5 de junho de 2026

O comum e o entre: a relação política democrática, por Eliseu Venturi

A relação política democrática é uma experiência de escuta. Não a escuta complacente, que apenas tolera o outro, mas a que suporta o ruído
Pablo Picasso. Busto de homem com chapéu, 1972.

▸A democracia valoriza a escuta e a convivência com o dissenso como forma de coexistência e vulnerabilidade institucionalizada.

▸O diálogo democrático é essencial para evitar a servidão política, pois o silêncio das massas ameaça a criação e o poder da palavra.

▸A democracia é uma prática de desejo que sustenta as diferenças sem buscar consenso absoluto, sendo um ato ético de confiança no risco compartilhado.

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O comum e o entre: a relação política democrática

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por Eliseu Raphael Venturi

Toda relação carrega o germe da política, porque onde há dois há também o problema do entre: o que se faz com o espaço que separa e, ao mesmo tempo, liga os sujeitos? A democracia não nasce da harmonia, mas da manutenção desse intervalo. Ela é a tentativa, sempre precária, de instituir o dissenso como forma de convivência — de transformar o conflito em linguagem, o desacordo em presença, a diferença em laço.

A relação política democrática é, antes de tudo, uma experiência de escuta. Não a escuta complacente, que apenas tolera o outro, mas a escuta que suporta o ruído, a fala que atravessa, o sentido que não coincide. Escutar, politicamente, é renunciar à pretensão de totalizar o mundo segundo a própria gramática. É admitir que o outro não é uma falha na comunicação, mas o próprio limite do eu. O autoritarismo, ao contrário, nasce da surdez: do horror à alteridade, da recusa em admitir que a verdade possa ser múltipla.

Enquanto a moral tenta domesticar o outro pela virtude e o direito o administra pela regra, a democracia o reconhece pela ausência de garantia. Ela não oferece salvação, apenas coexistência. É o regime da hesitação — aquele em que cada palavra pode ser revista, cada decisão pode ser questionada, cada poder pode ser atravessado por outro. Isso faz dela uma forma de vulnerabilidade institucionalizada, e é justamente o que a torna humana.

O encontro político, portanto, é um acontecimento de desorganização — assim como o encontro amoroso. Ele desestabiliza o sujeito, desloca identidades, convoca responsabilidades. Não é a soma de vontades, mas a criação de um campo simbólico comum, onde nenhum desejo é soberano. A política democrática começa quando o outro deixa de ser um inimigo a convencer e se torna um interlocutor a escutar, mesmo quando o que diz fere.

A democracia não teme o conflito; teme apenas o silêncio.
O silêncio das massas é o sinal de que a palavra perdeu seu poder de criação e o espaço público foi tomado pela técnica, pela propaganda ou pelo medo. O diálogo democrático é ruído, é imperfeição, é esforço de linguagem. Quando o debate é substituído por algoritmo, quando a dúvida é tomada como fraqueza, o laço político se transforma em servidão: o desejo de liberdade é capturado pelo conforto da obediência.

O risco, na democracia, é constitutivo. Ela não promete estabilidade, mas o exercício compartilhado do imprevisível. Diferente do autoritarismo, que oferece a falsa segurança da unidade, a democracia aposta no perigo do plural. E é por isso que ela é, no fundo, uma forma de coragem: a coragem de sustentar o outro sem precisar vencê-lo.

Toda relação democrática contém em si a possibilidade da ruptura. Mas essa ruptura, quando ocorre, não é o fracasso do laço — é o momento em que ele se torna verdadeiro. Rompe-se quando o poder se fecha, quando o entre é colonizado pela certeza, quando a escuta é substituída pela gestão. A morte da democracia é sempre um processo de dessubjetivação: ela morre não quando há conflito, mas quando o conflito deixa de ser simbólico.

A psicanálise pode ensinar algo essencial à política: que o sujeito não é indiviso, e que a fala é sempre equívoca. O mesmo se aplica à coletividade. Uma comunidade democrática não é feita de identidades que se somam, mas de diferenças que se sustentam. O “comum”, aqui, não é o consenso, mas a partilha do que não se resolve. O comum é o resto — aquilo que sobra depois que cada um diz o que pode e o que não pode, o que deseja e o que teme.

Nesse sentido, a democracia é menos um regime jurídico do que uma prática de desejo. É a aposta de que o poder pode circular sem se coagular, de que a linguagem pode reparar sem punir, de que o outro pode existir sem ser assimilado. Não é o governo da maioria, mas a arte de sustentar a minoria como lembrança de que o todo é impossível. É a política do intervalo — o entre que impede que o mundo se feche em sentido.

Sustentar a relação democrática é, portanto, um ato ético. É permanecer mesmo quando o diálogo falha, e partir quando a permanência se torna violência. É reconhecer que o sentido do encontro político está no instante em que ele abre espaço para o outro falar — e o da ruptura, no instante em que esse espaço é interditado.

A democracia é o lugar do risco compartilhado: o território em que se escolhe confiar sem garantias. Seu verdadeiro inimigo não é o autoritarismo exterior, mas a tentação interior de transformar o dissenso em erro. O sujeito democrático é aquele que suporta o não saber, que aceita a fragilidade do comum e, mesmo assim, insiste em participar dele.

Talvez a relação política democrática seja a última forma de humanidade possível — porque nela a força não está em vencer, mas em sustentar o entre. É nesse espaço de incerteza, de fala e de escuta, que o humano reencontra sua medida: nem absoluto, nem escravo, mas partícipe do que o ultrapassa. A democracia, afinal, é isso — a arte de existir com os outros sem precisar ser o mesmo.

Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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