sócio no Parque Lage, ou seus negócios com dívida externa brasileira. Foi um livro que homenageou a grande estatura pública dele, mas sem ocultar as fraquezas.

Walther Moreira Salles fazia parte de um grupo de empresários que apoiou Getúlio Vargas e seu sucessor João Goulart. Foi sua indicação para Ministro da Fazenda de Jango que viabilizou o parlamentarismo contra o golpismo das Forças Armadas, que queriam impedir Jango de assumir a presidência, com a renúncia de Jânio.

Aliás, pouco antes de renunciar, Jânio foi procurado pelos três comandantes militares oferecendo seu apoio para o caso de pretender dar um golpe. Jânio recusou apostando em outra saída: ele renunciando, saindo do país em um cruzeiro marítimo e, na volta, sendo consagrado pelo povo que exigiria sua volta. Na volta do cruzeiro, o povo não compareceu.

Há um conjunto de informações inéditas no livro. A história dos militares me foi relatada por Rafael de Almeida Magalhães. A do cruzeiro, pelo próprio Walther, que contou que foi planejado meses antes da renúncia.

Para viabilizar a posse de Jango, foi armada uma operação sigilosa para levar Walther até Porto Alegre, onde ele testemunhou a enorme coragem de Leonel Brizola, comandando a resistência – conforme me relatou. Walther foi o avalista do parlamentarismo justamente por suas relações estreitas com o sistema financeiro norte-americano – era amigo íntimo de Nelson Rockefeller – e com os grandes grupos de comunicação dos EUA.

Acertado o parlamentarismo, teve que voltar escondido, indo a Buenos Aires e voltando para São Paulo com carteira de identidade falsa.

O texto diz que sua ligação com Rockefeller foi fundamental para evitar sua cassação. Tem razão, mas não significa, em nenhum momento, adesão ao golpe.

Não se deve esquecer que a primeira grande denúncia contra as torturas praticadas pelo regime foi feita a Nelson Rockefeller em um evento no Museu de Arte Moderna que, possivelmente, foi a causa do assassinato de Zuzu Angel.

Para se contrapor à enorme frente midiática contra Vargas, Moreira Salles chegou a negociar uma grande editora, fundindo a Érica (que publicava a revista Sombra) com a Última Hora, de Samuel Wainer. Por conta disso, foi alvo da CPI da Última Hora. Como afirmar que ele financiava o IPES?

Walther foi salvo da cassação por duas circunstâncias. A primeira, no governo Castello Branco, por uma circunstância familiar: dona Argentina, esposa de Castello, tinha relações de parentesco com a família de Elisinha, esposa de Walther.

A segunda tentativa foi com Costa e Silva. José Carlos Marcondes Ferraz, conhecido playboy do Rio de Janeiro dos anos 60, me contou que passou uma noite na casa de Walther, com a ameaça de, a qualquer momento, a casa ser invadida por militares. Telefonemas de autoridades norte-americanas influentes – cuja amizade Walther cultivara como embaixador de Vargas e de JK – seguraram a cassação. E Delfim Neto foi essencial, a partir de uma conversa que teve com Costa e Silva – que me foi relatada pelo próprio Delfim.

Costa e Silva o procurou e perguntou o que aconteceria se cassasse Moreira Salles. E Delfim:

  • Pouca coisa, general. Nos indisporíamos com os banqueiros norte-americanos e europeus, e também com as grandes redes de comunicação dos Estados Unidos. Mas apenas isso.

Mesmo assim, a família Moreira Salles saiu do país e mudou-se para a França, por receio de ter o mesmo fim de Rubens Paiva.

O texto não informa que Waltinho, o filho, frequentava a casa de Rubens Paiva, era amigo de suas filhas. Fugia do ambiente pesado da sua própria casa – devido aos embates constantes do casal Moreira Salles – e ia buscar a leveza da família Paiva.

O Unibanco, de fato, foi beneficiado pela política econômica de Castello Branco, como outros bancos nacionais, a partir das reformas conduzidas por Roberto Campos e Octávio Gouvêa de Bulhões. O texto não consegue entender que, por baixo da política, havia uma estrutura empresarial e uma elite econômica carioca que orientava o país desde Vargas.

Roberto Campos foi assessor de Café Filho, de JK, participou da fundação do BNDES e, assim como Gouvea de Bulhões, transitava pelo alto mundo financeiro e empresarial do Rio de Janeiro.

É essa elite carioca – que se frequentava desde os anos 40, quando o Rio era apenas uma cidade que ainda não se internacionalizara -. além das ligações ultramarinas, que impediu Moreira Salles de ter o mesmo destino de grupos paulistas destruídos pela ditadura pelo apoio a Jango – como os Wallace Simonsen.

Mesmo no ambiente opressivo da ditadura, Moreira Salles ajudou JK e o próprio Jango, em seu exílio no Uruguai. Na ocasião, entrou em contato com banqueiros uruguaios, garantindo operações de financiamento das atividades de Jango.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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13 Comentários
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  1. J.Marcelo.Jotaaa

    9 de janeiro de 2025 10:53 am

    Para o controle das inverdades nas redes digitais vou propor.algo muito sério e para ontem,substituir os meios informacionais de países ttairas da internet por SISTEMAS JÁ PRONTOS e muito eficientes de países asiáticos como o Baidu por exemplo,num sistema de copia e cola dado a urgência pela declaração dw guerra ao País,poderia ser no mesmo.sistema dos asiáticos,metade do governo e outra metade de algum capitalista brasileiro sendo assim formando uma burguesia local isso é urgente dado a gravidade da situação e os planos já sendo postos em prática pelos trairas não posso falar mais então sem mais !!!

