13 de junho de 2026

A estatística, a Selic e a Inteligência Artificial, por Luís Nassif

O uso mecânico das estatísticas na economia traz os mesmos riscos que a aceitação automática dos resultados da Inteligência Artificial
Reprodução - Pexels

Quando começou a popularização das planilhas eletrônicas, o grande Dionisio Carneiro reclamou da facilidade com que jovens economistas relacionavam séries sem nenhuma relação, tirando conclusões esdrúxulas.

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De lá para cá, a estatística tornou-se peça essencial do mainstream econômico. 

É evidente que medir e avaliar são componentes essenciais da economia.  Mas o uso mecânico das estatísticas na economia traz os mesmos riscos que a aceitação automática dos resultados da Inteligência Artificial, especialmente quando ela é usada como uma “caixa-preta” para tomar decisões complexas. 

Em geral, o economista, assim como outras ciências sociais que se valem da estatística, consideram o futuro como uma projeção do passado e do presente. Traça-se uma linha histórica até o presente, e utiliza-se a estatística para projetar o futuro.

Tem situações em que cabe a projeção e outras em que não cabe. O problema é que a estatística tornou-se a panaceia, a pedra de Roseta da economia, aplicável em qualquer situação.

Momentos de crises são aqueles que mais dependem de diagnósticos corretos. É quando ocorrem rupturas, fins de ciclo e a caminhada torna-se mais tortuosa. A nova realidade não expressa mais a anterior. E as estatísticas de pouco servem, se não forem a serviço de uma visão holística da situação.

A IA pode repetir — ou até amplificar — os mesmos erros cometidos por economistas que se apoiam exclusivamente em modelos estatísticos.

1. Dependência de dados passados

Assim como os modelos econômicos projetam o futuro com base no passado, modelos de IA são treinados com dados históricos. Isso significa que:

  • Mudanças de ciclo ou rupturas estruturais (como crises, pandemias, guerras) não são bem captadas.
  • A IA pode reforçar padrões que já não fazem mais sentido no novo contexto.

Exemplo: Um modelo de IA treinado com dados de inflação e juros de 2000 a 2020 pode falhar completamente em prever os efeitos de uma pandemia ou de uma guerra comercial.

2. Falsa sensação de precisão

IA, como a estatística, pode gerar números com muitos dígitos depois da vírgula, o que transmite uma ilusão de exatidão. Mas:

  • A precisão numérica não significa precisão analítica.
  • Pequenas variações nos dados de entrada podem gerar grandes distorções nos resultados.

3. Modelos sem contexto

IA pode identificar correlações, mas não entende causalidade nem contexto histórico, político ou social.

  • Isso é especialmente perigoso em economia, onde decisões políticas, expectativas e confiança têm papel central.
  • Um modelo pode sugerir uma política de juros com base em padrões passados, ignorando que o contexto atual exige outra abordagem.

4. Reforço de vieses

Se os dados históricos contêm viés de classe, região, setor ou ideologia, a IA tende a reproduzir e amplificar esses vieses.

  • Isso pode levar a diagnósticos distorcidos e políticas públicas ineficazes ou injustas.

5. Automatização da especulação

Economistas de mercado usam estatísticas para antecipar movimentos especulativos, não para identificar problemas concretos da economia. A IA pode ser usada para:

  • Operações de alta frequência que exploram micro variações de mercado.
  • Modelos de trading automatizado que não têm compromisso com a economia real, apenas com arbitragem.

É só analisar dois dos maiores desastres econômicos do país: a manutenção da política de câmbio e juros no Plano Real, e o pacote Joaquim Levy.

No Plano Real, o fim da inflação trouxe à tona um potente mercado de consumo, devolvendo poder aquisitivo aos brasileiros. Havia uma questão temporal – o início do processo de importações, para garantir o abastecimento interno. Precisaria de um tempo até que os grandes atacadistas identificassem os mercados mais necessitados e os fornecedores externos. Ao mesmo tempo, havia escassez de divisas. 

Para manter o dólar sob controle, os economistas decidiram aumentar substancialmente as taxas de juros e apreciar o câmbio na mesma proporção. Deram uma pancada monstro na economia e não sabiam a hora de parar, justamente porque se fixaram apenas nos indicadores macroeconômicos e não na realidade da economia.

