Convênios rotineiros com organismo internacional foram tratados como denúncia pela grande imprensa
Manchetes alarmantes dominaram as páginas principais do Estadão e da CNN Brasil nas últimas semanas. O alvo: um acordo entre a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) e a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) para a transmissão de 42 eventos da COP-30. A cobertura sugeriu irregularidades e favorecimento político, mas uma análise mais detalhada revela um cenário bem diferente.
O que foi noticiado como “escândalo”
As reportagens destacaram que a primeira-dama Janja Lula da Silva recebeu uma oferta para coordenar a Rede Ibero-Americana para a Inclusão e Igualdade, vinculada à OEI. Segundo as próprias matérias, ela “posou para foto ao lado do secretário-geral da entidade, Mariano Jabonero, mas nunca desempenhou efetivamente qualquer papel no cargo, devido a um recuo do governo”.
O tom da cobertura enfatizou que dos R$ 710 milhões em contratos firmados com 19 órgãos federais até abril, R$ 629 milhões (quase 90%) estariam “sob o guarda-chuva de ministros e dirigentes petistas”. Entre os órgãos citados: Casa Civil, Secretaria Geral da Presidência, Ministério da Educação e Ministério da Igualdade Racial.
Afinal, o que é a OEI?
A Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) é um organismo internacional criado em 1957, com sede em Madri, que reúne 23 países da América Latina, Espanha, Portugal e Andorra. Sua missão é promover a cooperação em três áreas principais:
Educação: programas de alfabetização, formação de professores, avaliações educacionais e cooperação entre ministérios da Educação dos países-membros.
Ciência: apoio à pesquisa, redes de inovação e projetos de tecnologia educacional.
Cultura: preservação do patrimônio, intercâmbios culturais e promoção da diversidade cultural ibero-americana.
A OEI funciona como agência de cooperação técnica, financiadora de projetos e plataforma de diálogo entre governos. É, portanto, natural que firme convênios com ministérios da Educação, Cultura, Igualdade Racial e órgãos da Presidência — justamente as áreas de sua atuação.
A comparação que faltou
Um exercício simples expõe o viés da cobertura: comparar o tratamento dado aos convênios da OEI com aqueles firmados pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS).
A OPAS, criada em 1902, atua na área de saúde pública e mantém diversos acordos com o Ministério da Saúde brasileiro. Recentemente, firmou termos de cooperação no valor de R$ 122 milhões para fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde. A cobertura dessas parcerias é invariavelmente positiva, destacando avanços em vacinação, fortalecimento do SUS e cooperação internacional.
Ambos são organismos internacionais legítimos, com décadas de história e reconhecimento internacional. Ambos firmam acordos milionários com o governo brasileiro em suas respectivas áreas de atuação. A diferença está apenas no enquadramento editorial.
Dois pesos, duas medidas
Quando a OPAS assina convênios com o Ministério da Saúde, a narrativa é de cooperação técnica e avanço institucional. Quando a OEI firma acordos com o Ministério da Educação e órgãos relacionados à cultura e igualdade racial, surge a insinuação de favorecimento político.
A menção aos “ministérios petistas” é particularmente reveladora. Como uma organização focada em educação, ciência e cultura não faria convênios com o Ministério da Educação ou da Igualdade Racial? Seria como criticar a OPAS por trabalhar com o Ministério da Saúde.
O episódio Janja
A oferta de um cargo de coordenação para a primeira-dama — que, segundo as próprias reportagens, nunca foi exercido — ganhou centralidade na cobertura. Porém, é comum que cônjuges de chefes de Estado assumam papéis em iniciativas de organizações internacionais, especialmente em temas como educação, cultura e inclusão social.
O fato de não ter assumido efetivamente a função, longe de ser evidência de irregularidade, sugere justamente o oposto: cautela institucional.
Jornalismo e checagem
O episódio levanta questões sobre os processos de apuração e checagem nas redações. Uma pesquisa básica sobre a OEI teria revelado sua natureza, histórico e legitimidade internacional. A comparação com outros organismos, como a OPAS, teria contextualizado adequadamente os valores envolvidos.
Em vez disso, números foram apresentados de forma alarmante, sem o devido contexto sobre o que é normal em cooperação internacional. Convênios que são prática rotineira na diplomacia foram transformados em “denúncia”.
Conclusão
A diferença de tratamento entre convênios similares evidencia como escolhas editoriais podem criar percepções distorcidas da realidade. Práticas rotineiras de cooperação internacional, quando enquadradas com viés político, transformam-se em “escândalos” onde não existem.
O caso da OEI ilustra a necessidade de rigor jornalístico, contextualização adequada e, sobretudo, coerência: se acordos com a OPAS são legítimos, por que acordos com a OEI seriam suspeitos?
A resposta não está nos fatos — que são similares em ambos os casos —, mas na narrativa construída ao redor deles.
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Edivaldo Dias de Oliveira
15 de novembro de 2025 11:25 amO GGN atribuindo incompetencia jornalística, onde há intenção premeditada.
Isso é recorrente no GGN, qual a razão de não assumir que tais atitude por para parte da grande mídia se trata de projeto contre governos progressista, que não existiam em outros governos. É só comparar.
José de Almeida Bispo
16 de novembro de 2025 8:39 amNada!
É má fé, na lata.
Como se diz por aqui, safadeza mesmo.
Cachorros de fateira. Gente asquerosa.
Crias do Sr. da Veja, o que perguntava todo início de semana: “O que é que temos esta semana PRA FERRAR OPERÁRIO, quando era apenas um líder partidário.
Na minha cidade houve um cidadão que, entronizado na Prefeitura, numa cidade ainda minúscula, onde não acontecia nada, de vez em quando, também em comando da polícia, ele mandava esta invadir o puteiro; bater nas coitadas (literalmente) que lá estavam, só PARA MOVIMENTAR A CIDADE, com o alarido das mesmas a pedir paz pelo amor de Deus. Esse é o modus vivendi de grande parte dessa elite: bater nos indefesos, ou pouco defendidos, para se vangloriar do poder que tem. C…!
Mário Mendonça
16 de novembro de 2025 9:41 amA resposta é simples: manipular a sociedade contra quaisquer progresso do país, afinal, nossas oligárquias sempre estiveram no comando do atraso!
Vladimir
16 de novembro de 2025 10:00 amA mídia golpista,apelidada pelo falecido Paulo Henrique Amorim,de PIG ,já prestou-se a ser protagonista de inúmeros golpes contra nosso país e nosso povo.
Hoje,diante de sua insignificância,presta a o papel de ser mera press release das chamadas mídias sociais golpistas,filhas não bastardas dela memso.
José Machado
16 de novembro de 2025 10:55 amOutubro, novembro, faltando um ano para eleições. Os golpistas começam a executar
o plano dos golpes.
A imprensa e o setor financeiro é golpistas e vão arrumar problemas, narrativas para eleger
a direita e a extrema-direita.
Essas operações policiais podem fazer parte do script sim.
ERNESTO
16 de novembro de 2025 1:29 pmNão desistem fácil. Agora mesmo ensaiando umas “jornadas de junho” lá no México. A Sheinbaum é dura na queda, mas que esteja atenta. Sempre a mesna tática manjada de pretensa juventude insurecta, ou combate à corrupção, ou narcoterrorismo. São pouco criativos, Não inovam na cantilena.