  2. Edila Melo dos Santos

    9 de janeiro de 2025 11:01 am

    Já conheço esta história. Fui cliente UNIBANCO. Mas, há aqui detalhes que fiquei sabendo melhor! ….

  3. REGINA MARIA BRANDAO DA MOTTA

    9 de janeiro de 2025 1:52 pm

    admiração por Luiz Nassif, sempre muito preciso e confiável!

  4. Cidadão sem cidadania

    9 de janeiro de 2025 4:21 pm

    Nassif faltou falar da CBMM, quem é o dono, foi na ditadura que conseguiram a concessão do niobio….?

  5. Antonio Uchoa Neto

    9 de janeiro de 2025 4:55 pm

    Um banqueiro pode ser um humanista, um progressista. Mas um banco, Nassif, é sempre um banco. E sem um banco, um banqueiro não é nada – nem humanista, nem progressista. E um banco é o que é: o beneficiário da exploração capitalista, seu sistema circulatório, seu sistema nervoso central, seu mantra, sua Igreja. Para que deixassem de ser o que são, seria necessário um deus ex machina, digamos: Paguem-se, como num passe de mágica, todas as dívidas do mundo, e proíba-se, por lei, empréstimos a juros – e todos os banqueiros do mundo desapareceriam da face da terra. Não deixariam de ser o que são, deixariam de ser, simplesmente. Seria um dia glorioso. Mas, acordando do sonho: um banqueiro pode até preferir um ministro da economia como Fernando Haddad, e um presidente do BC como Galípolo; mas, se por um acaso dos acasos, no primeiro aparecer um Paulo Guedes, e no segundo, um Roberto Campos Neto, ele não fará muito caso disso. Lamentará um ou outro desmonte de política social, um ou outro desmonte institucional; mas tudo bem, o dinheiro para pagar e financiar tudo isso seguirá circulando em suas veias, e ele estará no melhor dos mundos possíveis: no comando de um banco privado. Um banqueiro pode ser um humanista, um progressista; mas o capitalismo, de que ele é a epítome, jamais poderá ser nem humanista, nem progressista. Creio que foi o Wilson Ferreira, do Cinegnose, que deu trela a essas balelas sobre o cineasta Walter Salles; mas ele não tem culpa de ter nascido herdeiro bilionário, assim como eu não tenho culpa de ter nascido um fudido assalariado. Ele faz seus filmes, eu escrevo e tento publicar meus livros. E ninguém é melhor que ninguém, embora uns estejam melhores do que outros. Como diria o anônimo vietnamita, ao ver um cinegrafista filmando o lugar onde sua casa estava antes do bombardeio americano: ‘primeiro jogam bombas, depois vem filmar’. As bombas não são, a rigor, necessárias; os filmes são. E os livros também. Todas existem, e seguirão existindo. E vida que segue.

  6. Anderson Pereira

    9 de janeiro de 2025 7:15 pm

    Faltou explicar como a família conseguia exclusividade na exploração do Nióbio com parceria de Andréa Neves (irmã gangster de Aécio).

    1. Cidadão sem cidadania

      9 de janeiro de 2025 9:15 pm

      mas tenho certeza que o nassif esqueceu, afinal a maior renda, lucro que essa família tem é justamente com o niobio administrado pelo CBMM, agora imagina só essa família poder fazer isso, e ganharam na ditadura militar, tenho certeza que tem uma boa explicação para os ditadores da época doar essa riqueza.

  7. +almeida

    9 de janeiro de 2025 11:54 pm

    Imagino sendo a turma do clarinho branco, que representa a suposta paz e se veste do terno e sombrio contraste da escuridão. O cenário oculta o horror e o aprisionamento, que cela a ocultação fúnebre.

  8. Eduardo Jardim Freire

    10 de janeiro de 2025 1:06 pm

    Há tempos acompanho a carreira do Nassif, que reputo como ótimo repórter ( além de músico de muito bom gosto).Por isso, tenho interesse.

  9. rapaz latino americano

    2 de março de 2025 10:08 pm

    qualquer família poderosa numa situação como a ditadura faria jogo duplo, pois eles entendiam desde o início que um sistema político não iria se manter intacto. se a república velha caiu, getulio caiu, etc não seria o caso dos milicos também caírem eventualmente.
    nenhum bilionário aposto apenas em um cavalo.

  10. Ibsen Marques

    3 de março de 2025 1:58 am

    Nassif, o parlamentarismo foi implantado por um golpe numa tentativa de se impor um golpe maior.
    Se o Jango houvesse resistido Brizola teria subido com as forças armadas para lutar.

  11. Ibsen Marques

    3 de março de 2025 1:59 am

    Nassif, o parlamentarismo foi implantado por um golpe numa tentativa de se evitar um golpe maior. Se o Jango houvesse resistido Brizola teria subido com as forças armadas para lutar.

  12. PLINIO MELO

    3 de março de 2025 1:35 pm

    Dizer que apoiou Getúlio, Jango e JK só mostra a verdade que banqueiros apoiam que está no governo e asseguram lucros. Não é ideologia. É Capitalismo.

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