O Brasil registrou 1.571 feminicídios em 2025, um crescimento de 4% em relação aos 1.504 casos contabilizados no ano anterior. O número representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia e marca o maior patamar desse tipo de crime desde que foi tipificado em lei, em 2015.
Os dados integram o Anuário da Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). O avanço da violência letal contra as mulheres ocorre na contramão do índice geral de mortes violentas intencionais no país, que apresentou queda de 8% no mesmo período.
Divergência nos indicadores
Em 2025, o país contabilizou 40.775 mortes violentas intencionais — categoria que engloba homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial. Trata-se do menor nível do indicador desde 2012, mantendo uma tendência de retração observada nos últimos anos.
Ao considerar apenas os homicídios dolosos, a taxa atingiu 15,4 mortes por 100 mil habitantes. A marca antecipa em dois anos a meta estabelecida pelo Plano Nacional de Segurança Pública do governo federal, que previa alcançar o índice de 16 mortes por 100 mil habitantes apenas em 2027.
Para David Marques, gerente de programas do FBSP, a redução geral reflete um avanço nas políticas públicas, embora ainda persistam gargalos. “A importante redução de mortes violentas intencionais entre 2024 e 2025 em mais de 8% é um dado bastante significativo. Consolida uma tendência de redução que a gente vem acompanhando desde 2018 nas estatísticas, praticamente ininterrupta”, disse Marques. “A gente está diante de um fenômeno a ser comemorado dentro da política de segurança pública do Brasil.“
A retração no número total de mortes violentas foi impulsionada por quedas expressivas em 20 das 27 unidades da Federação, com destaques para o Amazonas (-32,5%), Rio Grande do Sul (-25,7%) e Mato Grosso (-23,2%).
Escalação da violência doméstica
Apesar da melhoria nos dados gerais de criminalidade, a alta nos crimes contra as mulheres aponta para a persistência de fatores estruturais. Além do recorde de assassinatos consumados, o levantamento do FBSP indicou alta expressiva em outros crimes associados à violência doméstica e de gênero ao longo de 2025:
- Stalking (perseguição): +30%
- Violência psicológica: +17%
- Descumprimento de medida protetiva: +17%
- Tentativa de feminicídio: +6%
- Agressões por violência doméstica: +2,6%
- Ameaças: +0,5%
Para a coordenadora de Gênero e Raça do FBSP, Juliana Brandão, o cenário reflete um aumento real da violência, e não apenas uma melhora na notificação dos casos pelas polícias estaduais.
“Se a gente estivesse lidando apenas com a melhoria do registro, a gente ia esperar uma estabilização após alguns anos. Mas o que a gente tem observado é um crescimento que segue de forma contínua ao longo desse período de monitoramento“, afirmou Brandão.
Ela destaca que o ambiente de violência doméstica é “fortemente influenciado” pela desigualdade de gênero e por padrões culturais de dominação masculina, como o controle coercitivo sobre a vida e a autonomia das mulheres, além da fragilidade na rede de proteção às vítimas.
Dinâmica regional e ações federais
Estatísticas complementares do Monitoramento Nacional da Violência contra a Mulher, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e pelo Ministério das Mulheres, apontam oscilações no primeiro semestre. Na comparação regional acumulada, as regiões Centro-Oeste (+19%), Sul (+19,2%) e Sudeste (+2,6%) apresentaram alta nos casos registrados, enquanto Norte (-20%) e Nordeste (-19,9%) registraram redução.
Entre os estados, as maiores altas percentuais foram observadas em Goiás (113%), Sergipe (71,4%), Amazonas (66,7%) e Santa Catarina (33,7%).
Diante do cenário, o governo federal lançou um pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio com a participação do Executivo, Legislativo e Judiciário, com foco na agilização da análise de medidas protetivas e no fortalecimento das redes locais de atendimento às vítimas.
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