5 de junho de 2026

As Índias Galantes, por Solange Peirão

Espetáculo integra a temporada lírica do Theatro Municipal de São Paulo, com apresentações entre 26 de novembro e 04 de dezembro.
Divulgação

1. Documentário “As Índias Galantes” registra criação de espetáculo baseado em ópera-balé de Rameau, estreando em Paris em 1735.

2. Espetáculo esteve em cartaz na Ópera Nacional de Paris, agora integrará temporada lírica do Theatro Municipal de São Paulo.

3. Nova versão da ópera aborda embates entre colonizadores e povos indígenas, com adaptações urbanas e diversidade cultural em destaque.

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As Índias Galantes

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por Solange Peirão

Documentário e Espetáculo

As Índias Galantes é um documentário de Philippe Béziat que registra o processo de criação do espetáculo adaptado da obra Les Indes Galantes, uma ópera-balé de Jean-Philippe Rameau, com libreto de Louis Fuzelier , e que estreou em Paris em 1735.

Essa nova montagem foi revolucionária. Como esclarece o diretor Clément Cogitore, se o texto original trata dos embates entre colonizadores europeus e os povos originários de todos os cantos do mundo, a proposta da nova versão foi fazer, da cidade, o mundo, e das diversas culturas urbanas que nela convivem, a sua matéria.

O espetáculo esteve em cartaz no braço da Ópera Nacional de Paris, situado na Place de la Bastille, entre setembro e outubro de 2019.

O documentário, por sua vez, esteve disponível para o público brasileiro durante o My French Film Festival de 2022.

Agora é a vez do espetáculo, ele mesmo, e com as devidas adaptações, integrar a temporada lírica do Theatro Municipal de São Paulo, com apresentações entre 26 de novembro e 04 de dezembro. Trata-se de uma parceria com o Instituto Francês, integrante do Ministério dos Negócios Estrangeiros, para celebrar o Ano França-Brasil.

A Ópera

Em síntese, pode ser expressa pelas peripécias, de toda ordem, que envolvem colonizadores europeus e os povos de além-mar, tanto à ocidente como à oriente, aqueles que genericamente foram classificados como as Índias.

Mares desconhecidos e tenebrosos, natureza “exótica”, palpitante, em estreita harmonia com os povos que a habitam e conhecem seus segredos. Idílios e disputas amorosas, entre os forasteiros e os da terra, provocando sentimentos ambíguos de atração, repulsa e culpa. Tudo isso é tema que a bela música de Rameau embala.

A tônica principal é a passagem do clichê do selvagem sanguinário para o bom selvagem, ideia que Rousseau introduziu, para tratar do indígena como população pura, não contaminada pela civilização. Evidentemente, a História se encarregou de desmascarar os verdadeiros interesses de dominação dos colonizadores, por trás dessa visão idílica.

A Nova Leitura da Ópera

Se as Índias agora se cruzam no espaço geográfico da cidade, e se estamos a falar do nosso tempo, é natural que as expressões culturais urbanas deem o tom. É nessa direção que vai o roteiro do espetáculo, ou seja, tratar da juventude e dos frequentadores habituais das ruas, suas trajetórias de vida pessoal e de suas comunidades de origem, seus sonhos, frustações e ameaças. Esses atores da vida real serão os novos personagens da história que Clément Cogitore irá contar, e que a coreógrafa Bintou Dembélé colocará em cena, por meio de uma linguagem corporal diversa: hip hop, krump, voguimg, popping, jumpstyle. Esse cadinho de “dancers” é originário de diversos países, literalmente de todos os continentes. Dá pra sentir com isso, inclusive, o alcance real dos movimentos migratórios das últimas décadas, sendo Paris um dos polos de atração.

A Estética do Documentário

Como não se encantar com a câmera estática, focalizando rostos e corpos que falam. Não só dos dançarinos, mas da orquestra e do coro, conduzidos, com competência, pelo maestro Leonardo García Alarcón. Magnífica a interação de todos esses atores, descobrindo entre si uma outra potência artística, até então mal conhecida.

A câmera passeia para dar conta das cenas de interpretação da peça propriamente dita, ou para mostrar a grandiosa montagem que assimila, com beleza, a tecnologia, e que contrapõe belos figurinos em uma mescla do antigo e do moderno.

No destaque para a música, temos razão para uma emoção especial. O ápice do espetáculo é a cena final, com o libreto mais conhecido e bonito, o Forêts paisibles (Florestas tranquilas). Há gravação, disponível na internet, sobre uma apresentação bem-humorada da Philharmonie de Paris.

O documentário termina com a cena da bela Praça da Bastilha, com seu monumento à frente da Opéra, evocativo da Revolução de 1830, que pôs fim ao período da Restauração, na França. A Coluna de Julho, encimada pelo Gênio da Liberdade, é oportuna para relembrarmos as palavras do diretor do espetáculo, quando afirmou que gostaria que a juventude tomasse a Bastilha. Ele provavelmente se referia ao prédio da Ópera Bastille, e não ao poder, como está presente, em nosso imaginário, quando pensamos na tomada primeira da Bastilha, durante a Revolução Francesa. Ou será que não?

O espetáculo que o Theatro Municipal de São Paulo apresenta, fechando sua temporada de 2025, certamente vem com as devidas adaptações, no tocante à orquestra, coro e corpo de bailarinos. Mas, tomando por base a produção original que o documentário nos apresentou, promete também ser encantador. A conferir.

Solange Peirão – Historiadora e Diretora da Solar Pesquisas de História

São Paulo, 29 de novembro de 2025

Clique para a apresentação da Philharmonie

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