10 de junho de 2026

Sol, a ministra, por Felipe Bueno

Foi anunciado à exaustão pela imprensa internacional que o governo da Albânia criou (nomeou?) um robô ou avatar para o ministério
Diella - ministra virtual da Albânia - Reprodução

Sol, a ministra

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por Felipe Bueno

Agora que o hype passou e junto com ele todos os comentários e memes se dissiparam, permita-me uma tentativa de reflexão despertada pela inusitada notícia da escolha de uma ministra virtual na Albânia – um país cuja História, em si, mereceria mais atenção da humanidade.

Para quem não acompanhou o noticiário, recentemente foi anunciado à exaustão pela imprensa internacional que o governo da Albânia criou (nomeou?) um robô, avatar ou a denominação que você achar melhor para fazer parte do ministério em exercício.

A funcionária pública virtual em questão chama-se Diella, que significa sol no idioma albanês, segundo divulgou seu “colega” e primeiro-ministro Edi Rama (este, de carne e osso).

Se a coisa funcionar, a principal tarefa de Diella será cuidar das licitações para compras com dinheiro público. Vale lembrar que o gabinete em exercício está no poder há mais de dez anos e reconhece que corrupção e desvios de verbas públicas fazem parte da realidade local há bastante tempo.

Longe de mim pretender debater a gestão federal da Albânia: não tenho capacidade para isso. Mas me ocorreu que a extravagante solução escolhida não deixa de ser um ponto de partida para pensar sobre a gestão de recursos públicos e, em última análise, a relação do Estado consigo mesmo e com seus cidadãos.

Existem naturalmente distintas visões sobre as tarefas do Estado: dependendo da doutrina ele será maior ou menor, mais ou menos intervencionista. Podemos fazer uma linha de idas e vindas desde Thomas Hobbes ou até antes; podemos fazer uma sequência interminável de debates entre pessoas de posições discordantes e legítimas; provavelmente não chegaremos a nenhum consenso. Mas me soa como inquestionável que um Estado, grande ou pequeno, deva funcionar da melhor maneira possível para que os recursos de seus cidadãos sejam bem aplicados.

Sim, as palavras melhor e bem trazem a armadilha da subjetividade. Para fugir desse risco, deixemos as duas de lado e recorramos ao termo eficiência.

E aí chegamos ao ponto que proponho para reflexão, ilustrando a discussão com a expressão batida que frequentemente usamos sem pensar: a máquina do Estado.

Citando novamente Hobbes, não o Estado como Leviatã, o terrível monstro, mas não tão longe: uma visão de um mecanismo frio, impessoal, absoluto e inquestionável, criado, desenvolvido e mantido para ser a última palavra em administração de políticas públicas.

Recorrendo agora à ficção, uma espécie de HAL-9000 de terno, gravata, mandato legitimado pelo povo e caneta na mão.

Em suas diversas manifestações, a arte tem nos avisado: cada passo cego em direção à perfeição pode ser um degrau a caminho da desumanização. Não é de hoje que na Albânia ou em qualquer outro lugar, a práxis da política tem de ser revista para o bem da própria democracia. Porém, transformar governantes em bots pode não ser o melhor caminho.

Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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1 Comentário
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  1. Carlos

    1 de outubro de 2025 3:47 am

    Po, o Brasil saiu na frente ao eleger presidente um robô idiota, Bolsonaro.

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