
O Brasil registra 113 casos de intoxicação por metanol após ingestão de bebida alcoólica, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde a partir de indicadores apresentados pelos estados.
Bahia, Paraná e Mato Grosso do Sul notificaram os primeiros casos em investigação. Em todo o país, são 11 casos confirmados e 102 em investigação.
Desse total, 101 casos foram registrados em São Paulo, sendo 11 confirmados e 90 em investigação; 6 casos em investigação em Pernambuco, 2 em investigação na Bahia e no Distrito Federal, e 1 caso está sendo investigado no Paraná e Mato Grosso do Sul.
Doze notificações são de óbitos: um caso confirmado no estado de São Paulo e 11 estão sendo investigados (8 em SP, 1 em PE, 1 na BA e 1 no MS).
As notificações foram informadas até às 16h desta sexta-feira para o Centro de Informações Estratégicas e Resposta em Vigilância em Saúde Nacional (CIEVS).
A partir de hoje, a pasta passa a atualizar, a partir de 17h, as notificações de intoxicação por metanol associada ao consumo de bebidas alcoólicas.
As atualizações são realizadas após o recebimento das notificações pelos Centros de Informações Estratégicas e Resposta em Vigilância em Saúde (CIEVS) estaduais e sua consolidação pelo CIEVS Nacional.
Mário Mendonça
4 de outubro de 2025 8:50 amSerá que estão investigando as MILICIAS, que vieram do RJ para SP?
Fernando
5 de outubro de 2025 12:01 amO BRINDE AMARGO DA CACHAÇA: A HISTÓRIA DO SICOBE E O SILÊNCIO QUE MATA
*Por João Guató
Naquele dezembro de 2016, Brasília tinha um ar rarefeito. Os corredores do Congresso, sempre barulhentos, cheiravam a conspiração. O impeachment de Dilma Rousseff ainda estava quente na memória, e o novo inquilino do Planalto, Michel Temer, ajeitava-se na cadeira como quem assume uma casa herdada: muda os móveis de lugar, troca as cortinas, abre as janelas para velhos amigos da vizinhança.
Era nesse ambiente — de tapetes pesados e cafés discretos — que se decidiu o destino de um sistema chamado Sicobe. Três sílabas que, para o grande público, não significavam nada. Mas para quem conhecia os bastidores, eram sinônimo de um cerco incômodo: um programa que vigiava cada garrafa e cada lata de bebida fabricada no Brasil, cruzando dados em tempo real com a Receita Federal.
Henrique Meirelles, de terno impecável, e Jorge Rachid, burocrata experiente, foram os homens que assinaram a sentença. À mesa, ao redor, não faltavam lobistas de sorriso largo. O discurso era simples: “cortar custos, modernizar processos”. No subtexto, outro recado: “deixar a porteira aberta”.
O Sicobe, nascido em 2008, era uma espécie de Big Brother da indústria de bebidas.
Registrava cada unidade produzida. Ligava o ato de fabricar ao ato de pagar imposto. Dizia à Receita: “aqui está a prova, não tem como esconder”.
Com ele, não havia espaço para jeitinho. Os dados chegavam frios, objetivos, matemáticos. Uma linha de produção que aumentava subitamente sem justificar insumo extra? Alerta. Uma fábrica que declarava menos do que produzia? Denúncia em tempo real.
Era, nas palavras de um auditor, “o pesadelo dos sonegadores”.
Mas os pesadelos de uns são os sonhos de outros.
Naquela Brasília de 2016, com Dilma fora de cena e Temer como maestro, o Sicobe passou a ser visto como um incômodo. Os defensores de sua extinção diziam que custava caro, que era ineficiente, que a tecnologia podia ser substituída.
E assim, de caneta em punho, Meirelles e Rachid assinaram o desligamento. O sistema foi extinto. Sem alarde, sem manchetes, sem protestos nas ruas.
O que se perdeu não foi apenas um software, mas uma muralha de proteção. Sem ele, multiplicaram-se fábricas clandestinas. Bebidas adulteradas começaram a circular em galpões malcheirosos, em barris improvisados. Entraram nos botecos da esquina, nas festas populares, nos mercados de bairro.
Quase uma década depois, o país começa a colher os frutos amargos dessa decisão.
Chegam às portas dos hospitais casos de envenenamento por álcool adulterado. Famílias relatam mortes súbitas após um gole de cachaça falsificada ou uma vodka barata comprada no mercado.
O que parecia, à época, uma disputa burocrática em Brasília, se revela agora como questão de vida ou morte.
Um médico de pronto-socorro, cansado de ver corpos jovens em macas frias, resumiu numa frase:
— Isso não é acidente. É política pública às avessas.
Não houve protestos contra o fim do Sicobe. Não houve CPI, não houve indignação coletiva. Foi um golpe silencioso, operado na sombra, protegido pelo barulho do impeachment e pela pressa de Michel Temer em ajeitar sua governabilidade.
Aos olhos da população, era apenas mais uma decisão técnica. Aos olhos da Receita, uma perda. Aos olhos da indústria clandestina, uma dádiva.
Hoje, quando uma família humilde enterra o pai que morreu depois de brindar no aniversário com uma garrafa envenenada, é possível puxar o fio até aquele dezembro abafado de 2016. E entender que não se tratou de destino, mas de escolha.
O jornalismo, às vezes, tem a ingrata missão de escavar no silêncio.
O Sicobe não é assunto de bar, não rende manchetes fáceis, não desperta paixões. Mas em sua ausência lateja a pergunta que ecoa como um brinde de vidro estilhaçado: Quantas vidas custa a vitória de um lobby?