Retrato de uma chacina. Somos todos cúmplices!
por Kakay
“ A Justiça é como uma serpente, só morde os pés descalços.”
Eduardo Galeano
Até a leitura dos números da chacina do Rio de Janeiro tem um viés ideológico ou revela uma visão humanista ou de barbárie por parte de quem faz os títulos e o conteúdo das matérias. Eu, por exemplo, chamo de chacina, a grande mídia chama de megaoperação. E alguns ainda têm a coragem de dizer que foi um sucesso, numa ode às mortes.
O Governo do Rio afirma que 117 suspeitos foram mortos. Parece óbvio que não se pode matar “ suspeitos”, salvo em legítima defesa.
As matérias estampam que: 78 tinham histórico criminal!
Opa, o título tinha que ser: 39 pessoas foram assassinadas sem nenhum histórico criminal!! Um massacre! Um crime a céu aberto! Uma chacina !
Os jornais estampam: 42 tinham mandados de prisão pendentes!
Opa! O título correto sem uma visão punitiva e que apoia a barbárie teria que ser: 72 cidadãos sem mandado de prisão foram mortos numa operação programada para prender suspeitos com mandados de prisão!
E, claro, as manchetes deveriam ressaltar que o local dos assassinatos não foi preservado. Falam em apreensão de 92 fuzis. Com quem? Não vi um registro, uma foto, uma comprovação que diga que o fuzil número tal estava de posse do morto tal. Não haverá como investigar. O local do crime foi criminosamente adulterado.
O Ministro Flávio Dino, que é duro em matéria penal, mas é sério, alerta sobre a necessidade de preservar a “qualidade da prova.” E ressalta o artigo 6º do CPP: “Logo que tiver conhecimento da prática da infração penal , a autoridade policial deverá:
I- dirigir- se ao local , providenciar para que não se alterem o estado e conservação das coisas, até a chegada dos peritos criminais.”
O que se viu foi uma destruição criminosa das provas. Os familiares e amigos tiveram que retirar os corpos e os levaram para serem amontoados no meio da rua. Claro que seria pueril querer que as pessoas que participaram do massacre fossem preservar provas que poderiam ser usadas contra eles.
E merece uma investigação – que não vai dar em nada – o estranho fato de que nenhum dos mortos na chacina consta na denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, que foi a origem da operação, planejada, dizem, durante 1 ano. Ou seja, dos 69 réus que constavam da denúncia, e que originou 48 mandados de prisão, nenhum está entre os assassinados ou presos. Ou seja, nas chacinas não há mesmo nenhum balizamento jurídico ou preocupação humanitária. É a violência da barbárie.
Triste e cruel a frase do comandante da chacina, o governador Claudio Castro, que afirmou logo após a matança, sem sequer saber que inúmeros inocentes tinham sido executados, tiros na nuca como prova de execução, “só tivemos 4 vítimas!” Se referindo aos 4 policiais infelizmente mortos, como se os 117 outros não fossem seres humanos, sujeitos de direito, com famílias e amigos.
E lembrando Mia Couto em homenagem aos familiares que foram assassinados – sim eram pessoas humanas com família e amigos: “a saudade é uma tatuagem na alma. Só nos livramos dela perdendo um pedaço de nós.”
Antonio Carlos de Almeida Castro KAKAY – advogado criminalista
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Rui Ribeiro
3 de novembro de 2025 10:15 amTire o dedo da ferida, Sr. Kakay.
“O Governo do Rio afirma que 117 suspeitos foram mortos. Parece óbvio que não se pode matar “ suspeitos”, salvo em legítima defesa.
As matérias estampam que: 78 tinham histórico criminal!
Opa, o título tinha que ser: 39 pessoas foram assassinadas sem nenhum histórico criminal!! Um massacre! Um crime a céu aberto! Uma chacina !
Os jornais estampam: 42 tinham mandados de prisão pendentes!
Opa! O título correto sem uma visão punitiva e que apoia a barbárie teria que ser: 72 cidadãos sem mandado de prisão foram mortos numa operação programada para prender suspeitos com mandados de prisão!” – Kakay
Entre as vítimas não havia inocentes, exceto quatro assassinos que foram assassinados. 17 vítimas não apresentaram histórico criminal. Segundo o $ecretário de $egurança do RJ, as vítimas que não apresentaram histórico criminal “eram pessoas que passavam despercebidas da atuação da polícia”.
Os assassinos preservaram a população civil inocente, conduzindo os suspeitos para a mata(douro). Já a população suspeita foi conduzida á mata não para ser preservada, mas para ser abatida.