Ora, o que dizia a realidade? Nos meses que se seguiram ao Real, o comércio levantou crédito para aumentar os estoques e as famílias se endividaram. O choque de juros e câmbio não permitiu que eles voltassem gradativamente ao quadro anterior, reduzindo estoques e endividamento. Foram todos apanhados no contrapé.

Houve uma quebra geral, a qual a equipe econômica só deu-se conta em junho, quando a quebradeira já era generalizada.

Nos anos 90, os únicos setores que cresceram foram os frigoríficos e o jogo do bicho (que não dependiam do choque tributário).

O mesmo ocorreu com o plano Joaquim Levy.

Em 2014 a economia já dava sinais de arrefecimento, com o fim do ciclo das commodities. Mas trazia todas as gorduras do período anterior, com as empresas com estoques, endividamento para financiar a expansão, e pessoas físicas endividadas.

O caminho natural seria permitir uma fase de transição, com facilidades para negociar e/ou quitar os passivos para voltar à situação anterior. Em vez disso, houve choque de preços de toda ordem – tarifas, câmbio, combustíveis – e, simultaneamente, um trancamento total do crédito. 

Hoje em dia, todo o mercado trabalha em cima de um mesmo modelo de planilha, com projeções sobre a inflação futura. Os modelos simulam o comportamento da economia usando variáveis como Produto Interno Bruto, Taxa de Juros, Inflação e Câmbio, especialmente a Curva de Phillips, que analisa a relação entre inflação e desemprego, ajudando supostamente a identificar pressões inflacionárias por aumento da demanda.

Nenhum economista sério do mercado aposta que a taxa de juros afeta a demanda. Todo o efeito dela é através do câmbio. Aumentam os juros, aumenta o fluxo de dólares e, com mais dólares entrando há uma valorização do real reduzindo os preços dos produtos comercializáveis com contra-indicações sobre toda a economia.

Mas os cabeças de planilha movem-se todos em torno da suposta relação juros-demanda. As estatísticas, com seus modelos estocásticos, com sua análise da curva de Phillips, servem apenas como elementos indutor de movimentos do mercado.

Se a projeção de inflação aumenta x, a curva de juros aumenta y e as apostas em torno da Selic ficam em z.

A ciência do economista de mercado é isso, apenas aprender a antecipar os movimentos reflexos do mercado. Não é entender os elementos que provocam inflação. É apenas estimar, com dois dígitos depois da vírgula, quanto um aumento de 0,1 na projeção de inflação impacta o mercado a termo de taxas de juros. Tornam-se especialistas nos movimentos condicionados de mercado.

Ou seja, as estatísticas, como são utilizadas pelo mercado, servem apenas como cão guia para os movimentos especulativos,  e não como elemento para diagnósticos da economia.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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4 Comentários
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  1. emerson57

    15 de setembro de 2025 10:56 am

    O que dizer se as sedes de I.A. estão no estrangeiro, e pertencem aos homens mais ricos do mundo?
    Apenas uma pequena mudança no algorítimo, ordenada por eles, resulta em bilhõe$ de dinheiros em lucros para si e em perdas para os outros.
    Temos algo a aprender com a China.
    Facilitar a vida do povo trabalhador e erradicar a pobreza resulta em crescimento econômico.
    Por outro lado, vender o patrimônio pátrio só serve para tornar alguns mais ricos e a grande maioria mais pobre.
    I.A. redes, aplicativos, satélites e soberania é o caminho.

    1. Milton

      15 de setembro de 2025 5:31 pm

      Falou pouco e disse muito. A lastimar a surdez da platéia.

  2. Rui Ribeiro

    16 de setembro de 2025 9:21 am

    O que diria Marx?

