4 de junho de 2026

O Papa Leão 14 e o legado de Leão 13: uma doutrina social da Igreja, por Luís Nassif

É altamente significativa a escolha do nome de Papa Leão XIV, pelo novo papa, um norte-americano de alma latino-americana.
via Vatican Media

Já dizia o maestro-filósofo Joachim Koellreutter que o mundo dá voltas e termina sempre no mesmo lugar, alguns degraus acima. Procurei explorar essa visão no meu livro “Os Cabeças de Planilha”, comparando a ultra financeirização da economia mundial (e do Brasil) em fins do século X e do século XX. E os movimentos especulativos dali decorrentes.

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Esse modelo produziu bolhas especulativas, concentração de renda e reação política aproveitada pela ultradireita, tanto lá – com o crescimento do fascismo – como cá, com o avanço da ultradireita fascista.

Por isso é altamente significativa a escolha do nome de Papa Leão XIV, pelo novo papa, cardeal Robert Francis Prevost, um norte-americano de alma latino-americana.

Em 1891, Leão 13 publicou a encíclica Rerum Novarum, em pleno apogeu da internacionalização do capital, promovida a partir do Banco da Inglaterra.

O que diz ela:

Sobre a pobreza e as condições dos trabalhadores:

  1. Pobreza e Desigualdade:
    • “O trabalho humano, que é a verdadeira fonte da riqueza, foi deixado de lado. Como resultado, a miséria, o sofrimento e a exploração do homem se intensificaram entre os trabalhadores.” (Rerum Novarum, §3)
  2. A Exploração do Trabalho:
    • “O homem, devido à sua dignidade, não deve ser tratado como uma mera mercadoria, sujeita à exploração. Não se deve negar o direito dos trabalhadores a uma remuneração justa que permita uma vida digna.” (Rerum Novarum, §8)

Sobre o Capitalismo e suas Injustiças:

  1. Crítica ao Capitalismo Liberal:
    • “O sistema econômico que se baseia puramente na liberdade de mercado, sem qualquer controle, leva à concentração de riqueza nas mãos de poucos e à miséria das grandes massas de trabalhadores.” (Rerum Novarum, §9)
  2. A Regulação do Mercado e o Papel do Estado:
    • “É dever do Estado intervir na economia para assegurar a justiça social e garantir que os direitos dos trabalhadores sejam respeitados.” (Rerum Novarum, §14)

Há também uma crítica ao comunismo, cujos princípios começavam a se espalhar pela Europa:

  • “O comunismo, que a tudo quer reduzir à igualdade e em que ninguém se preocupa com os bens privados, é uma violência contra a ordem natural, uma revolução de todos os direitos.” (Rerum Novarum, §15)
  • “O comunismo quer eliminar a distinção entre classes, mas, para conseguir isso, acaba destruindo a liberdade e a propriedade individual, e acaba com a ordem social justa.” (Rerum Novarum, §15)

Tanto lá como cá, o que se propõe é uma terceira via, uma ordem social justa, baseada nos princípios humanistas da Igreja Católica.

  • “A ordem social deve ser baseada na justiça, garantindo os direitos dos trabalhadores, sem recorrer a métodos revolucionários como o comunismo.” (Rerum Novarum, §33).

De lá para cá, houve algumas mudanças significativas. O comunismo perdeu expressão. E a Igreja católica também. Mas a bandeira da justiça social e da solidariedade humana permanece um grande fator para a mobilização dos homens e mulheres de boa vontade.

E o fato do novo papa ser um norte-americano crítico de Donald Trump abre a possibilidade da Igreja Católica se tornar protagonista relevante contra o avanço do obscurantismo no mundo.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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5 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    9 de maio de 2025 9:12 am

    Papa Leão XIV pede que a Igreja seja um ‘farol que ilumina as noites do mundo’ em homilia de 1ª missa

    Luz, mais luz, (Licht, mehr Licht!), disse Goethe na hora da sua última partida.

    Então que a Igreja seja não só o farol que ilumina as noites do mundo mas também o Sol, que ilumina os dias, e continua a amadurecer um cacho de uvas como se nada mais tivesse a fazer no universo.

  2. Edivaldo Dias de Oliveira

    9 de maio de 2025 9:36 am

    Não fosse pela crítica ao comunismo, poderia servir bem como um segundo manifesto para os mesmos. Essa encíclica deve ter inspirado a DC e a SD.

  3. Antonio Uchoa Neto

    9 de maio de 2025 10:16 am

    Um ponto a destacar é que Leão XIII, de fato, teve o mérito de ‘admitir’ que os pobres (leia-se, trabalhadores) existem e tem direitos, nem que sejam os básicos para todos os seres humanos, a saber, ter a possibilidade de viver dignamente, sem estar submetido à exploração de qualquer natureza; de resto, já nas primeiras páginas da Rerum Novarum se sente a decepção de ver atribuída, às razões e motivações do comunismo, o ódio aos ricos (que o são porque exploram os pobres), e à burguesia (parasitária por vocação e conveniência). Nenhuma menção ao estofo teórico, histórico, e filosófico da obra de Marx – tudo é fruto de ódio puro. Não há motivo para espantar-se com isso; Bertrand Russell (aquele mesmo que foi se sentar numa linha de trem, aos noventa e poucos anos, em protesto contra uma das grandes tragédias capitalistas do século, a guerra do Vietnam) pensava da mesma forma. Leão XIII – assim como João XXIII – tentou colocar ao menos um pé na realidade do mundo, e dar à Igreja um papel secular. Seus sucessores se encarregaram de trazer esse pé de volta à Idade Média. A ver.
    De resto, Nassif, o comunismo perdeu expressão política, mas não sua relevância filosófica e humanista. Sem entrar em considerações de questionar se o que houve, sob a denominação ‘comunismo’, nesse mundo, o foi, de fato.

  4. José de Almeida Bispo

    9 de maio de 2025 12:42 pm

    Quanto ao avanço do obscurantismo… Deus te ouça; mas acho que o máximo que se pode é mitigar os estragos.
    A humanidade parece ter momentos de entrega à irracionalidade total. É o que aparenta no momento.
    Porém, que uma segunda contrarreforma está vindo aí, não tenho dúvidas.
    Nada mais simbólico: um romano de Cartago enterrou os argumentos ideológicos de Roma. 1600 anos depois, um dito seu seguidor, neocartaginês (latinizado) pode vir a ser o prego no caixão da loucura e selvageria do neoliberalismo e seu império dois ponto zero: a nova Roma.

  5. Rui Ribeiro

    9 de maio de 2025 1:42 pm

    “Deus ama a todos, e o mal não prevalecerá”, disse o Papa. Vê-se que o novo Papa tá aquém, não além do mal e do bem. Assim falava Zaratrusta, quando wu era pikininin lá em Barbacena, digo, Barcelona

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