18 de junho de 2026

“Sobe, Miss Brasil”: Rose Nogueira relata tortura na Ditadura Militar

Em depoimento, ex-militante descreve a violência e o terror psicológico sofridos no Dops, incluindo a presença do delegado Sérgio Fleury
Rose Nogueira, jornalista. Foto: Facebook Grupo Tortura Nunca Mais.

▸Jornalista Rose Nogueira relata tortura no DOPS durante ditadura militar em São Paulo, incluindo humilhações e ameaças de violência.

▸Depoimento detalha cenas de violência, abusos e ameaças sofridas por Rose Nogueira, ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN).

▸Rose Nogueira, hoje defensora dos direitos humanos, descreve momentos de terror e violência vividos durante prisão em 1969, em São Paulo.

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Leia abaixo trecho do depoimento da jornalista Rose Nogueira sobre a tortura que sofreu no DOPS em São Paulo durante a ditadura militar:

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Sob a Ditadura de 1964 era assim:

‘Sobe depressa, Miss Brasil’, dizia o torturador enquanto me empurrava e beliscava minhas nádegas escada acima no Dops. Eu sangrava e não tinha absorvente. Eram os ‘40 dias’ do parto.

Na sala do delegado Fleury, num papelão, uma caveira desenhada e, embaixo, as letras EM, de Esquadrão da Morte. Todos deram risada quando entrei. ‘Olha aí a Miss Brasil. Pariu noutro dia e já está magra, mas tem um quadril de vaca’, disse ele. Um outro: ‘Só pode ser uma vaca terrorista’.

Mostrou uma página de jornal com a matéria sobre o prêmio da vaca leiteira Miss Brasil numa exposição de gado. Riram mais ainda quando ele veio para cima de mim e abriu meu vestido. Picou a página do jornal e atirou em mim. Segurei os seios, o leite escorreu. Ele ficou olhando um momento e fechou o vestido.

Me virou de costas, me pegando pela cintura e começaram os beliscões nas nádegas, nas costas, com o vestido levantado. Um outro segurava meus braços, minha cabeça, me dobrando sobre a mesa. Eu chorava, gritava, e eles riam muito, gritavam palavrões. Só pararam quando viram o sangue escorrer nas minhas pernas. Aí me deram muitas palmadas e um empurrão.

Passaram-se alguns dias e ‘subi’ de novo. Lá estava ele, esfregando as mãos como se me esperasse. Tirou meu vestido e novamente escondi os seios. Eu sabia que estava com um cheiro de suor, de sangue, de leite azedo. Ele ria, zombava do cheiro horrível e mexia em seu sexo por cima da calça com um olhar de louco.

No meio desse terror, levaram-me para a carceragem, onde um enfermeiro preparava uma injeção. Lutei como podia, joguei a latinha da seringa no chão, mas um outro segurou-me e o enfermeiro aplicou a injeção na minha coxa.

O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’. ‘E se não melhorar, vai para o barranco, porque aqui ninguém fica doente.’ Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu fillho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro.

*ROSE NOGUEIRA, ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), era jornalista quando foi presa em 4 de novembro de 1969, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, onde é jornalista e defensora dos direitos humanos. Presidente do grupo Tortura Nunca Mais.

Clique aqui para ler o depoimento na íntegra.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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1 Comentário
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  1. AMBAR

    9 de novembro de 2025 1:56 pm

    E as “mulheres de bem” ainda acampam nas portas dos quartéis pedindo intervenção militar e ditadura. Um salve pra Débora do baton.

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