10 de junho de 2026

Acordo Mercosul-União Europeia: os riscos de desindustrialização, por Luís Nassif

Enquanto o acordo promete integração comercial, a estrutura de custos brasileira pode levar à substituição de produção por importação.
Reprodução

Brasil tem custos industriais maiores que Europa, ameaçando sua posição como polo produtivo e favorecendo importações.
Setores automotivo, farmacêutico e máquinas enfrentam custos até 40% superiores, elevando importações e riscos de desindustrialização.
Sem política industrial eficaz, Brasil pode perder empregos qualificados e capacidade tecnológica para multinacionais europeias.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O Brasil possui custos de produção industrial superiores aos europeus na maioria dos setores estratégicos. Sem políticas industriais compensatórias, o país corre o risco de se transformar em mercado consumidor de produtos europeus, em vez de manter-se como polo produtivo.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Vamos a uma análise comparativa dos custos de produção nos principais setores industriais, com base mas estudos da Eurostat, da Comissão Europeia, OCDE e UNIDO.

A Equação de Custos: Onde o Brasil Ganha e Perde

Vantagens Competitivas Brasileiras

  • Energia: 2 a 3 vezes mais barata que na Europa
  • Mão de obra: Custos salariais significativamente menores

Desvantagens Estruturais Críticas

  • Juros altíssimos: Encarecem capital de giro e investimentos
  • Impostos indiretos: Elevados e complexos (embora a reforma tributária prometa melhorias)
  • Logística: Cara e ineficiente, elevando custos de distribuição
  • Produtividade: Inferior aos padrões europeus
  • Segurança jurídica: Apenas média, gerando incertezas

O problema central: as desvantagens superam as vantagens em setores de maior valor agregado.

Competitividade por Setor (Índice: Europa = 100)

Automotivo: 92 a 105

O Brasil praticamente perdeu a vantagem de custo.

A produção nacional compete em condições similares ou piores que a europeia. Com a eliminação gradual das tarifas (atualmente até 35%), a importação de veículos prontos torna-se economicamente mais atraente.

Impactos esperados:

  • Aumento de 25% nas importações de veículos europeus
  • Pressão sobre fábricas locais e empregos industriais
  • Risco para a cadeia nacional de autopeças

Quem ganha: Montadoras europeias
Quem perde: Cadeia de fornecedores nacionais

Farmacêutico: 115 a 140

Produzir no Brasil custa até 40% mais que na Europa

O setor enfrenta múltiplas fragilidades:

  • Dependência quase total de insumos químicos importados
  • Regulação lenta e burocrática
  • Escala de produção reduzida
  • Alto custo financeiro

Na prática, a indústria brasileira realiza principalmente montagem final, enquanto produtos de maior valor agregado já vêm prontos da Europa.

Impactos esperados:

  • Aumento de 6% a 12% nas importações
  • Risco de desindustrialização farmacêutica
  • Maior dependência externa em saúde pública

Quem ganha: Big pharma europeia
Quem perde: Indústria nacional de genéricos

Máquinas e Equipamentos: 110 a 130

Diferença brutal: Brasil até 30% mais caro

A cadeia produtiva europeia é madura e integrada. No Brasil:

  • Fornecedores locais são escassos
  • Peças e componentes precisam ser importados
  • Estoques caros devido aos juros elevados

Com redução de tarifas (até 18%), importar equipamentos prontos torna-se mais vantajoso que produzir localmente.

Impactos esperados:

  • Aumento de 10% nas importações
  • Perda de capacidade de engenharia local
  • Redução de investimentos em P&D
  • Eliminação de empregos qualificados

Quem ganha: Alemanha e Itália
Quem perde: Fabricantes nacionais

Elétricos e Automação: 105 a 125

Brasil 15% a 25% mais caro

O país já importa produtos premium. As fábricas locais concentram-se em modelos antigos e de menor complexidade tecnológica.

Quem ganha: Siemens, ABB, Bosch
Quem perde: Fabricantes nacionais

O Comportamento Real das Multinacionais Europeias

Volkswagen, Stellantis, BMW

Estratégia: Brasil como plataforma de montagem regional

  • Componentes importados da Europa
  • Produção local condicionada a incentivos fiscais e tamanho de mercado
  • Com o acordo: mais importação de veículos prontos, menos investimentos industriais novos

Sanofi, Bayer, Roche

Estratégia: Produção limitada no Brasil

  • Maior valor agregado vem importado da matriz europeia
  • Com o acordo: Brasil consolida-se como mercado consumidor, não polo industrial

Siemens, Bosch, ABB

Estratégia: Diferenciação por geração tecnológica

  • Fábricas brasileiras produzem modelos antigos
  • Produtos premium importados da Europa
  • Com tarifa zero: importação substitui produção local

Impacto Macroeconômico Projetado

Aumento estimado: +US$ 3,3 bilhões/ano em importações industriais (cenário central)

Efeitos Colaterais Estruturais

  • Redução de investimentos produtivos
  • Pressão sobre empregos industriais qualificados
  • Diminuição de atividades de P&D local
  • Risco central: Brasil transforma-se em “showroom tecnológico europeu”

Conclusão: O Desafio da Política Industrial

A análise revela uma contradição fundamental: enquanto o acordo promete integração comercial, a estrutura de custos brasileira pode levar à substituição de produção por importação.

Sem uma política industrial robusta que endereça:

  • Custo do capital (juros)
  • Infraestrutura logística
  • Produtividade industrial
  • Desenvolvimento de cadeias de fornecedores
  • Investimento em P&D e inovação

O acordo pode acelerar a desindustrialização em setores estratégicos, aumentando a dependência externa justamente nas áreas de maior conteúdo tecnológico e empregos qualificados.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Paulo Dantas

    20 de janeiro de 2026 10:28 am

    É sempre ruim de qualquer forma.

    Tanto faz.

    🙂

  2. José de Almeida Bispo

    20 de janeiro de 2026 12:13 pm

    Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.
    O Brasil – e toda a América do Sul – é uma periferia geográfica. Longe de tudo. Logo, jamais deve praticar o mesmo modelo da Eurásia e América do Norte.

  3. Roland Matt Rola

    20 de janeiro de 2026 3:26 pm

    É exatamente por decisões como essa, que programas como “nova indústria Brasil” não passam de pura conversa fiada!

Recomendados para você

Recomendados