O discurso anti-diploma de Tarcísio serve a quem?
por Marcos Verlaine
Na véspera, última quinta-feira (13), do segundo dia de provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disparou frase que ecoou forte: “O diploma cada vez tem menos relevância”.
Para ele, e segundo este raciocínio, o mercado valoriza mais as habilidades — saber comunicar-se, resolver problemas complexos, dominar idiomas — do que o lugar onde estudou. Será que o governador ignora que o Brasil ainda é uma “sociedade bacharelesca”1?
À primeira vista, trata-se de discurso que empodera: jovens poderiam aspirar a boas carreiras sem necessariamente cursar universidade. Mas, sob a superfície, há claramente paradoxo que não pode, nem tampouco deve ser ignorado.
A opinião do governador é, para dizer o mínimo, simplista. E ainda subestima a realidade brasileira de profundas desigualdades sociais reais. Então vejamos.
PROFISSÕES MAIS BEM PAGAS VALORIZAM DIPLOMA
Vamos conectar a crítica de Tarcísio às profissões que lideram em remuneração no Brasil. Muitas das quais exigem ensino superior e se beneficiam fortemente do diploma. Alguns exemplos:
| PROFISSÃO | RELEVÂNCIA DO DIPLOMA | SALÁRIO MÉDIO / REMUNERAÇÃO |
| Médico especialista | Curso de medicina + residência / especialização | R$ 20.140/mês segundo levantamento da Pnad |
| Diretor geral / gerente geral | Muitas vezes exige graduação e MBA para grandes empresas | R$ 20.678/mês segundo dados da Pnad |
| Oficial maquinista em navegação | Formação técnica superior ou equivalente + certificação marítima | R$ 24.686/mês segundo levantamento |
| Diretor ou gerente de TI (Serviços de Informática) | Altamente valorizado, geralmente exige superior + experiência | Faixa de R$ 20 mil-36 mil em estudos de mercado de TI |
Além disso, estudos setoriais apontam que cargos de direção de tecnologia pagam muito bem. Por exemplo, segundo a Michael Page, gerentes de segurança/cyber recebem entre R$ 24 mil e R$ 29 mil em empresas de grande porte.
Esses números mostram que, para várias das carreiras mais rentáveis, não se trata apenas de experiência: o diploma continua sendo filtro e funil importante.
DISCURSO E RISCOS
Pelo menos 4 aspectos jogam por terra o discurso do governador: desigualdade de acesso, romantização do talento, desvalorização da universidade e desinvestimento no ensino superior. Então vejamos:
Minimiza a desigualdade de acesso: nem todos têm as mesmas oportunidades de desenvolver “habilidades valorizadas” sem acesso à universidade ou cursos técnicos de qualidade. A educação superior ainda é uma porta de mobilidade social para muitos.
Romantiza o “talento” técnico: dizer que o mercado prefere habilidades sobre diplomas pode dar a falsa impressão de que basta autodidatismo para chegar ao topo. Mas, na prática, os empregos mais bem remunerados ainda exigem certificações, credenciais e redes de contato que passam pela universidade.
Desvaloriza a função social da universidade: a universidade não serve apenas para formar mão de obra, mas também para produzir conhecimento, formar cidadãos críticos e engajados. Reduzir a graduação a “item de currículo” é empobrecer a visão sobre a educação.
Incentiva o desinvestimento público no ensino superior: ao defender o ensino técnico como alternativa, Tarcísio corre o risco de reforçar cortes ou subfinanciamento das universidades públicas, justamente quando muitos jovens viriam da base mais vulnerável.
DIPLOMA IMPORTA E AINDA É RELEVANTE
As profissões mais bem pagas no Brasil, como mostrado, continuam fortemente associadas ao nível superior ou técnico elevado; isso significa que o diploma ainda funciona como espécie de “cartão de entrada” para as profissões que exigem mais elaboração e as faixas salariais mais altas.
Mesmo em tecnologia — onde há discursos e propagandas sobre “carreira sem faculdade” — muitos cargos estratégicos — gerência, segurança e arquitetura —, valorizam candidatos com diplomas ou certificações formais.
ÂNCORA DECISIVA
A frase de Tarcísio pode atrair jovens inseguros sobre a necessidade de ter faculdade, especialmente em momento de pressão pela expansão do ensino técnico.
Mas, criticamente, ofusca a realidade de que o diploma ainda é uma âncora decisiva para acessar os cargos mais lucrativos e estáveis no Brasil.
Reconhecer a importância das habilidades é essencial? Sim, claro.
Mas propor a relevância do diploma como secundária, quando os dados mostram o contrário para as posições mais bem remuneradas, é negligenciar como funciona de fato o mercado de trabalho.
Educação formal superior é muito mais que “competência prática”: é estrutura, credencial e, ainda hoje, privilégio, infelizmente.
Marcos Verlaine – Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP
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1 Conceito que descreve uma sociedade, notavelmente a brasileira, que atribui importância excessiva a títulos e diplomas acadêmicos — especialmente o de bacharel em Direito — como critério exclusivo de inteligência, status social e acesso a posições de poder.
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Rui Ribeiro
17 de novembro de 2025 10:25 amSegundo Karaganov, a elite mundial se degenerou intelectual e moralmente. Em geral, o poder está sendo exercido por pessoas com “cérebros de hiena” no poder, pessoas completamente inconscientes das consequências de suas ações. Por isso, o diálogo com elas é inútil.
https://jornalggn.com.br/noticia/se-uma-guerra-maior-estourar-a-europa-simplesmente-deixara-de-existir/
Se o diploma tem cada vez menos relevância, então que o cérebro de hiena Tarcísio busque um curandeiro, em vez de um médico diplomado, para curar seus males quando ele adoecer. Ele topa?