O desejo autoritário: quando a falta encontra o gozo do comando
por Eliseu Raphael Venturi
Não há desejo puro — e talvez por isso o desejo autoritário nos intrigue tanto. À primeira vista, parece apenas um desvio moral, uma inclinação perversa por ordem, controle ou subjugação. Mas, se escutado, o desejo autoritário revela-se como uma resposta estruturada à angústia da falta, um modo específico de lidar com o insuportável do desejo e com o abismo que o Outro representa.
Lacan jamais nos ofereceu uma definição fechada de desejo, porque o desejo, em sua formulação, é sempre desejo do Outro — isto é, ele emerge da relação entre sujeito e linguagem, entre o que se diz e o que falta. Desejar é sempre desejar de um lugar fendido, dividido, inconcluso.
É por isso que o desejo autoritário, apesar de contraditório em termos — já que o autoritarismo visa o fechamento, enquanto o desejo é abertura —, faz pleno sentido como estrutura defensiva diante da experiência radical da incompletude.

O que se chama de desejo autoritário não é desejo pelo autoritarismo em si, mas um desejo que se estrutura em torno da recusa da falta. É o desejo de que o Outro saiba. De que diga o que é certo. De que ofereça um destino, uma forma, uma obediência confortável.
Desejar autoritariamente é desejar que o desejo seja anulado — ou ao menos, disciplinado. Trata-se, no fundo, de um desejo de não desejar.
Esse desejo se agarra ao discurso do mestre — Lacan o desenha com precisão no Seminário 17 — onde o sujeito se constitui na posição de comando, mas sustentando uma ignorância operante sobre o próprio gozo. O mestre fala como se soubesse, mas o que oculta é o sujeito dividido por trás da máscara do saber. A autoridade torna-se, então, um teatro: ela encena a consistência que o sujeito perdeu.
O autoritário é aquele que transforma sua angústia em ordem, que encena certeza onde habita falha, e que goza — sobretudo — em nome do Outro.

Mas o desejo autoritário não vive só do comando. Ele também habita a obediência. Há desejo em submeter-se, em servir, em abdicar da própria responsabilidade. Desejo de ser governado, de não escolher, de entregar ao Outro o peso da falta.
É justamente nesse ponto que se opera a rasura do conforto das oposições fáceis: o autoritário não é apenas quem manda — é também quem se entrega ao gozo de ser mandado, contanto que alguém diga o que fazer.
Diante disso, resistir ao desejo autoritário não é apenas um gesto político — é uma travessia ética. É suportar o desejo como falta, aceitar que não há Outro que nos garanta o sentido, que não há Nome-do-Pai que nos salve do Real. É a aposta, dolorosa e necessária, na incompletude como condição de liberdade. Não se trata de matar o mestre, mas de deixar de desejá-lo como senhor absoluto do sentido.
Talvez seja isso que o discurso do analista nos ensine: não nos oferece um novo mestre, nem um novo manual, mas nos devolve a pergunta. Um ato ético não se funda na certeza, mas no risco.
E, entre desejar um tirano, ou sustentar a falta, é esse risco — o da liberdade — que marca a verdadeira travessia.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direitos humanos e democracia e radicado em Curitiba/PR.
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