O Brasil possui custos de produção industrial superiores aos europeus na maioria dos setores estratégicos. Sem políticas industriais compensatórias, o país corre o risco de se transformar em mercado consumidor de produtos europeus, em vez de manter-se como polo produtivo.
Vamos a uma análise comparativa dos custos de produção nos principais setores industriais, com base mas estudos da Eurostat, da Comissão Europeia, OCDE e UNIDO.
A Equação de Custos: Onde o Brasil Ganha e Perde
Vantagens Competitivas Brasileiras
- Energia: 2 a 3 vezes mais barata que na Europa
- Mão de obra: Custos salariais significativamente menores
Desvantagens Estruturais Críticas
- Juros altíssimos: Encarecem capital de giro e investimentos
- Impostos indiretos: Elevados e complexos (embora a reforma tributária prometa melhorias)
- Logística: Cara e ineficiente, elevando custos de distribuição
- Produtividade: Inferior aos padrões europeus
- Segurança jurídica: Apenas média, gerando incertezas
O problema central: as desvantagens superam as vantagens em setores de maior valor agregado.
Competitividade por Setor (Índice: Europa = 100)
Automotivo: 92 a 105
O Brasil praticamente perdeu a vantagem de custo.
A produção nacional compete em condições similares ou piores que a europeia. Com a eliminação gradual das tarifas (atualmente até 35%), a importação de veículos prontos torna-se economicamente mais atraente.
Impactos esperados:
- Aumento de 25% nas importações de veículos europeus
- Pressão sobre fábricas locais e empregos industriais
- Risco para a cadeia nacional de autopeças
Quem ganha: Montadoras europeias
Quem perde: Cadeia de fornecedores nacionais
Farmacêutico: 115 a 140
Produzir no Brasil custa até 40% mais que na Europa
O setor enfrenta múltiplas fragilidades:
- Dependência quase total de insumos químicos importados
- Regulação lenta e burocrática
- Escala de produção reduzida
- Alto custo financeiro
Na prática, a indústria brasileira realiza principalmente montagem final, enquanto produtos de maior valor agregado já vêm prontos da Europa.
Impactos esperados:
- Aumento de 6% a 12% nas importações
- Risco de desindustrialização farmacêutica
- Maior dependência externa em saúde pública
Quem ganha: Big pharma europeia
Quem perde: Indústria nacional de genéricos
Máquinas e Equipamentos: 110 a 130
Diferença brutal: Brasil até 30% mais caro
A cadeia produtiva europeia é madura e integrada. No Brasil:
- Fornecedores locais são escassos
- Peças e componentes precisam ser importados
- Estoques caros devido aos juros elevados
Com redução de tarifas (até 18%), importar equipamentos prontos torna-se mais vantajoso que produzir localmente.
Impactos esperados:
- Aumento de 10% nas importações
- Perda de capacidade de engenharia local
- Redução de investimentos em P&D
- Eliminação de empregos qualificados
Quem ganha: Alemanha e Itália
Quem perde: Fabricantes nacionais
Elétricos e Automação: 105 a 125
Brasil 15% a 25% mais caro
O país já importa produtos premium. As fábricas locais concentram-se em modelos antigos e de menor complexidade tecnológica.
Quem ganha: Siemens, ABB, Bosch
Quem perde: Fabricantes nacionais
O Comportamento Real das Multinacionais Europeias
Volkswagen, Stellantis, BMW
Estratégia: Brasil como plataforma de montagem regional
- Componentes importados da Europa
- Produção local condicionada a incentivos fiscais e tamanho de mercado
- Com o acordo: mais importação de veículos prontos, menos investimentos industriais novos
Sanofi, Bayer, Roche
Estratégia: Produção limitada no Brasil
- Maior valor agregado vem importado da matriz europeia
- Com o acordo: Brasil consolida-se como mercado consumidor, não polo industrial
Siemens, Bosch, ABB
Estratégia: Diferenciação por geração tecnológica
- Fábricas brasileiras produzem modelos antigos
- Produtos premium importados da Europa
- Com tarifa zero: importação substitui produção local
Impacto Macroeconômico Projetado
Aumento estimado: +US$ 3,3 bilhões/ano em importações industriais (cenário central)
Efeitos Colaterais Estruturais
- Redução de investimentos produtivos
- Pressão sobre empregos industriais qualificados
- Diminuição de atividades de P&D local
- Risco central: Brasil transforma-se em “showroom tecnológico europeu”
Conclusão: O Desafio da Política Industrial
A análise revela uma contradição fundamental: enquanto o acordo promete integração comercial, a estrutura de custos brasileira pode levar à substituição de produção por importação.
Sem uma política industrial robusta que endereça:
- Custo do capital (juros)
- Infraestrutura logística
- Produtividade industrial
- Desenvolvimento de cadeias de fornecedores
- Investimento em P&D e inovação
O acordo pode acelerar a desindustrialização em setores estratégicos, aumentando a dependência externa justamente nas áreas de maior conteúdo tecnológico e empregos qualificados.
Leia também:
Paulo Dantas
20 de janeiro de 2026 10:28 amÉ sempre ruim de qualquer forma.
Tanto faz.
🙂
José de Almeida Bispo
20 de janeiro de 2026 12:13 pmSe correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.
O Brasil – e toda a América do Sul – é uma periferia geográfica. Longe de tudo. Logo, jamais deve praticar o mesmo modelo da Eurásia e América do Norte.
Roland Matt Rola
20 de janeiro de 2026 3:26 pmÉ exatamente por decisões como essa, que programas como “nova indústria Brasil” não passam de pura conversa fiada!