    “No domínio da economia política, a livre investigação científica não só se defronta com o mesmo inimigo presente em todos os outros domínios, mas também a natureza peculiar do material com que ela lida convoca ao campo de batalha as paixões mais violentas, mesquinhas e execráveis do coração humano, as fúrias do interesse privado. A Alta Igreja da Inglaterra, por exemplo, perdoaria antes o ataque a 38 de seus 39 artigos de fé do que a 1/39 de suas rendas em dinheiro. Atualmente, o próprio ateísmo é uma culpa levis [pecado venial] se comparado com a crítica às relações tradicionais de propriedade. Nesse aspecto, contudo, não se pode deixar de reconhecer certo avanço. Remeto, por exemplo, ao Livro Azul publicado há poucas semanas: “Correspondence with her Majesty’s Missions Abroad, Regarding Industrial Questions and Trade Unions”. Os representantes da Coroa inglesa no exterior afirmam aqui, sem rodeios, que na Alemanha, na França, numa palavra, em todos os países civilizados do continente europeu, a transformação das relações vigentes entre o capital e o trabalho é tão perceptível e inevitável quanto na Inglaterra. Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, o sr. Wade, vice-presidente dos Estados Unidos da América do Norte, declarava em reuniões públicas: depois da abolição da escravidão, passa à ordem do dia a transformação das relações entre o capital e a propriedade da terra! São sinais dos tempos, que não se deixam encobrir por mantos de púrpura nem por sotainas negras. Eles não significam que amanhã hão de ocorrer milagres, mas revelam que nas próprias classes dominantes já aponta o pressentimento de que a sociedade atual não é um cristal inalterável, mas um organismo capaz de transformação e em constante processo de mudança”.

  3. Clever Mendes de Oliveira

    18 de setembro de 2025 6:04 pm

    Luis Nassif,
    Você diz:
    “Nenhum economista sério do mercado aposta que a taxa de juros afeta a demanda. Todo o efeito dela é através do câmbio. Aumentam os juros, aumenta o fluxo de dólares e, com mais dólares entrando há uma valorização do real reduzindo os preços dos produtos comercializáveis com contra-indicações sobre toda a economia.”
    De certo modo afeta a demanda ainda que seja ínfimo o tanto da afetação, e também afeta a oferta com a desova de estoque. Antigamente havia situação de fazendeiro ficar com uma boiada de 18-20 arrobas e conseguir um ano depois vender com 22 a 28 arrobas. Isso na época da inflação de inflação alta que era alta porque em um dado mês o juro era menor do que a inflação medida no mês de ponta a ponta.
    Com a inflação sob controle em que o juro é até mais de dez pontos percentuais acima da inflação, antes que o boi atinja 16 arrobas o fazendeiro já quer levar o boi para o frigorífico.
    A carne tem bom peso na inflação e portanto ela afeta bastante os preços.
    No ano da introdução o tarifaço de Trump, isto é, 2025, os preços vão aumentar nos Estados Unidos e os preços vão cair no Brasil e Lula terá que agradecer a Trump.
    Tivesse eu recursos, eu ia aplicar todo que eu conseguisse juntar todo mês enquanto o Tesouro Direto estiver assegurando à um título por dez anos um rendimento de 13% ao ano. Aliás continuaria comprando até chegar a 10%. Há muitos em melhores condições que eu que devem estar postergando compra para aproveitar esses juros.
    Enfim, mas desconsiderando esses efeitos do juro alto tanto na demanda como na oferta, e no fluxo do dinheiro, o efeito do dólar valorizado na redução da inflação tem realmente muito importância.
    O Brasil deve evitar que a valorização do dólar afete a balança comercial. Sem saldo na Balança Comercial expressivo, o Brasil vai viver de pires na mão diante do investidor estrangeiro, ou do capitalista sem pátria brasileiro pronto para mandar seu dinheiro para porto seguro.
    Então mesmo na sua visão que e um pouco equivocada em relação à taxa de juro não fazer efeito na demanda (e embora não dita pressupõe que não faria efeito na oferta) que alternativa você considera mais viável para combater a alta dos preços.
    Não gostaria que a resposta fosse mais inflação porque esta é a medida econômica que eu defendo há mais de 40 anos. Só que ela é boa para o pais, pois reduz a dívida pública, mas é danosa para o político.
    Ela só é viável se o madato presidencial fosse de 6 anos sem direito à releição. Com um mandato assim um presidente poderia governar pensando no pais e não na reeleição.
    Clever Mendes de Oliveira.
    BH, 18/09/2025

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