
América Latina entre Trump e Xi
por Maria Luiza Falcão Silva
O Som dos Canhões no Caribe
Os Estados Unidos (EUA) voltaram a exibir o seu “Big Stick”. O envio de oito navios de guerra, armados com mais de mil mísseis, além de um submarino nuclear para as águas próximas à Venezuela é uma mensagem clara: Washington quer lembrar quem manda no continente. Nicolás Maduro alertou que esta é “a maior ameaça que nosso continente já viu em cem anos”.
Mas não se trata apenas da Venezuela. Esta movimentação é um recado a toda a América Latina de que qualquer projeto de soberania que escape ao controle da Casa Branca será tratado como ameaça à segurança nacional dos EUA. É a velha Doutrina Monroe em versão século XXI, agora combinada com sanções econômicas e financeiras, lawfare e campanhas de desinformação.
Trump e a Ameaça à Soberania Brasileira
Donald Trump, de volta ao poder, intensificou sua ofensiva contra governos que considera “inconvenientes”. O Brasil está no radar. Depois da condenação de Jair Bolsonaro e de generais golpistas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Trump insinuou que usaria o exército americano para “proteger a liberdade de expressão” no Brasil — um absurdo sem precedentes. Interferir nas instituições de um país soberano não é defesa de democracia: é ameaça direta à sua Constituição. Washington sempre acusou outros de “ingerência externa”, mas agora pratica abertamente o que antes fazia nos bastidores.
Trump converteu o Departamento de Defesa em um “Departamento de Guerra” político-ideológico, ameaçando usar sanções, congelamento de ativos e suporte a grupos internos para pressionar países a se alinhar com seus interesses. É uma escalada perigosa para toda a região.
Milei: Laboratório de Submissão na Argentina
A Argentina sob Javier Milei virou vitrine desse projeto. O presidente ultraliberal não só dolarizou parte da economia e cortou programas sociais, como também alinhou sua política externa com Washington e Tel Aviv, retirando o país dos BRICS+ e rompendo com consensos regionais. Milei é um experimento de choque neoliberal em escala nacional: destruição de sindicatos, privatizações em ritmo acelerado e discurso agressivo contra vizinhos que defendem integração regional. O resultado imediato foi aprofundar a crise social e enfraquecer a posição da América do Sul como bloco.
A derrota recente de Javier Milei nas eleições da província de Buenos Aires – a mais populosa e estratégica do país – foi um recado claro de que o “experimento libertário” está em rota de colisão com a realidade social argentina.
A Alternativa Chinesa: Parceria e Respeito
Do outro lado do mundo, a China oferece um modelo oposto. A Iniciativa de Governança Global (GGI), lançada por Xi Jinping, propõe uma arquitetura de governança baseada em soberania, multipolaridade e cooperação ganha-ganha.
A apresentação da GGI não ocorreu em qualquer data. Xi Jinping falou em Tianjin em 01/09, durante a reunião da Organização de Cooperação de Xangai Plus. Estavam presentes na China 26 chefes de Estado para participar das comemorações dos 80 anos da vitória sobre o fascismo em 1945. O simbolismo é poderoso. Ao mesmo tempo em que se rememora a derrota das trevas do século XX, a China propõe um novo horizonte para o século XXI. É como se Pequim dissesse: a luta pela liberdade e pela paz continua, agora em um terreno mais complexo, marcado por guerras comerciais e pela ameaça climática.
A presença chinesa na América Latina não se traduz em porta-aviões, mas em portos, ferrovias e parques solares. A Iniciativa do Cinturão e Rota (Nova Rota da Seda) já financiou dezenas de projetos de infraestrutura, e Pequim oferece transferência de tecnologia para a transição energética — algo que os EUA nunca se dispuseram a fazer.
De acordo com Ecns+1, em 2024, o comércio total entre China e América Latina atingiu um recorde de US$ 518,47 bilhões, um crescimento de cerca de 6% em relação ao ano anterior. Desse total, a China exportou para a região mais de US$ 260 bilhões e importou algo em torno de US$ 250 bilhões — os dados variam conforme o país/região e tipo de mercadoria. O investimento direto da China na América Latina em 2024 foi de cerca de US$ 14,71 bilhões.
No primeiro trimestre de 2025, o comércio bilateral (exportações + importações) entre China e América Latina (AL) foi de cerca de US$ 118,30 bilhões, sendo que a China exportou cerca de US$ 65,73 bilhões à região e importou algo como US$ 52,58 bilhões. Em 2024, as empresas latino-americanas estabeleceram cerca de 37.000 empresas na China.
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Hora de Escolher o Futuro
Não escolhemos o confronto com os EUA. Eles que nos escolheram. Os Estados Unidos são o maior parceiro comercial da AL. Essa situação em que estamos vivendo, com principal foco no Brasil, não nos interessa.
A América Latina está diante de uma encruzilhada histórica. Ou aceita o retorno à geopolítica das canhoneiras, com sanções, tarifaços, bloqueios e ingerências, ou constrói um caminho próprio de integração e desenvolvimento sustentável.
Não se trata de “trocar Washington por Pequim”, mas de afirmar autonomia. A região precisa de um novo pacto: um que combine reindustrialização verde, soberania energética e democracia substantiva – comprometida com valores éticos, morais e sociais; garantia de igualdade no acesso aos bens e necessidades básicas e participação cidadã efetiva. Pequim nos oferece oportunidades. Washington ameaças: sanções, tarifas comerciais abusivas, ataques à soberania do país.
O Papel do Brasil
Como anfitrião da COP-30 e voz ativa no G20, o presidente Lula pode usar 2025 para colocar na agenda global o multilateralismo, o direito ao desenvolvimento sustentável, o financiamento climático e uma reforma do Conselho de Segurança da ONU que dê voz ao Sul Global.
Mas para isso precisará enfrentar pressões externas e internas — da Faria Lima aos think tanks americanos — que tentam manter o país preso a modelos ultrapassados que privilegiam o mercado financeiro e reforçam o papel de exportador de commodities.
Armas ou Diálogo?
A escolha é clara: armas ou diálogo, coerção ou cooperação, sanções ou desenvolvimento. A GGI é uma oportunidade para a América Latina sair da periferia do sistema internacional e se tornar protagonista de um novo arranjo global. Recusar essa escolha é aceitar que navios de guerra continuem definindo o destino do continente.
A GGI de Xi Jinping deve ser lida como mais do que uma iniciativa chinesa: é parte de um processo de reinvenção da governança internacional. O dilema está posto: ou se constrói uma ordem mais justa, inclusiva e sustentável, ou seguiremos rumo à fragmentação permanente, com guerras comerciais, crises financeiras recorrentes e catástrofes ambientais.
A história ensina que sistemas ruem quando se tornam incapazes de absorver as transformações do tempo. O chamado de Xi é um alerta e uma oportunidade. Se nos juntarmos a Xi seremos protagonistas da reinvenção, se não seremos cúmplices silenciosos da decadência.
Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA.
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