A crise climática já cobra um preço em vidas, e dois estudos publicados nesta quarta-feira (17) ajudam a dimensionar o tamanho dessa conta. No Brasil, aproximadamente 120 mil mortes entre 2000 e 2019 foram associadas a ondas de calor. No Reino Unido, pesquisadores identificaram um fenômeno emergente que pode transformar inundações e secas em crises simultâneas, tornando obsoletas as formas tradicionais de gestão de recursos hídricos.
A pesquisa brasileira, conduzida por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA), analisou dados de quase a totalidade dos municípios do país. Os resultados revelam que o calor extremo não afeta a população de forma homogênea: idosos, mulheres, pessoas com doenças respiratórias e indivíduos com menor escolaridade concentram os maiores riscos de morte.
“A inovação deste estudo está em integrar, em escala nacional, a caracterização das ondas de calor, considerando frequência, intensidade e duração, com uma análise detalhada de seus impactos sobre internações hospitalares e mortalidade”, afirmou Beatriz Oliveira, pesquisadora da Fiocruz.
Além da mortalidade, o estudo identificou aumento consistente no risco de internações por doenças respiratórias, renais e gastrointestinais durante períodos de temperaturas extremas. Crianças com menos de 10 anos apresentaram elevada vulnerabilidade a gastroenterites, agravadas pela desidratação e pela deterioração da qualidade da água e dos alimentos em dias de calor intenso. Entre os idosos, as doenças respiratórias, renais e metabólicas, incluindo diabetes, foram as mais associadas ao calor.
Desigualdade
Os dados mostram um gradiente social claro: quanto menor a escolaridade, maior o risco de morte durante ondas de calor. Os pesquisadores alertam para a necessidade de direcionar ações de adaptação climática prioritariamente aos grupos mais vulneráveis da população.
A maioria dos municípios brasileiros registrou aumento tanto na frequência quanto na intensidade das ondas de calor no período estudado. Os eventos mais frequentes e duradouros ocorreram nas regiões Norte e Centro-Oeste; os de maior intensidade em relação às médias históricas, no Sul e no Sudeste. O pesquisador Ismael Silveira, da UFBA, defende que os resultados justificam o reconhecimento das ondas de calor como risco de saúde pública e a criação de planos de contingência específicos no âmbito do SUS.
O efeito chicote nos rios
Do outro lado do Atlântico, um estudo publicado na revista científica Earth’s Future descreve o que os pesquisadores chamam de “chicoteamento hidroclimático”, transições abruptas entre períodos de seca severa e chuvas intensas em rios e bacias hidrográficas. O fenômeno tende a se intensificar com o aquecimento global, segundo pesquisadores da Universidade de East Anglia, que modelaram 698 bacias hidrográficas do Reino Unido sob cenários de aquecimento de 2°C e 4°C.
O mecanismo é relativamente direto: uma atmosfera mais quente retém mais umidade, o que intensifica tanto os extremos de precipitação quanto os de seca. Quando chuvas intensas caem sobre solos endurecidos após período seco prolongado, a água não consegue se infiltrar e escoa rapidamente pela superfície, aumentando o risco de enchentes repentinas, erosão do solo e contaminação de rios. Já a transição inversa, de períodos úmidos para secas rápidas, cria uma falsa sensação de segurança que pode comprometer o planejamento hídrico.
“À medida que o aquecimento aumenta, as abordagens tradicionais de planejamento para enchentes e secas podem não ser mais suficientes. Precisamos planejar para sequências de extremos, não apenas para um único evento”, observou a Dra. Yi He, da Universidade de East Anglia.
Em alguns casos, o número de eventos de chicoteamento pode mais que dobrar: de cerca de quatro episódios em um período de 30 anos (linha de base de 1981–2010) para até nove sob o cenário de aquecimento de 4°C. Os maiores aumentos para o tipo seco-para-úmido devem ocorrer no sul do País de Gales, na Irlanda do Norte e em partes do norte e do sudeste da Inglaterra.
Os autores defendem que as descobertas têm alcance global. O Reino Unido funciona como um caso de teste para regiões temperadas de todo o mundo, e os resultados sugerem que sistemas de gestão hídrica precisam ser repensados para lidar com sequências de extremos, e não apenas com um tipo de evento de cada vez.
Apesar das geografias distintas, os dois estudos apontam para o mesmo diagnóstico: a adaptação climática já é uma urgência, não uma política futura. No Brasil, isso significa fortalecer sistemas de alerta precoce para ondas de calor, integrar dados climáticos à vigilância epidemiológica do SUS e priorizar as populações mais vulneráveis. No plano global, implica repensar infraestruturas hídricas e planos de contingência para que sejam capazes de responder a extremos climáticos cada vez mais frequentes, intensos e, muitas vezes, sobrepostos.
*Com informações da Agência Brasil e The Guardian.
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