4 de junho de 2026

China e BRICS por uma humanidade renovada?, por Flaviano Cardoso

A questão central é: esses países estarão dispostos a romper com a lógica predatória e a inaugurar um caminho efetivamente humano?
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Qual o dever de casa da China e dos demais países do BRICS para construir uma humanidade renovada?

por Flaviano Correia Cardoso

Um novo tempo histórico

O mundo atravessa uma encruzilhada. A ordem neoliberal, que se impôs ao planeta após a Guerra Fria, mostra sinais evidentes de esgotamento. Guerras, desigualdade extrema e devastação ambiental revelam que não há futuro possível na manutenção desse modelo. É nesse contexto que o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — agora ampliado com países como Irã, Egito, Etiópia, entre outros) se apresenta como alternativa possível, mas também carregada de contradições.

A questão central é: esses países estarão dispostos a romper com a lógica predatória e a inaugurar um caminho efetivamente humano?

O papel central da China

A China ocupa lugar de destaque nessa arquitetura. Não se trata de um país imperialista nos moldes tradicionais do Ocidente. Sua estratégia tem privilegiado relações bilaterais de cooperação, investimento em infraestrutura e ampliação do comércio com base em vantagens mútuas.

Contudo, a nação precisa enfrentar uma contradição interna decisiva: a jornada extenuante de milhões de trabalhadores e trabalhadoras, muitas vezes em condições desumanas. Se a China deseja liderar uma nova etapa civilizatória, deve assumir a dianteira na valorização dos direitos sociais, estabelecendo padrões dignos de jornada, renda e proteção social. Esse é o sinal mais forte que poderia oferecer ao mundo.

Ao mesmo tempo, sua recente aproximação militar com a Rússia — evidenciada pela cúpula bélica de agosto de 2025, com a presença de Putin e Kim Jong-un em solo chinês — lança um alerta ao mundo: o BRICS não pode reproduzir lógicas de intimidação militar para exercer influência geopolítica. A paz deve ser o centro de sua nova arquitetura.

Brasil: da resistência ao protagonismo

O Brasil emerge com uma força renovada. Após sobreviver ao lawfare e ao assalto das elites financeiras ao Estado, o país voltou a retirar sua população do mapa da fome e retomou políticas sociais consistentes. Sob a liderança de Lula, mostrou firmeza na arena internacional, rompendo relações com Israel após os massacres em Gaza e defendendo a autodeterminação dos povos — atitude que custou ataques internacionais, mas consolidou o país como referência moral.

Agora, se deseja consolidar esse protagonismo, o Brasil precisa enviar ao mundo um sinal inequívoco de compromisso com a dignidade dos trabalhadores. Isso passa pela implementação imediata da nova NR-1 (maio/2025), com um prazo curto para que todas as empresas públicas — e, logo em seguida, as privadas — se adequem ao modelo de proteção da saúde mental.

A norma já em vigor estabelece o direito de recusa fundamentada: o trabalhador, diante de risco psicossocial ou adoecimento psiquiátrico, pode comunicar ao gestor — com histórico clínico e atestados — sua impossibilidade de comparecimento, sem sofrer punição ou perda salarial. Os beneficiários diretos incluem milhares de trabalhadores psiquiatricamente adoecidos que, hoje, enfrentam o medo da perda do emprego ou renda ao buscar ajuda.

Em 2024, foram 472 mil afastamentos motivados por transtornos mentais, um número sem precedentes no sistema previdenciário brasileiro (dados do SmartLab/INSS).

A categoria bancária é um caso emblemático: representando apenas 1% dos empregos formais, concentrou 25% dos afastamentos acidentários e 4,3% dos previdenciários por doenças mentais. A taxa de afastamento acidentário nos bancos comerciais chegou a 37,3 por mil vínculos — contra 2,0 por mil na média da economia.

Essa medida não é apenas um ato administrativo: é um gesto civilizatório. Representa a garantia de que o Brasil se posiciona como vanguarda mundial no reconhecimento do direito humano de não adoecer no trabalho. Cabe ao Brasil transformar sua experiência em referência para o bloco, colocando a democracia social e a proteção da saúde mental no centro do processo de integração.

Rússia e Índia: a questão da democracia

A Rússia, marcada pela herança soviética e por uma geopolítica belicosa nos últimos anos, enfrenta o dilema de não repetir o modelo de imperialismo que critica no Ocidente. A continuidade da guerra na Ucrânia, o fortalecimento da retórica armamentista e a repressão à dissidência interna fragilizam sua legitimidade como parceiro de uma nova ordem emancipatória.

A Índia, por sua vez, vive o paradoxo entre o crescimento tecnológico acelerado e a permanência de desigualdades brutais — de gênero, de casta, de classe. O avanço do autoritarismo sob o governo Modi é um alerta à comunidade internacional.

Ambas as nações só terão legitimidade no novo arranjo global se demonstrarem compromisso real com os direitos humanos universais, liberdade política e justiça social.

África do Sul e o continente africano

A África do Sul simboliza a esperança de um continente que, historicamente explorado, reivindica agora um espaço próprio de soberania e voz ativa. Seu desafio é imenso: reduzir desigualdades internas, combater o racismo estrutural e converter sua liderança regional em instrumento de fortalecimento do conjunto da África.

O BRICS precisa aprender a escutar — verdadeiramente — as vozes africanas. Essas vozes carregam a memória mais dolorosa da exploração colonial e o anseio mais profundo por justiça. A África não pode ser apenas participante: deve ser cofundadora de um novo tempo.

Um programa mínimo de humanidade

Se o BRICS deseja se tornar alternativa real à ordem neoliberal, deve assumir com urgência um programa mínimo de humanidade: a) Garantia de direitos trabalhistas universais, com limite de jornada e renda justa; b) Estabelecimento de protocolos ambientais vinculantes, rompendo com o extrativismo predatório; c) Criação de fundos solidários entre os países, para combater a fome e garantir acesso universal à saúde; d) Promoção de mecanismos de integração cultural, científica e educacional, que fortaleçam a cooperação, não a competição.

 Não se trata de proclamar discursos vazios, mas de materializar políticas imediatas que sinalizem ao mundo uma ruptura concreta com o modelo que nos trouxe até aqui.

O futuro em nossas mãos

O BRICS não é, por si só, garantia de emancipação. Pode tornar-se apenas mais um bloco de poder, caso não enfrente suas próprias contradições. Mas, se assumir a tarefa de colocar a dignidade humana no centro do desenvolvimento, poderá inaugurar um novo tempo histórico.

O dever de casa é imenso — mas inadiável: construir uma humanidade renovada, soberana e justa, capaz de responder aos clamores do nosso tempo.

Flaviano Correia Cardoso é advogado, ativista político, pesquisador em saúde do trabalho e membro da CIPA na Caixa Econômica Federal (CE). Escreve sobre geopolítica, direitos humanos e as transformações no mundo do trabalho.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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