O ambiente novaiorquino de Walther Moreira Salles

Por Paulo Gasparotto

# Um dos personagens do mundo financeiro, assim como da diplomacia e da sociedade brasileira no século XX, foi o embaixador Walther Moreira Salles, cuja trajetória é relatada no livro de memórias lançado recentemente pelo jornalista Luis Nassif. Resulta de uma prolongada pesquisa e diversas entrevistas com o biografado, familiares e outras pessoas que fizeram parte das diversas etapas da sua existência.

# Participei de sua convivência devido à ligação que tinha com sua terceira esposa, Lúcia Curia Moreira Salles, minha amiga do período da juventude. Tive oportunidade de acompanhar vários momentos da vida do casal, tanto no Brasil como no exterior, e considero das mais gratificantes passagens da minha vivência.

# Luis Nassif recordou episódios marcantes, como o relacionamento do embaixador Moreira Salles com o presidente Getúlio Vargas, entre muitos personagens da política nacional e de outros países, e fatos incomuns que assinalaram sua existência.

# Sempre discreto a respeito de sua vida particular, o embaixador Moreira Salles recordava a beleza do sorriso de Greta Garbo, com quem teve uma relação. A grande musa do cinema, ao sorrir, costumava inclinar levemente a cabeça para trás, deixando ver sua dentadura imaculadamente branca, detalhe que ele ressaltava nas conversas que tivemos.

# Sou grande admirador do historiador inglês Arnold Toynbee, e sobre ele ouvi um relato que Nassif igualmente registra nas memórias. Depois de um encontro com Toynbee, com quem combinara uma vista ao Rio de Janeiro, o historiador o conduziu até a saída, passando pela sala em que trabalhava Albert Einstein. Proporcionou a apresentação ao mestre da relatividade, físico teórico alemão. Ao saírem, o embaixador Moreira Salles comentou a jovialidade do estudioso e seu olhar risonho, ao que Toynbee respondeu prontamente comentando seu cotidiano leve, “apenas dedicado aos cálculos”.

# Uma das datas inesquecíveis é o dia 28 de maio, dia do aniversário do embaixador Moreira Salles, normalmente comemorado em Paris. Numa das ocasiões, na década de 1990, juntamente com Lúcia, reuniu alguns convidados no Restaurante Taillevent, um dos seus preferidos entre os mais qualificados. Luciana Fleck da Rosa, que também estava de aniversário, e o marido, Elias da Rosa, entre outros, participavam da mesa. O maître e o sommellier atentos ao cliente, depois da escolha do vinho, se propuseram a trazer taças de formato mais requintado, evidentemente desejando destacar a importância do personagem e da escolha do vinho. Agradecendo, com a costumeira gentileza, nosso host declinou a deferência preferindo taças simples.

# Outro local de seu agrado, nas temporadas parisienses, era o Restaurant Le Voltaire, no Quai Voltaire. Costumava acompanhá-lo para os almoços mais rápidos, sempre boas oportunidades de ouvi-lo sobre o cotidiano de Paris, que seguia atentamente. Na primeira vez em que fomos almoçar, ele comentou, com um sorriso alegre: “Aqui eu sou o pai do Waltinho”. Deliciava-se com o êxito do filho, o cineasta Walther Salles, cuja carreira despontava firme na Europa.

# Sua longa vivência de trabalho bem sucedido nos Estados Unidos determinou Nova York para ter uma de suas residências – um elegante apartamento no River House, um prédio art deco na 52nd Street, junto East River. O político Henry Kissinger e Kermit Roosevelt, o filho do presidente Theodor Roosevelt, residiam lá. Entre os rejeitados pelo conselho de administração (board), a milionária Gloria Vanderbilt, de conta bancária irrepreensível, mas de atitudes e preferências nem tanto, que levou boa preta em 1980.

# O River Club, com sede em cinco níveis na base da River House, além de instalações recreativas mais convencionais, certa vez ostentou uma enorme marina para iates de membros. É um dos clubes residenciais mais exclusivos dos Estados Unidos, podendo ser considerado entre os mais qualificados do mundo. Na River House, foi o único brasileiro aceito, e no River Club somente um outro brasileiro foi admitido, o célebre oncologista cearense Fernando Campello Gentil, que revolucionou o tratamento do câncer de mama.

# A obra de Nassif permite às novas gerações conhecer parte da história recente da diplomacia, da política e do mundo financeiro do Brasil através desta personagem de características únicas e encantadoras.

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