23 de julho de 2026

Vanguarda que guarda, por Henrique Morrone

Há quem se coloque como intérprete do futuro. Falam com convicção, gráficos bem domesticados e uma familiaridade perniciosa com o amanhã.
Francisco Pájaro - Arte na Rua

O texto de Henrique Morrone discute a ideia de avanço econômico que preserva estruturas antigas, sem romper com o passado.
Otávio, economista da Faria Lima, defende crescimento moderado e calibrado para evitar descontrole e manter a confiança do mercado.
A vanguarda, segundo o autor, administra o futuro com cautela, garantindo mudanças contidas e mantendo o sistema econômico vigente.

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Vanguarda que guarda

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por Henrique Morrone

Dizem que é preciso avançar.
Desde que o avanço só desorganize os outros.

Há quem se coloque como intérprete do futuro. Falam com convicção, gráficos bem domesticados e uma familiaridade perniciosa com o amanhã. Antecipam movimentos, calibram expectativas, traduzem o mundo em curvas suaves.

Tudo limpo.
Técnico.
Inexorável.

Mas há algo que não perece.

Por trás da linguagem fronteiriça, repousa um vocabulário antigo.
Trocam-se os termos, preservam-se os limites.
Atualiza-se a forma, mantém-se o conteúdo.

A vanguarda, nesse caso, não inaugura.
Administra.

Otávio, economista da Faria Lima, explica com serenidade:

— A gente precisa ter parcimônia, né. Crescer, sim, mas sem descontrole. O mercado olha isso.

Fala arrastado.
Enquadra tudo no seu tom.

— Não dá pra forçar muito. Tem que ir calibrando.
— É o que dá pra fazer.

Otávio não grita.
Pondera.

E, ao ponderar, delimita.

Recomendam prudência quando o crescimento ameaça escapar.
Invocam responsabilidade quando a renda ensaia espraiar.
Sugerem moderação quando o presente insinua o futuro.

Nada contra a cautela.
O problema é quando deixa de ser escolha.

A economia passa a ser vigiada.

Avança-se, desde que para dentro.
Expande-se, sem alterar o desenho.

Por fora, tudo é moderno.
Relatórios sofisticados, modelos refinados, projeções em alta definição.

Por dentro, a engrenagem repete.

Não é erro.
É escolha.

Há uma arquitetura incolor que se impõe.
É nela que a vanguarda se acomoda, para que tudo siga funcionando.

A dissonância não aparece como conflito.
Surge como consenso técnico.
E o consenso, como sempre, não precisa se explicar.

No fim, não falta mudança.
Ela é contida.
A novidade chega disciplinada.
O impulso, filtrado.
O possível já nasce enquadrado.

E assim seguimos.
Assistindo à encenação de um futuro que não rompe,
apenas troca de roupa.

Porque, no fundo, o que se chama de vanguarda
cumpre bem a sua função:
guardar o passado, a sete chaves,
e calibrar o futuro
até que ele caiba
num nada organizado.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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